Pelo caminho ia, no carro dos meus pais, empoleirada no meio dos bancos da frente, a tagarelar ininterruptamente. E a imaginar o que me trariam de Lisboa. Era sempre um acontecimento ir ao aeroporto buscar os tios que estavam a estudar fora.
Era ver-me a desfilar no aeroporto com aquela etiqueta no peito inchado como se de um Grande-Colar da ordem da Liberdade se tratasse. A primeira vez que viajava sozinha. Sozinha não, a cargo das hospedeiras. O que era incomensuravelmente melhor.
Fui um dia com os meus avós jantar ao restaurante do último piso. Não íamos pôr nem buscar ninguém. Fomos só jantar ao aeroporto. Comi batata frita de pacote na varanda enquanto me deleitava com a dança dos aviões. O descolar e o aterrar magistralmente orquestrado. Perdi-me a imaginar para onde iriam e de que terras vinham todas aquelas pessoas.
A excitação de ir à descoberta de Paris. Encontrar-me com o restante Clube Europeu do Liceu no aeroporto. Todos sem quase ter dormido com a excitação, mas sem que a pele o acusasse. O colagénio ainda era muito. Todos sedentos de mundo. A expetativa era inebriante e a felicidade quase palpável. Descobri que viajar fazia-me feliz.
Pelo caminho ia no banco detrás, a olhar e a despedir-me do mar. Os meus pais no banco da frente. Silêncio sepulcral. Eram sempre assim as viagens até ao aeroporto quando me ia embora. Quando estava a estudar fora. Subir as escadas rolantes e baixar-me no topo para o último olhar e abraço sem toque. Cabeça para cima e vamos a isso.
A trabalhar e sem despesas nem encargos. Bela vida. Lá estava eu sempre caída no aeroporto. Sempre à descoberta. Na varanda, enquanto fumava o último cigarro, via a dança dos aviões. O descolar e o aterrar magistralmente orquestrado. E perdia-me a imaginar as terras para onde ia.
Tenho um amigo que diz que ir ver os aviões a aterrar e levantar é coisa de vilhão. Que é o mesmo que sentar-se na paragem a ver os autocarros a chegar e a arrancar. Mas não é a mesma coisa. Até porque não preciso de engolir um Xanax para me enfiar num autocarro.
Há coisa mais madeirense que ir ao aeroporto ver os aviões? É coisa de vilhões. Sim. Com todo o orgulho.
Como era antes ir ver os navios a chegar. Ver as roupas das inglesas e a nova moda dos bigodes dos cavalheiros.
O aeroporto para um ilhéu é (quase) tudo. Sítio de reencontros saudosos. De despedidas dolorosas com olhos no são regresso. Nossa porta para o mundo e de chegada do mundo.
E agora isto.
Nunca imaginei ter medo do que dali vem. Como pode passar de tão bestial a besta?
Nunca imaginei que se clamasse quase a uma só voz, fechem o aeroporto. Não fechou, mas quase. E que paz que isso nos trouxe.
Mas não pode durar para sempre. Quimera impossível de vida isolada do resto do mundo. Livres da praga, mas miseráveis em pouco tempo, com certeza. De dinheiro e de espírito.
Vai abrir. Tem de abrir. Com as medidas de segurança possíveis. Arrisco a dizer as melhores possíveis.
Mas tenho medo. Não consigo dizer o contrário.
Cabeça para cima e vamos a isso. Olhos no futuro.
Vou voltar um dia a estar sentada naquela varanda, a comer batata frita de pacote e a fumar o último cigarro, a deleitar-me com a dança dos aviões. O descolar e o aterrar magistralmente orquestrado. Vou voltar a perder-me a imaginar viagens e descobertas e finalmente livre de pensamentos pandémicos.
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