A escola na cultura do não-chumbo

 

Há cerca de um quarto de século iniciei a minha carreira profissional como docente. Nessa altura existia um mecanismo mais ou menos consensual para separar os alunos que queriam estudar dos que não queriam. O chumbo. Assim existia uma cultura de esforço valorizada por alunos e professores. Um pouco antes desse meu início de carreira, quando era estudante, os alunos que não queriam estudar ficavam pelo 5º ano. Quando comecei a profissão já muitos chegavam ao 9º. Nesses primeiros anos de profissão dizia eu que o 10º ano funcionava como uma peneira e só deixava passar a areia fina. Não havia mal algum nisto, era a cultura da época. Ou serves para estudar ou vais trabalhar. E trabalho não faltava. É mais ou menos dessa altura a afamada afirmação: “nas obras ganha-se mais do que sendo professor”. Nessa altura também não se falava em escola inclusiva. Na escola desse tempo quem quisesse ser respeitado socialmente teria de um dia estudar direito, medicina ou, imagine-se (good times), ser professor. Também é desse tempo outra famosa afirmação: “nem todos podemos ser doutores”, na maioria das vezes proferida pelos “doutores”. O grupo humorístico Gato Fedorento gravaram mais ou menos por essa altura, talvez um pouco mais tarde, mas no seguimento desta fileira cultural, um sketch a parodiar a situação, colocando funcionárias de limpeza a discutir a obra de Eça de Queiroz enquanto faziam as limpezas. E isto é sintomático. Na verdade é uma discussão interessante, a de saber por que razão há portugueses que têm acesso a estudar a obra de Eça de Queiroz e outros não. Será que preciso de conhecer a obra de Eça para ser professor de filosofia mas se quisesse ser cabeleireiro já não precisaria? Estritamente falando para ser professor de filosofia eu não preciso de conhecer a obra de Eça de Queiroz. Ou se calhar faz-me tanta falta como se eu desejasse ser cabeleireiro. Creio que só se entende a necessidade de tanto eu como um cabeleireiro ter acesso à obra de Eça no contexto de uma escola democrática em que o acesso ao conhecimento não está reservado apenas para alguns. Bem sei que as coisas não serão de todo assim simples, pois para conhecer a obra de Eça é preciso também possuir alguma espécie de motivação e não é fácil motivar quem não está motivado senão para conhecer os nomes dos jogadores todos do Benfica e chamar nomes feios aos árbitros ao fim de semana. Mas por outro lado não podemos nunca esquecer que ensinar quem já vem ensinado de casa é muitíssimo mais fácil do que ensinar quem não vem.

É mais ou menos neste contexto que hoje reunimos condições (pelo menos eu penso que sim) para falar em anos de frequência escolar e não propriamente em chumbos. Volvendo a página da polémica e discussão que deve sempre existir, vamos então imaginar que não há volta a dar e a cultura do não chumbo torna-se irreversível. A partir de agora os chumbos são minimizados a casos muitíssimo específicos e devidamente justificados. E é assim até ao final do secundário. O que vamos fazer nas escolas então? Para começar isto exige aos agentes educativos uma mentalidade muito mais proativa, pois é-lhes retirado uma das ferramentas principais do seu trabalho, o chumbo. Assim terão de inventariar um conjunto de estratégias que eram impensáveis com o chumbo. E não basta atirar ao lado a responsabilidade: “vai para apoios”, “a psicóloga que trate do assunto”, “arranje um explicador”, “vá para casa estudar”. Isto são estratégias desadequados a um contexto do  não-chumbo (chamemos-lhe assim). Na cultura do não-chumbo não podemos atirar a responsabilidade ao lado. Mas vamos sempre procurar fazê-lo se não mudarmos bastante a forma como trabalhamos. Começamos por precisar de um foco muito mais incisivo em cada aluno em particular. Na escola do não-chumbo não podemos ter turmas de 28 alunos na sala, ter salas arrumadas de maneira em que o professor é o foco principal, precisamos de salas com poucos alunos e com mesas redondas. Na cultura do não-chumbo temos de ter bibliotecas apetrechadas e salas com computadores com recurso a bibliotecas virtuais. Na cultura do não-chumbo precisamos de constantemente ter presente materiais que permitam aos alunos realizar aprendizagens que já deveriam ter, mas não têm. Na cultura do não-chumbo não podemos andar obcecados com exames nacionais e a ensinar como se estivéssemos apenas a falar para mesas e cadeiras sem que os alunos nos entendam e sempre pronto na ponta da língua um “tenho de adiantar a matéria que isto sai em exame”. Na cultura do não-chumbo temos de constantemente indicar ao colega de matemática ou física ou inglês que o aluno não aprendeu X e Y. Na cultura do não-chumbo quase temos de ensinar aluno a aluno em particular. Haverá meios para isso? Se não os houver (e temo que não haja mesmo) então dou razão a quem diz que a escola do não-chumbo é apenas a escola facilitista, pois não podemos como professores não-chumbar sem alguns dos meios que indiquei a menos que se feche os olhos e passa-se de ano os alunos sem aprender. Ensinar alunos na cultura do não chumbo com os mesmos meios de que dispomos hoje, é fechar os olhos e passar sem aprender.

Mas não há bela sem senão!  Desejaria não terminar a minha reflexão sem levantar uma outra questão: e como é que fazemos com os bons alunos na cultura do não-chumbo? Com aqueles que sabem e querem saber numa escola exigente ao seu nível? Aqueles que formarão as nossas elites científicas, artísticas e desportivas do amanhã? Ora, eu penso que na escola do não-chumbo também estes alunos sairão beneficiados. Mas serão fortemente prejudicados se estiverem na mesma sala do que colegas com amplas dificuldades e apenas um professor a debitar matéria. A menos que o professor fale para os melhores e passe de ano os menos bons quase administrativamente. No entanto na escola do não-chumbo é perfeitamente possível formar turmas pequenas com alunos cujo nível de aprendizagem e motivação seja mais sofisticado. Ou é possível formar pequenos grupos de alunos com dois professores na mesma sala, um deles a trabalhar com o grupo menos ritmado e o outro com o grupo que exige maior sofisticação.

Na cultura do não chumbo, a passagem de ano para a quase totalidade dos alunos não tem de ser sinónimo de fata de aprendizagem. É perfeitamente plausível a condicional de que se os alunos não chumbarem podem na mesma realizar boas aprendizagens. Mas como tentei mostrar o não chumbo não pode acontecer apenas por decreto. Tem se ser acompanhado num investimento que permita implementar os meios adequados a uma escola que já não é o que era.

Entre uma e outra realidade, qual a melhor? Ambas enfrentam problemas. E os seres humanos são muitíssimo bons a criar problemas. Mas lentos a resolvê-los. Talvez seja da nossa natureza.