As razões dos meus porquês são várias. Como tal, comecemos pelos nossos – Francisco Bento de Gouveia, meu avô paterno, nascido no sítio o Lugar, em Ponta Delgada. Esse “talentão” nas palavras de prefácio do Dr. João Luís de Góis no livro “Francisco Bento de Gouveia-1873/1956. Vida e Obra”, publicado em 2000, foi a minha primeira fotobiografia.
Há dias, li no nosso Diário de Notícias que um agricultor, do Porto da Cruz, deu uma entrevista longa a propósito do seu INVENTO – produziu uma cerveja artesanal, apenas e só com as UVAS! Saberá ele que esse invento foi criação do meu avô Francisco Bento, nos idos anos 54?
Foi Francisco Bento o inventor da CERVEJA VÍNICA, no ano de 1954, cuja patente do invento, registada no “Diário do Governo”, com o nº 30.662, é a verdadeira segurança, é o segredo do seu fabrico que deverá conservar-se inviolável… “Na cerveja vínica portuguesa só entram, como matérias básicas, os produtos da UVA. E, entretanto, é uma cerveja completa e da mais alta categoria, sem o menor sabor ou cheiros vínicos. A sua espuma e perfume riquíssimo são característica fundamental de uma boa CERVEJA… A base do invento já patenteado ninguém mais o poderá aplicar em Portugal em produtos similares.” (citação de ” Subsídios para a constituição do organismo que há – de explorar A CERVEJA VÍNICA, outubro de 1954).
Ainda extraída de uma entrevista feita a Francisco Bento, ele disse : (…) O PROFESSOR SVEDBERG, detentor do Prémio Nobel, anunciou ao mundo em 1952 haver descoberto a fórmula de fazer prolongar a vida da cerveja por seis meses, então computada em 60 dias-quando em baixa graduação, estaria longe de supor que um modesto cientista português havia descoberto a conservação e por tal forma ilimitado, que lhe permite ser a ÚNICA que pode ir de um a outro extremo do globo em barris ou garrafas sem se alterar.”
O meu porquê é o seguinte: será então só este um invento original? Saberá o produtor o que implica o fabrico, havendo já um PATENTEADO?
I – Ainda mais um porquê: ainda no Pelouro das Toponímias, antes da vigência da dra. Rubina Leal, foi-me prometido e enviado um esboço de uma nova artéria em Santo António, à qual seria dado o nome de Francisco Bento de Gouveia, mas passado tempos a resposta foi que o projeto mudara e nome NADA! Voltei a insistir, mas nem sequer a Câmara Municipal de S. Vicente ao “implantar” nomes dos lugares, deu o se nome, o seu génio talentoso, a nenhuma artéria, por exemplo a rua do sítio do Lugar, onde ele nasceu!
- Por sua vez, na presidência camarária do dr. Paulo Cafôfo, a quem ofereci o livro do meu avô (ele desconhecia), voltei a lembrar a promessa de dar o nome de Francisco Bento, a esse homem genial a quem o Funchal deve a MADEIRA FILME, por ele criada nos anos 20 (ver citações no Diário de Noticias da época), um “self made man” nas palavras elogiosas dos críticos; por volta dos 16 anos já tocava numa Orquestra Filarmónica em S. Vicente e dedicou-se à música, sendo 1º Bandolim do Septeto Passos Freitas, tocando qualquer instrumento (houve um piano de meia cauda na Casa da Ponta Delgada ); foi Secretário da antiga Junta dos Vinhos com outro amigo fez o 1º mapa da cidade do Funchal (existem dois: um o Museu Vicentes e outro no Arquivo Regional); trabalhou desde 1905/6 no Diário Popular, no Funchal, a convite do Sr. Manuel P. Favila Vieira e, mais tarde, em 1913/14 , foi o 1ª director do novel “Diário da Madeira “. Em 1927, mudou-se para Lisboa como jornalista, a convite do seu amigo Vieira de Castro.
III. Convém, também, referir a sua paixão pela Química. Ainda em Ponta Delgada existe o edifício do Engenho do Serrado comprado pelo meu trisavô Norberto d’Ornellas Jr, onde ele fabricou vinhos licorosos, os quais eram vendidos pela firma Ornellas & Gouvêa . O nome era Fábrica da Conceição e ficava situada numa moradia na estrada Conde Carvalhal. Ainda com essa paixão pela Química teve em Lisboa uma Empresa de nome SIQUIL, onde foi produzida a Cerveja Vínica. Os múltiplos inventos, têm dado os seus frutos. Agora digam-me: não merece, muito justamente, o seu nome no Funchal? Continuo a batalhar para ser reconhecido o seu mérito. Marconi vinha à Ilha encontrar-se com ele e resta também acrescentar que por si próprio falava várias línguas, como Inglês e Francês.
- Outro meu porquê diz respeito às ARTES: quantos artistas plásticos, deste século, sabem quem foi Mestre António Soares, um dos grandes pintores modernistas dos anos 20, a par dos irmãos Franco, que como ele foram premiados em Paris nos anos 30? E, lanço este meu porquê uma vez que a minha família juntou as LETRAS – HORÁCIO BENTO DE GOUVEIA com as ARTES – ANTÓNIO SOARES, meu cunhado. Este grande pintor, do grupo dos Modernistas, foi um artista nato, membro da Escola de Belas Artes de Lisboa, donde era natural. A sua obra, desde 1914 a 1977, está patente em todos os Museus Portugueses e no estrangeiro (IBM-Nova York). Os grandes painéis que cobrem os tectos da Assembleia da Républica, em Lisboa, são da sua autoria; os quadros da Brazileira do Chiado, onde ele se encontrava com o seu amigo Fernando Pessoa, ambos Astrólogos; os quadros do célebre York Bar, Museus do Chiado, do Teatro e Dança, Caramulo, Banco BCP e outros mais. O seu quadro mais conhecido ” Natacha”, no Museu da Gulbenkian, vem citado nos livros de ARTE. Durante a sua longa vida artística, fez cenários para o cinema, o teatro, retratista especialmente, tendo nos Paços de Vila Viçosa o quadro de D. Luísa de Gusmão. Em 1994, no centenário do seu nascimento, a então directora regional da Cultura, Sra. Escultora Maria Manuela Aranha, presenteou o Museu de Arte Contemporânea (Forte de Santiago), com uma grande Exposição de Mestre António Soares. Veio também nessa altura o grande aguarelista portuense Jaime Izidoro e foi muito apreciada, igualmente pelo dr. José Sans-Trueva, então director do Museu.
Então, por que é que, aqui na nossa Ilha, com um Museu Internacional, não existe um único quadro deste distinto Modernista? O seu espólio, deixado ao meu marido (1º director da Casa-Museu Dr. Horácio Bento em Ponta Delgada), dr. Américo M. Soares, está na nossa Galeria de Arte, em Santo Tirso, com pelo menos dois grandes óleos, presentes em várias exposições. Um dos quadros é um belo óleo que representa os “Anjinhos”, que estão no Palácio de Queluz, na Sala do Trono.
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