Quando a cabeça não tem juízo…

Vivemos num tempo que tememos mais o silêncio do que as próprias palavras. Basta pensarmos no terrível silêncio do novo coronavírus que tem circulado descontrolado, invisível e livre por todos os cantos e recantos do mundo.

No entanto, olhar para esta crise epidémica como uma excelente oportunidade – não importa qual – para alguns, em detrimento de outros tantos, é simplesmente uma vergonha, mas infelizmente, em determinados casos, foi e está sendo mesmo uma realidade nua e crua.

Bem sabemos que neste planeta, nunca faltaram cabeças iluminadas, mais conhecidos por cambada de “chico espertos”, que estão sempre à espreita de oportunidades, independentemente de prejudicar os outros. Muitas destas repugnantes criaturas politizaram-se mesmo com o novo coronavírus.  Vamos a um mero exemplo, entre outros tantos possíveis: uns determinados representantes políticos da nossa praça, afirmaram, há pouco tempo, que não queriam usar a política  – provavelmente julgando tirar daí alguns supostos dividendos, já no próximo ano –, referindo-se a um determinado caso, relativamente à cerca sanitária imposta – bem e para o bem de todos – na Freguesia de Câmara de Lobos, e vejo-os a comentar, deliberadamente, o assunto nos subsequentes dias nos matutinos regionais e nas redes sociais. E reparem que, os ditos cujos, ainda têm o descaramento de referir que, “mas eu não vou fazer política com esta situação dramática.” Perante estas atitudes, temos que ter mesmo muita (im)paciência, pois segundo as palavras do sociólogo português Rui Brites: “a tendência é para que os medíocres ocupem o poder, mas sem sombra para dúvidas”.  E não é que, para terminar este parágrafo, fica mesmo bem o seguinte provérbio: “Quem se pica, alhos trinca” ou se preferirem, “Cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem”.

Já agora, triste, foi também assistir à forma como alguns madeirenses – felizmente pouquíssimos – enxovalharam Câmara de Lobos, após a deteção de um contágio local de COVID 19, que levou à cerca sanitária naquela freguesia. Sobre o caso, encheram as redes sociais com algumas mensagens de uma tremenda desumanidade.

Estranhamente confuso, tem sido também, o comportamento de alguns jornalistas que parece que não ouvem – ou fingem não ouvir ­ – as respostas nas conferências de imprensa diárias do IASAÚDE sobre o balanço da COVID-19 Madeira e repetem, constantemente, as perguntas dos outros colegas que já foram respondidas.

Quando a cabeça de alguns não tem juízo, assistimos, cruelmente, a um crescer de pessoas individuais e coletivas com uma doentia necessidade populista de mostrar que estão a ajudar a população mais necessitada. Mas na verdade, muitas dessas instituições classificadas de utilidade pública, não fazem mais do que cumprir as suas próprias funções, com a entrega de cabazes alimentícios ou outros, pagos por todos os contribuintes ou gentilmente doados à população socialmente identificada como carenciada e de fracos recursos económicos.  Pois quando a cabeça não tem juízo parece que tem que haver sempre um aproveitamento político ou outro. E atenção que, para não passarem despercebidos, têm mesmo o ruim descaramento de colocarem umas fotografias com os cidadãos a receber os respetivos bens, acompanhadas com o seguinte chavão em letras garrafais: SEMPRE NA LINHA DA FRENTE. Há que aproveitar a arte do impacto visual. Sinceramente, atrevem-se mesmo a dizer que estão “sempre na linha da frente”, palavras que não combinam, verdadeiramente, com as ações. Julgo que quem recebe a ajuda não merece passar por esse terrível constrangimento de exposição coletiva. Hoje e sempre, há que penalizar quem usa a fraqueza do outro para se promover. Estes comportamentos lembram-me uma frase da peça “Otelo” de William Shakespeare: “Hoje há quem dê as mãos e corações não.” E sabem mais, até assino por baixo as palavas do delegado regional da ANAFRE, Celso Bettencourt, referindo à ação das Juntas de Freguesia da RAM, neste período da COVID-19 “… muito do trabalho feito não é visível, porque a ajuda tem respeitado a privacidade de quem é apoiado”. Para que não fique em dúvida, sou apologista que é um gesto humano e muito bonito ser solidário e poder ajudar, verdadeiramente, sem segundas intenções, os que menos têm.

Outro apontamento curioso que tenho observado tendo em conta o contexto de confinamento em que vivemos: quando saio para o desempenho das minhas funções profissionais, ou mesmo à varanda, nunca vi tantas pessoas a passear os cães na rua, como nestes tempos de estado de emergência. Há passeios caninos por todo o lado. E percebemos facilmente que muitas dessas pessoas não têm por hábito passear os seus cães, pois tanto os animais como as pessoas circulam desorientadas pelos passeios e bermas das estradas. É caso para dizer: quando a cabeça não tem juízo o cão é que paga.

Também, há muito pouco tempo, no país de Camões, Pessoa e Herberto Hélder, os contribuintes, antidemocraticamente, foram obrigados a ajudar a banca e agora, na era do COVID-19, a banca marimba-se, estupidamente, para os contribuintes.

Nesta crónica não coloquei como habitualmente a cultura como tema central, pois sentir a cultura neste momento é muito diferente do que era. No entanto, nunca se esqueçam que apesar da distância que nos separa, a cultura é, e será sempre uma ponte que nos une.