Ficámos numa mesa do canto, que sempre era mais abrigada.
Enquanto as minhas filhas e o meu marido dividiam uma Amalfi sem pimentos, eu comia um bife com alface. Porque na noite anterior tinha comido três vacas, um boi e três toneladas de pão. Com manteiga.
À minha direita estava uma mesa comprida habitada por adolescentes. Provavelmente ainda pré-adolescentes. Era o aniversário de uma delas. Ela estava radiante, rodeada de amigos. Todos eles a pulsar de vida. Elas mais expansivas, faladoras e com um falso à vontade de quem domina a coisa. Eles mais contidos, mais desajustados, sem ainda perceber a coisa a dominar.
Lembro-me disto. De sentir isto. Da expetativa e antecipação, fazer cenários improváveis do que iria acontecer. De escolher a roupa. E depois aparecer com ar de quem por acaso tinha conseguido ir. De como tudo era novo, por descobrir. De como as rodas da engrenagem social ainda não tinham WD-40.
Os olhos da minha filha mais velha estavam fixados. A ouvir tudo o que diziam e a ver como o diziam. Não percebeu que metade das conversas estavam a ser feitas por telemóvel. Ela ainda vai perceber. Eu nunca vou.
Foi dali que eu vim e é para ali que ela vai. A passos galopantes.
À minha frente estava uma mesa de senhoras. Bem-postas. Agasalhadas. Porque não tinham ficado na mesa do canto. Cabelo branco arranjado, as intemporais pérolas a adornar o colo vincado e o verniz de tom claro nos dedos nodulosos. Conversavam amenamente. Seguras de si, serenas e com a coisa dominada.
Era para ali que eu ia. A passos galopantes. Porque o tempo escapa-se-nos por entre os dedos.
E dei por mim a pensar naquilo. No que evito pensar desde que me lembro de mim.
Dei por mim a pensar na morte.
Se há um tema que evito e afasto da minha existência é esse. Aliás, chamo-lhe tema. Mas não. É uma certeza. Uma inevitabilidade intrínseca à condição humana. Por mais que eu finja que não.
Neste mundo nada é certo senão a morte e os impostos. E os americanos sabem o que dizem. Menos o Trump.
Quando estamos sentados na mesa à minha direita a morte não existe.
Quando estamos sentados na mesa à minha frente, ela olha-nos nos olhos.
Quando estamos sentados na mesa do canto ela vai-nos assaltando o pensamento. Sorrateiramente.
Penso na minha avó. Na minha querida avó Salomé. Não há vez que não se despeça com um se Deus quiser que chegue até lá. A espada de Dâmocles sempre a balançar. Sempre omnipresente.
Mulher de outros tempos. Tempos em que a morte ceifava indiscriminadamente e a uma velocidade aterradora. Irmãos, filhos, vizinhos, amigos. A morte, uma companheira de vida.
Hoje damo-nos ao luxo de a manter mais à distância. Por uns tempos. Os mais afortunados, pelo menos. E não sabemos conviver com ela.
Protegemos as nossas crianças do tema. O tema, lá está outra vez. É desconfortável falar nisso. Somos estrelinhas no céu. Ou vamos para o Céu. Gaguejamos e desconversamos quando nos perguntam qualquer coisa para além disto.
Ou serei só eu a tapar o Sol com a peneira? Serei só eu não sei como lidar com ela? Que fico aterrorizada, nestes rasgos, com a sua certeza? Com o abalo que seria perder os meus. Que será. De não me reerguer. De nunca mais ser a mesma pessoa. Serei só eu que temo deixar de ser? De deixar de existir?
E era nisto que pensava enquanto comia o bife com alface. Num soalheiro sábado à tarde passado em família. Pensava na morte.
Falta de açúcar no sangue, só poderia ser. Comi um Magnum de amêndoas.
Passou-me logo.
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