Cravos brancos no céu, para ti, Fátima…

Querida Fátima,

as palavras para falar de ti perdem-se no turbilhão das emoções que a tua partida para o Pai Eterno criou em todos nós. Tu sabes, minha querida amiga, como eu passei a amar os silêncios e que tudo entrego nas mãos de Deus, desde a tua alegria infinita até à dor indizível da tua partida.

Se tu soubesses como o teu “Liceu” e todos os teus colegas ficaram abalados com o absurdo da tua doença e a inevitabilidade da tua morte! Há um horário de filosofia por completar, há uma sala sem a sua professora, há um sorriso contagiante que não se vê e, acima de tudo, há alunos por abraçar. Sim, sempre os alunos em primeiro lugar. Amá-los, era esse o teu lema. Esses alunos que passaste mais de trinta anos a abraçar, que reencontraste formados ao serviço dos hospitais e que, mesmo aí, com uma sentença de morte pela frente, seguraste sempre o sorriso e elogiavas aqueles que tinham saído da  moldura da escola e agora prestavam vénias à Senhora Professora. Quantos projetos empreendedores e vencedores orientaste, quantas horas gastaste a escutar e, mesmo sem perceber os sinais da doença, erguias-te, hirta e firme, para a sala de aula, porque os alunos não podiam esperar. E tremias mas não cedias, e sofrias mas sorrias, e subias, trémula, confusa e cansada as escadas da escola, mas não saias de cena.  Não deste sequer folga à elegância e graciosidade que tanto te caracterizavam. Em tudo, sempre quiseste dar a volta ao texto.

Eras assim, Fátima: guerreira, poderosa, sorridente e vencedora.

De março a outubro, pude testemunhar a tua batalha face a um diagnóstico sem justiça, inapelável. Chegaram as noites escuras à tua vida e à tua família. Em nenhum momento tu entregaste as armas. Prendeste as lágrimas no coração e fazias do calvário vitória, de tal modo que nos deixavas atónitos e confundidos com a tua coragem. Não se preocupe, Rosário, está tudo a correr bem, está tudo controlado, eu vou superar isto… e eu orava e quanto! Ela sabia como orava e o quanto a quis levar a Nossa Senhora de Fátima. Mas santos da casa não fazem milagres. E mesmo quando as palavras se perderam com a debilidade das faculdades, abanavas sempre com a cabeça a dizer que tudo estava “ótimo”. Sei que sempre te orgulhaste do teu marido, o meu querido amigo Maurílio, mas o desvelo dele e dos filhos, apesar de varados pelo absurdo da tua doença, foram a melhor das homenagens a tanto que lhes deste.

Santo Agostinho conforta-nos dizendo que

 “A morte não é nada.

Eu somente passei

para o outro lado do Caminho.” (…)

Não utilizem um tom solene ou triste,

continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

 (…)

 

As tuas flores. O cravo branco que me deixas por companhia.

Por fim, seria injusto não mencionar o teu lar, a Quinta da Ramadinha, o teu paraíso na terra, o zelo com que cuidavas da vinha, das belíssimas flores e da horta. O teu refúgio de um mundo sem sentido. Mesmo com a dura sentença da doença, tu davas flor. Lembras-te ainda daquela vez em que, antes de fazeres um dos duros tratamentos no hospital, passaste cedo pela minha casa para deixar dois vasos de cravos brancos porque sabias o quanto eu e a Inês gostamos de flores? Disse-te que os coloquei junto a Nossa Senhora de Fátima. Acontece que, talvez acompanhando o declínio da tua saúde, ambos os vasos secaram nos idos de maio. Um deles morreu completamente. Mas o outro mantinha os ramos, mas completamente seco. Guardei-o na mesma. No início da semana que passou, vejo que, no meio da secura, a planta ganhara vida, com um único e viçoso cravo branco. Fiquei atónita a pensar no seu significado. Enviei a foto ao teu marido e eis a sua resposta: dizem que os cravos brancos simbolizam as mães que já partiram…

Eu fico a pensar que a tua morte não é o fim, como bem aconselha Santo Agostinho. Onde tu estiveres, há vida eterna, a verdadeira vida, da pureza, da verdade, da santidade. Tu não nos deixaste sós. Cravos brancos florescem da aridez do mundo para celebrar a verdadeira vida nos céus.

Até sempre, querida Fátima, até ao dia do nosso reencontro.