A sentinela

Tenho com os pombos uma relação crónica  de simpatia, desde que os via a deambular pelo  meu velho quintal, ou arrulhando, pelas tardes, no pombal erguido entre canteiros de flores e a ameixieira vermelha debruçada no tanque. Aves pacatas, galantes, donairosas, que, entre um passeio calmo na senda das pequenas gramíneas,  nos interstícios da calçada de calhaus rolados, e o voo repentino até ao ponto mais alto da latada da vinha, eram o meu enlevo. Alvo também  da minha curiosidade, pela história da sua monogamia e sentido de paternidade e pela particularidade dos seus olhos. De excelente visão, diziam-me que os olhos dos pombos viam tudo. Viam até as travessuras que, na minha irreverente pouca idade, eu poderia cometer longe dos olhares dos adultos, o que poderia valer-me uma admoestação ou o castigo de não poder recusar-me a ingerir arroz ou nabo, alimentos hostis ao meu paladar. Atribuiam-lhes especial aptidão para reconhecer quem os maltratava, ao fazerem do corpo e do bico arma de ataque, se alguém, reincidente, deles se aproximava. De resto, os pombos faziam parte da minha felicidade.

A Praça do Município era palco para um animado espectáculo de dança à hora da ração e as grandes cidades têm-nos como ícones decorativos, figuras líricas,  inspiradoras de poemas e canções. «Adieu tous les pigeons, qui nous ont fait ecorte», cantava Charles Aznavour na despedida triste de Veneza. Têm honra de presença na literatura, com La Fontaine, Agatha Christie ou Patrick Süskine.   No teatro popular italiano, Commedia dell´arte,  a Colombina, rapariga inteligente e bela, surge como metáfora da pomba. É alegre e bem humorada e é  apaixonadamente  amada  pelo tímido Pierrot, o palhaço triste, que, por conta dela, exibe uma lágrima permanente na sua máscara branca.

Reverenciados na Índia, os pombos são, na tradição bíblica, a representação do Espírito Divino e símbolo da Paz. Heróis reconhecidos durante as duas grandes guerras mundiais, a sua contribuição como mensageiros inapercebidos, galgando longas distâncias, portadores de informações secretas, salvou muitas vidas. Colombinas (ou Columbinas) são também, na tradição italiana, pequenas pombas feitas com massa de pão, oferecidas às crianças, pela Páscoa. O ninho é confecionado com palha de trigo e os olhos são sementes de uva. Um encantador artesanato   que contém um significado profundo de ternura familiar.

Repudiadas por uns, amadas por outros,  estas aves contaram, ao longo do tempo, com o dedicação de muitas figuras de relevo nas várias áreas da História da civilização: Charles Darwin, Walt Disney, Marlon Brando, Elwis Presley são, entre muitos, alguns desses nomes. O ceptro de Isabel II de Inglaterra é encimado por um pombo, como símbolo de nobreza e bom augúrio.

As histórias sucedem-se na minha lista de interesses por estes  seres alados, algumas delas tornadas públicas neste Jornal. Registei em «Os pombos de Sete Rios» diversas infelicidades, quando várias vezes  os encontrei, mutilados, na Estação Rodoviária de Lisboa.  Uma significativa miniatura de vidro de Murano, em tons de ametista, é preciosa memória que guardo dos pombos de Veneza. Estimo-a  pela beleza da miniatura, e em desagravo da aversão que estas aves têm despertado nos defensores da higiene das cidades e da sua arqueologia  arquitectónica. Lamentavelmente esta raça de seres vivos está também sujeita a destinos adversos.

Acrescento desta vez uma particular surpresa: Tarde pequena de curto lusco-fusco,a minha varanda chamava-me para a despedida do dia. Já os candeeiros da rua e a féerie do Natal  iluminavam algumas casas do bairro e toda a encosta sobre a baía, um vulto silencioso contra a noite que se aproximava, estava pousado no corrimão. Confiante na minha presença, a ave solitária, permaneceu, serena, imóvel, dirigindo-me o seu característico  olhar atónito, como se nada a perturbasse, a não ser o exercício da cautela, sempre necessária ao seu instinto de defesa. Fiquei de atalaia durante todo o tempo do serão e, à meia noite, o pombo ainda ali estava, amável silhueta, sentinela graciosa da minha insónia, com a cidade em fundo. Conclui que iria passar toda a noite  neste inusitado poleiro, a usufruir do ar puro e da vista panorâmica que a varanda lhe oferece.

De madrugada encontrei-o ainda, já desperto, de pata erguida, a espreguiçar as asas. Por uns momentos ensaiou a sua ginástica matutina, e logo, em largo voo, se lançou ao espaço, em direcção que só ele conhecia. Talvez atá à praça da cidade ou a algum pombal da vizinhança, sua habitual morada, que nesta noite decidiu abandonar, para viver a aventura inóspita de dormir sozinho na barra duma desamparada varanda, à altura de um sexto andar. Convenhamos que a necessidade de mudança é também atributo de alguns pombos mais ambiciosos.