Beirute, a cidade que, apesar de tudo, mas mesmo tudo, recusa desaparecer

Rui Marote
A 21 de Março de 2015 publicava no Funchal Notícias uma crónica de viagem sobre Beirute, considerando-a como uma cidade que sobreviveu a tantas destruições que merece ser chamada de “cidade que se recusa a desaparecer”. Decorreram mais de cinco anos desde que encerrei a minha primeira crónica de viagem das quatro que publiquei sobre o Líbano, das quais hoje transcrevo alguns parágrafos.
No centro de Beirute até um homem-rã encontrei…
Beirute, antes tarde do que nunca! Quando pensei visitar essa cidade, 90 por cento das pessoas com quem falava franziam a testa e retorciam a boca num esgar! Porém, a minha curiosidade aumentava. Adoro ir a lugares aonde a maioria das pessoas tem medo de ir, quando sei que, na maioria das vezes, esse medo é absolutamente infundado.
Beirute é uma cidade fascinante, árabe, cristã, francesa, traumatizada pela guerra mas cheia de vontade de viver e de divertir. Está é no meio de um autêntico barril de pólvora, e literalmente: “Não adivinhava que no porto se encontravam 2.750 toneladas de nitratos de amónio”. A minha referência era somente geográfica, um país com a Síria ao Norte e a leste e com Israel ao Sul.
Recebeu o apelido de “Paris do Oriente” pela sua atmosfera cosmopolita. A cidade está dividida em duas partes: Beirute Ocidental, habitada por sunitas, e a oriental, habitada pelos cristãos. Os muçulmanos xiitas e palestinos vivem em bairros reconhecidamente  marcados. O Líbano tem uma população de 9 milhões de pessoas e nas montanhas vive 1 milhão e meio e refugiados sírios. Na altura reportava que era uma cidade segura (que de forma alguma deve afastar quem deseja visitá-la). Nos dias de hoje, porém, o cenário é outro… uma cidade destruída, que acompanhamos através das imagens transmitidas pelas cadeias de televisão.

Há cinco anos constatei que os libaneses demonstravam uma coragem e dinamismo ao pôr em marcha projectos de reconstrução da zona central da cidade, com a construção de novos edifícios e restauro de antigos prédios.
Em 2015 quando projectei esta viagem, contactei a embaixada do Líbano em Itália, pois o país não tem representação diplomática em Portugal. Os portugueses não necessitam de visto.

Mas há regras, a primeira das quais não existir no passaporte um carimbo de entrada em Israel. O ofício da representação diplomática em Itália finalizava com um “buona giornata” (boa viagem). Israel e o Líbano não tem relações diplomáticas, fruto das circunstâncias históricas. No aeroporto, o meu passaporte foi vasculhado folha por folha, e fui bombardeado com imensas perguntas. Não tenho cara de rabino nem de judeu ortodoxo. Se fosse indiano, aí talvez …

Mas logo o carimbo soou na página do passaporte e respirei de alívio. Nos dias de hoje o vizinho odiado oferece -se para prestar ajuda, fazendo parte do grupo de países a intervir.
A história de Beirute é muito antiga. O seu nome aparece em inscrições que datam de 14 antes de Cristo. Era uma cidade fenícia na antiguidade.

Em 1920, os franceses designaram a cidade como capital do Líbano e o país só se libertou da França em 1943, quando foi declarada a independência. A arquitectura e a língua absorveram muitos elementos da cultura francesa. Houve uma guerra civil que durou 15 anos, de 1975 a 1990. Após 16 anos de calma, veio a guerra com Israel em Julho de 2006, um ataque que em 34 dias devastou Beirute. Em 14 de Fevereiro de 2005, o primeiro-ministro Rafik Hariri foi morto com outras pessoas, quando uma carga de explosivos foi detonada na passagem da sua comitiva para o hotel Saint George’s.
Estátua do primeiro ministro assasssinado, Rafik Hariri
O Líbano fundou a 5 de Maio de 1994 a “joint-venture” Solidere que gozava de poderes especiais de domínio eminente, bem como uma autoridade reguladora limitada codificada pela lei  tornando a empresa uma forma única de parceria público-privada. Objectivos: reconstruir o centro de Beirute e fazê-la voltar adquirir o estatuto “Paris do Oriente”. Para tal chamaram os melhores arquitectos do mundo. Nasceram novos arranha-céus e hotéis de luxo, marinas, avançou-se em escavações arqueológicas projecto esse que durou 22 anos. Era como que um “novo Dubai”.
Frente mar de Beirute, o antes e o depois, nas imagens divulgadas pelos media internacionais…
Hoje voltou à estaca zero, uma cidade destruída, arrasada e com manifestações de rua que poderão fazer renascer o cenário de guerra civil. Um país onde a corrupção é gritante, e onde o presidente francês Macron quer liderar os apoios de reconstrução com outros líderes mundiais.
Entristece-nos a esmola do Vaticano à Igreja libanesa anunciada pelo Papa Francisco, de 250.000 euros nestes momentos de dificuldade e sofrimento. Um sinal de preocupação com a população afectada pela explosão no porto de Beirute, sim, mas pobrezinho Vaticano…