Um por todos, todos por um

Lembro-me de estarmos agarradas a um rádio, trazido à socapa, numa qualquer aula na Apresentação de Maria, a sorver avidamente todas as palavras debitadas. Pré-adolescentes hormonais com imaginações férteis. A Guerra do Golfo. Foi a primeira vez que senti medo pelo coletivo. Pela sociedade e pela vida como a conhecíamos.

A primeira e última vez, acho eu.

Sucederam-se tantas hecatombes, tantos fins do mundo, tantas montanhas que pariram ratos, tantos Lobos, que deixei de acreditar no Pedro.

Fiquei vacinada.

Para o novo Coronavírus não há vacina.

A doença chinesa. Longe. A informação e contrainformação.

A confusão. Ora perigosa como nenhuma outra doença ora menos grave que uma comum constipação. Sem meios termos esta informação bipolar. E nós sem saber o que pensar.

Os casos a aumentar. Mais próximos. Os casos sempre a aumentar e cada vez mais próximos . E de repente já aqui ao lado.

E o medo. O medo voltou.

Nerd até ao tutano, masco distopias e histórias apocalípticas como gorilas de banana. Não pelo negativismo, mas pelo que revelam da natureza humana. Do que somos capazes no limite. O bom e o mau.

Por isso tenho medo. Mesmo que o secretário-geral da ONU diga que estes tempos são de factos e não de medo, eu analiso os factos e o que sinto é medo.

Medo que os inconsequentes, os egocêntricos teimem em continuar a fazer a sua vida normal. Que os jovens se encham de uma imunidade imaginária e da invencibilidade típica da idade e se esqueçam que podem estar a assinar a sentença de morte da avó que lhes limpava as lágrimas quando esfolavam o joelho e do avô que lhes ensinou a jogar xadrez.

Medo que Portugal seja daqueles alunos que não dão para a escola. Que não esteja a aprender com os erros dos outros. Too little too late.

Medo de que o Governo de António Costa não se deixe de subserviências e receios servis e do por agora não vemos razões para fecharmos fronteiras. Quando Espanha está a afundar-se aqui ao lado.

Medo que não veja que será preciso fechar tudo. Ou quase. Que então mais vale fazê-lo já.

Medo que não se deixe de merdas.

Medo que não percebam que (só) uma linha telefónica não vai resolver a coisa. Linha que era paga ainda por cima. Pasme-se.

Medo que o SNS colapse. Pelas peles já estava, desinvestido, parente pobre. Medo que não dê vazão, que lhe falte tudo.

Medo que os profissionais de saúde sejam infetados. Que entrem em burnout, exaustos, desvalidos.

Medo que, entre o tempo que escrevo isto e o que me lêem, a situação aqui na Madeira já tenha mudado. Que o vírus já esteja entre nós.

Medo que, por nos estarmos a fechar, depois ninguém nos valha. Em bom falar madeirense, à rebendita.

Medo do que virá depois. Da recessão, talvez sem precedentes, do desemprego, da pobreza. Porque estamos todos interligados neste mundo feliz e infelizmente globalizado.

Medo de vivermos o mesmo que em Itália, com os médicos obrigados a travestirem-se de Deus, a decidir quem morre e quem merece a hipótese de sobreviver.

Medo, terror, de que se chegarmos a isso, seja um dos meus a quem não é dada sequer hipótese de tratamento. Que decidam que é a minha mãe ou a minha filha quem vai morrer por asfixia. Assim, sem apelo nem agravo. E eu impotente.

Tenho medo. Muito medo.

Mas também sinto orgulho.

Orgulho em todos os profissionais de saúde, que mesmo com medo, vão para a linha da frente. Que inscansáveis, vestem as suas capas de super-heróis e desempenham a sua nobre missão. Mesmo sabendo – ou exatamente por causa disso – que sonham estar em casa com os seus. Protegidos.

Orgulho nos jornalistas. Nos que o são a sério. Os que informam e não especulam. Nos que tranquilizam e não se preocupam com o número de clicks. Nos que são fonte de esperança e não de pânico.

Orgulho nos italianos que cantam às varandas. Porque precisamos de nos sentir como parte de um todo, de uma comunidade que rema toda para o mesmo lado.

Orgulho naquela vizinha que se disponibiliza a ir ao supermercado ou à farmácia. Porque ninguém é uma ilha.

Orgulho naquele português que, da sua sala, organizou um grupo internacional multidisciplinar para tentarem fazer ventiladores em impressoras 3D. Orgulho em todos aqueles que massivamente aderiram a este projeto.

Orgulho por poder ter as minhas filhas em casa e de, se precisar, ficar com elas.

Orgulho em todas as mães e pais que partilham ideias de atividades para os miúdos. E que as fazem. Que percebem que é altura de brincadeira, de jogos, de conversas. De nos ouvirmos e vermos. De os ver crescer assim bem de perto.

Orgulho em ver as ruas vazias. Orgulho em todas as pessoas que ficam em casa. Stay the fuck home.

E orgulho por ser madeirense. Muito orgulho.

Sem complexos de inferioridade nem desvarios de superioridade.

Porque Miguel Albuquerque percebeu. E não ficou à espera.

Percebeu que as decisões difíceis são para grandes líderes.

Que, pesando os pratos da balança, a saúde é o bem jurídico que tem de falar mais alto. Custe o que custar.

E custará muito. Porque os governantes de facebook que pedem o encerramento do porto e do aeroporto há semanas, serão os primeiros a pedir a sua cabeça quando a economia inevitavelmente se ressentir.

Orgulho no que decidiu. Contra tudo e contra todos. Mesmo que eventualmente seja inconstitucional. Como jurista é inevitável arrepiar-me ao escrever isto. Como mãe, filha, amiga, pessoa é inevitável aplaudir.

Orgulho no Pedro Calado. A entrevista que deu na RTP-Madeira deu-nos a segurança, a calma e a clareza que precisávamos. A sua objetividade e capacidade infindável de trabalho são farois nestes mares nunca dantes navegados que atravessamos.

Orgulho nos madeirenses que, independentemente da cor política, estão do lado destas medidas. Orgulho nos madeirenses que estão a ouvir. A cumprir.

E tenho orgulho por ainda não ter visto o pior das pessoas como nas distopias que masco como gorilas de banana. Orgulho por ver mais Dumas do que Orwell ou Atwood.

Orgulho por esta Humanidade estar a revelar-se duma humanidade que vale a pena salvar.