Um cantinho do céu chamado Madeira?

Nos meus tempos de faculdade, aquando da minha entrada no ensino superior, em Lisboa, constatei que o estilo societário que se vivia na ilha da Madeira era um tanto ou quanto diferente do vivido na grande metrópole. Desde logo a extensão territorial, as distâncias entre pontos ditos centrais, a azáfama do CBD, as gentes e tantos outros factores que tornam a capital do País distante da pérola do atlântico, nem que não seja só pelo facto de uma ser totalmente rodeada por um extenso mar, por vezes bramindo, e outra apenas com o mar embrenhado na sua extensa linha de costa.

Lembro-me dos primeiros tempos, aqueles em que estranhava alguns acontecimentos, não por serem estranhos, mas por serem distantes da minha realidade. O estilo de vida apressado, o trânsito de uma metrópole, a insegurança de alguns locais da cidade levam-me a uma reflexão sobre o estado da segurança da Madeira face a Lisboa.

Se formos analisar os dados do Relatório Anual de Segurança Interna de 2019 e tendo em conta os dados mais recentes de 2018-2019 temos que na região de Lisboa foram registados 87.690 crimes de natureza diversa em 2018 sendo que em 2019 o número de ocorrências diminuiu para 84.498, registando uma diminuição de 3,6 % face ao ano anterior. A Madeira, por sua vez, atravessa a tendência inversa, pois entre 2018-2019 regista um crescimento do número de ocorrências na ordem dos 5,1 %, tendo 324 novas ocorrências face a 2018.

Estes números podem não demonstrar numa primeira análise um alarme significativo, mas se formos analisar o índice de ocorrências per capita a realidade mostra-se preocupante, sendo necessário um acompanhamento e reflexão não só dos órgãos de governo, mas também de todos os sectores que compõem a sociedade civil.

Desde muito cedo, era eu apenas um mero catraio, que ouvia dizer na gíria comum que a Madeira era um cantinho do céu, que a minha ilha era um pequeno paraíso, que na minha ilha a segurança imperava de noite ou de dia e que a segurança era palavra de ordem. Passado estes anos todos, será que os números são apenas alarmantes? Ou será que esses números escondem uma dura realidade?

Recentemente, tem-se assistido a uma quantidade de fenómenos surreais de criminalidade na Madeira, ou porque vandalizam estátuas históricas em jardins da região, ou porque assaltam restaurantes, bares, ou porque simplesmente existe um bando de miúdos parvos que não tem consciência que existem pessoas que trabalham de forma honesta e digna e que contribuem para dinamizar a economia da região nestes tempos pandémicos que vivemos.

Quando se fala do aumento da criminalidade existe sempre aqueles iluminados que se escudam logo no argumento básico de que é necessário o reforço das forças policiais, que a polícia tem de estar presente em toda a parte, que se a polícia tivesse estado presente nenhum furto tinha acontecido. Entendo que seja fácil falar, fácil de apontar o dedo, mas será que é mesmo necessário termos uma segurança policial reforçada que lembra um verdadeiro estado policial de alguns filmes norte-americanos?

A minha resposta é não. Se acho que existem esquadras na região que necessitem de maior financiamento, de melhores equipamentos, de melhores condições de combate ao crime? A minha resposta é sim. Agora não acho razoável que se culpabilize uma classe que tanto tem feito pela nossa região. As forças de segurança têm o dever de zelar pelo bem-estar e pela ordem pública, mas não podem ser constantemente responsabilizados pelos crimes que sucedem semana após semana.

A Madeira tem de evoluir enquanto sociedade. Temos de atuar na prevenção, na educação em casa, nas escolas, nos centros comunitários, temos de ser mais rigorosos na educação e nos valores que incutimos aos nossos jovens. Não é tolerável que em pleno século XXI existam jovens que pratiquem crimes de vandalismo sem nenhuma causa aparente. Esta situação é que, a meu ver, necessita urgentemente de uma medida eficaz não só a nível do governo regional, mas da sociedade civil como um todo. Pais, professores, educadores e instituições de apoio social têm de se unir e agir na base da formação e integração dos valores dignos de uma sociedade.

É imperativo apostar numa estratégia comum, coesa e de médio-longo prazo de forma a dar as ferramentas necessárias aos intervenientes da sociedade civil: dar-lhes formação de como educar gerações vindouras, munir-lhes de técnicas para controlo de situações de risco, formar-lhes a nível da pedagogia, dar a possibilidade de formação educativa de prevenção de risco e controlo de jovens problemáticos a todos membros da comunidade educativa dos vários agrupamentos de escolas, reforçar o acompanhamento formativo e psicológico nos centros de acção social e casas de abrigo de jovens em risco e criar um fórum alargado na sociedade civil onde se possa debater de forma frequentemente todos estes temas, criando assim condições para acompanhamento frequente do estado da situação na região.

Esta situação é preocupante e precisa que todos nós façamos a nossa parte, seja em casa, no trabalho, na rua, em toda a parte. Porque o futuro da região depende das novas gerações e que isso seja a bandeira de todos daqui por diante.

 

*o autor escreve segundo a antiga ortografia da língua oficial portuguesa*


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