Em memória do historiador João José Abreu de Sousa

Faleceu, no passado dia 17, o historiador e professor João José Abreu de Sousa.

Com excepção do Funchal Notícias, a sua morte foi praticamente ignorada pela comunicação social. Estava há anos impedido de participar do bulício do quotidiano – é certo. Mas deixou obra, e grande! Quem o leu? A mediocridade tem dificuldades em distinguir os verdadeiros valores. Mais depressa reconhece cores.

João José tinha plena consciência da efemeridade da vida e das coisas. Quando em Junho de 1995 lhe pedi um autógrafo no livro acabado de editar, História rural da Madeira: a colonia, escreveu em latim uma frase de Lucrécio: Iam fuerit, nec post, unquam revocare licebit (em breve, o nosso tempo não será e não o poderemos recordar).

JOÃO JOSÉ ABREU DE SOUSA (1937-2020). Foto gentilmente cedida por Francisco Clode de Sousa.

Era o decano dos historiadores madeirenses. Estudioso de várias matérias, a História foi a área disciplinar da sua formação e da sua predilecção.

Não cultivou o mediatismo. Era presença rara e discreta em conferências, apresentações de livros, exposições ou outros eventos culturais. Habitualmente não frequentava colóquios ou congressos. Contudo, em 1986 participou no I Colóquio Internacional de História da Madeira com a comunicação «O Senhorio das Ilhas Desertas». Reservava as conversas para os amigos. Com estes, muitas vezes falava mais do que ouvia, mas a sua voz era escutada com gosto.

O seu labor historiográfico manifesta-se em vários livros e artigos em publicações periódicas. Historiador que privilegiava as fontes documentais, à sua leitura e interpretação dedicou grande parte da sua vida. Abriu caminhos inovadores em campos nunca trabalhados na História da Madeira, como, por exemplo, o porto do Funchal e o hinterland ou a faceta empresarial, no domínio da agro-pecuária, do Convento de Santa Clara. Deixou-nos numerosas transcrições de fontes primárias nas monografias publicadas, para comprovar as suas conclusões e simultaneamente possibilitar outras e renovadas leituras.

Em muitos estudos, Abreu de Sousa preocupou-se em entender a apropriação do espaço, a relação do madeirense com a propriedade fundiária, a acumulação de riquezas e as relações sociais que o sistema económico suscitava, em especial a colonia, tema que, no seu entender, «mais do que ser julgado deve ser compreendido». Se é certo que na documentação histórica colhia os elementos mais consistentes para as suas análises, também é verdade que não menosprezava o trabalho de campo, anotando metodicamente o que ouvia e observava.

Na sua formação como historiador, denota-se a influência de Virgínia Rau (1907-1973), sua professora. Nutria particular admiração pela sua obra.

O seu contributo para a História da Madeira é amplamente reconhecido pelos historiadores. A Região deveria também estar-lhe grata por tantos anos de trabalho em prol do conhecimento do arquipélago e da construção e afirmação da identidade cultural insular.

Natural da freguesia de São Pedro do concelho do Funchal, nasceu em 6 de Abril de 1937, sendo filho de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de Abreu e Sousa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1999, sendo já um reconhecido e probo investigador, defendeu a sua dissertação de mestrado em História na Universidade da Madeira, intitulada A Revolução Liberal na Madeira. Foi a primeira prova de mestrado da nossa Universidade.

Exerceu a docência no Continente e nesta Região Autónoma, chegando a ser professor metodólogo no então denominado ciclo preparatório. Nos últimos anos da sua actividade profissional, foi professor da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal.

A morte é inexorável, mas a obra perdura.

Bibliografia:

Documentos da História e Geografia de Portugal. Lisboa, 1975.

O movimento do porto do Funchal e a conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: alguns aspectos. Funchal, 1989.

O Convento de Santa Clara do Funchal. Funchal, 1991.

História rural da Madeira: a colonia. Funchal, 1994.

História da freguesia de São Pedro. Funchal, 1999.

A baba de mar: romance. Funchal, 2002. Escrito sob o pseudónimo: José Lino.

A essência do Poder: a ‘De Re publica’ de Cícero: ensaio. Funchal, 2006.

Os capitães do Porto Santo: uma árvore de costados dos Perestrelos portugueses. Funchal, 2007.

O bolo de mel: ex-libris da doçaria madeirense. Funchal, 2008.

Colaborou nas publicações periódicas Das Artes e da História da Madeira (1966-1967), Atlântico (1985-1989), Islenha (1987-2007), Girão (1989-1993) e no Diário de Notícias do Funchal, na década de 80 do século passado.