Os nossos padres: servos de Deus ou gestores de património?

 

Como é habitual, a Diocese do Funchal fez mudanças em algumas paróquias da Madeira. Independentemente das motivações e das reações, mais ou menos apaixonadas, julgo que é mais pertinente refletir sobre o papel do sacerdote num mundo que cada vez mais prescinde de Deus. Apesar de católica, habituei-me a ver o sacerdote como uma figura respeitável mas cinzenta porque herdeiro de um sistema obsoleto e descompassado da atualidade. Como jornalista, há cerca de 15 a 20 anos, era impossível não ter querelas com os padres porque, às nossas perguntas, surfavam na onda ziguezagueante das meias palavras, trancavam-se nas suas torres celestiais e as relações com os pecadores da imprensa eram quase inexistentes ou então embrulhadas no azedume. Foi assim no tempo da cobertura abrasiva do Caso Padre Frederico, foi assim ainda nos tempos iniciais do episcopado de D. António Carrilho.

Mais recentemente, e fruto de uma experiência de Deus que tive na minha vida, passei a olhar para o sacerdote de outra maneira, ou seja, no exercício de tentar vê-lo com os olhos de Jesus e colocar no centro de tudo, até do próprio padre, não ele enquanto pessoa, mas o que a palavra de Deus preconiza. Sim, porque nestas coisas, importa pouco beltrano ou sicrano, mas sim a lei de Deus vivida ou não no sacerdote e na sua comunidade. Esta tem sido uma experiência interessante, por um lado, porque se redescobre o servo de Deus que, na sua solidão e sacrifício pessoal, entrega a sua vida ao serviço da comunidade. Mas, por outro lado, tenho muita pena de dizê-lo, tem também sido uma experiência dececionante verificar, dia após dia, que o sacerdote se transformou num funcionário do culto, diria mesmo, num leitor alinhado da palavra de Deus que a recita sem unção e, consequentemente, sem tocar no coração de quem o escuta.

Refletindo sobre aquilo que vejo, que me inquieta profundamente, não posso deixar de pensar nisto: o que está a acontecer com os nossos padres? Terão perdido a Fé? Como poderão falar do tesouro que é o Amor de Deus num tom cinzento, circunspecto e monocórdico, fazendo lembrar alguém que anuncia que ganhou o euromilhões com um semblante cinzento e um sorriso amarelo? Bem sei que o Papa Francisco clama por uma igreja da alegria, em saída, de braços abertos ao rebanho carenciado, mas a verdade é que o desejo do Papa é isso mesmo, apenas um desejo.

Como cristã, considero que se os sacerdotes falham, também nós estamos a falhar porque não lhes pedimos contas, não os ajudamos verdadeiramente na sua missão. O que terei feito para ajudar o meu pároco? Essa também é a questão essencial. Mas, sempre que medito nisto, esbarro em vários obstáculos. O primeiro logro é achar que a sabedoria teológica faz do homem um bom sacerdote. Ora, não basta conhecer a Bíblia de fio a pavio e demais códigos da igreja para ser um bom ministro de Deus na terra. Quantos génios do saber académico desiludem plateias por não saberem comunicar? Aliás, quem não tem uma verdadeira experiência de Deus não a pode jamais comunicar ao seu rebanho. E adianta muito pouco o saber académico e menos ainda os títulos. Sem uma experiência de Deus e sem o escudo zeloso da oração contínua, quanto mais promovido, de cónego a cardeal, mais distante do servo de Deus na terra estará, porque engolido pelo institucionalmente correto, pelo deslumbramento dos títulos e pela burocracia do ofício.

O segundo logro do sacerdote é achar que a colocação numa paróquia é uma espécie de emprego com direito a mordomias semivitalícias. Os padres não são administradores nem gestores do património das paróquias nem são candidatos ao empreendedorismo e à inovação empresarial. São servos daquele que se fez o maior servo de todos. Alguns mergulham de cabeça e investem em grandes empreitadas para depois lembrar ao povo que é preciso contribuir para o passo dado maior que a perna. Outros ainda alimentam uma linha de beatas, muito solícitas a ajudar a igreja, mas que se tornam nas primas donas dos templos e exercem sobre o sacerdote uma pressão quase superior ao Bispo e a Deus. Há ainda outros sacerdotes que, para parecerem modernos, penduram-se excessivamente nos palcos e nas redes sociais, quando nas suas ruas e nas casas dos seus paroquianos há fome da palavra de Deus, de uma fé viva, com obras reais de misericórdia.

Pergunta-se: há padres que fazem a diferença? Sim, graças a Deus, ainda há. Mas, com mágoa afirmo, contam-se cada vez mais pelos dedos…

Então, o que está a falhar? Atrevo-me a dizer que a maioria dos padres manda orar mas, eles próprios, dominados pela agenda e pelas pressões do mundo, deixaram de orar. Digo orar e não rezar. Digo estar, sozinhos, diante do Sacrário diariamente, uma ou duas horas, no mínimo, para escutar a palavra de Deus e pedir que o Espírito Santo os mova, lhes dê sabedoria e conduza o seu magistério. Digo orar ao Espírito Santo antes de tomar decisões, colocando-se nas mãos do único Senhor, Jesus, e menos na sua inteligência de homens pecadores. Sim, celebram missa atrás de missa, falam educadamente com o povo, celebram sacramentos, mas a relação com Deus deixou de ser construída e, quando assim é, o sacerdote deixou de ser um pastor para ser um funcionário do culto e, algumas vezes, refém do inimigo de Deus.

Dito isto é pertinente questionar: de quem é a culpa? De todos nós. Das hierarquias que abandonam os seus sacerdotes à mais absoluta solidão das suas tarefas e necessidades, a desdobrar-se numa agenda ritualizada que diz pouco ou nada a pessoas que não conhecem sequer o tesouro que é Deus e, por isso, não podem amar o que não conhecem verdadeiramente. Culpa também é da falta de formação contínua dos sacerdotes para renovarem o seu magistério, para se reinventarem nos testemunhos de Deus junto do seu povo. Falem menos e eduquem mais com a vossa conduta e testemunho de vida. Aprendam com quem corre o mundo a dar formação aos sacerdotes, não tenham medo de inovar centrados sempre na luz do Evangelho e não em modas ou teatros. Não basta um retiro anual do clero, de uma semanita para encharcar-se novamente de teologia. Aprendam com aqueles sacerdotes que fazem da sua missão o que a palavra de Deus determina, um serviço permanente ao outro, uma oração vigilante e incessante, a alegria contagiante do Espírito Santo quando tudo teima em desmoronar, o perdoar setenta vezes sete quem ofende… Culpa também é de cada cristão que deixou de ensinar aos filhos a importância de uma educação religiosa sólida como a base para comportamentos responsáveis e verdadeiramente livres.

Perante tudo isto, haverá razões para a esperança ou sequer para a mudança? A minha resposta é esta: se houver verdadeira oração dos cristãos, dirigida à ação do Espírito Santo sobre os sacerdotes que começam nas paróquias e sobre aqueles que continuam a sua missão, se os sacerdotes orarem verdadeiramente e demoradamente ao Espírito Santo, milagres acontecerão e deixaremos de ter uma igreja morna e desistente. Por favor, não se apeguem nem a bens nem a pessoas.  Gostaria que os sacerdotes, como os leigos, não estivessem distraídos quando Jesus passar. E como Ele passa por cada um de nós através do mendigo que nos estende a mão, de quem nos ofende, dos feridos de amor… Será que somos capazes de ver neles o rosto de Jesus?