As lágrimas de Francisco

O banquete do profeta Isaías que Deus prepara no Seu monte santo, tem detalhes muito interessantes e curiosos. Haverá manjares suculentos, Ele vai destruir a morte para sempre e vai enxugar todas as lágrimas.

Melhor do que ninguém o Papa Francisco sabe bem desta passagem de Isaías. Aprecio muito que este texto é gosto que seja proclamado nas ocasiões das exéquias fúnebres, exatamente como prevê a liturgia de exéquias. É uma metáfora bonita que nos lembra da alegria e a felicidade das nossas festas. Nesse lugar ou nessa etapa após a morte física a esperança cristã reanima-se com a esperança de que a felicidade continua ou revelar-se-á e que os justos entrarão num tempo eterno de festa, de ingredientes próprios do banquete.

A temporada neste mundo e particularmente a última fase da existência material não se faz sem dor, sem lágrimas… Tudo tão igual e tão certo para todos.

Porém, o que me traz à reflexão neste escrito é o choro de Francisco, após a entrega do barrete cardinalício, a Sigitas Tamkevicius, um jesuíta de 80 anos e Arcebispo de Kaunas (Lituânia). Dom Tamkevicius esteve preso quando jovem, por causa do seu trabalho de denúncia do sistema soviético. Resulta a sua promoção na sequência da visita do Papa Francisco às prisões da KGB, durante sua viagem à capital da Lituânia, Vilnius. O seu exemplo e testemunho emocionou até às lágrimas o Papa.

As lágrimas de Francisco são o preço da fidelidade ao Evangelho, que requer entrega corajosa para remar contra a corrente. Quem chora neste caso leva uma vida de sobressalto abalada quotidianamente por quem não se interessa com o Evangelho e o exemplo sofrido do Mestre, mas com a vida da chocadeira das mordomias que os tachos, os cargos, os títulos, o poder sempre conferem.

As lágrimas de Francisco são o sinal das chagas da alma, que a teimosia dos perseguidores que se matam pela forma e não pelo conteúdo. Não querem saber das vítimas injustiçadas deste mundo desigual, antes preferem a mentira das fachadas requintadas pelo ouro comprado com o sangue dos indefesos.

O Papa chora por causa deste mundo cruel, desumanizado, carregado de violência contra a vida inteira. E que a sua/nossa Igreja tantas vezes assobia para o lado.

As lágrimas do Papa refletem todo o sofrimento de um ancião que aceitou carregar a cruz de uma Igreja Católica cada vez mais remetida para dentro de si mesma. Parece preferir ser para sempre imutável, pois, cheia de si, despreza singelamente o pulsar da constante novidade que o Espírito de Deus não pára de fazer germinar na vida multicolorida da humanidade.

As lágrimas de Francisco são o sinal fortíssimo de alguém que sente o peso da Cruz, quando podia estar sossegado no eldorado da sua reforma como fazem a maioria dos altos dignatários da Igreja.

Ele chora as suas derrotas, os insucessos porque a teimosia gelou os corações da maioria, que se organiza em grupos de guerrilheiros para minarem, achincalhar e destruíram a abertura das portas e janelas da Igreja Católica aos pobres, aos refugiados, aos habitantes da Amazónia, aos divorciamos, aos recasados, aos sacerdotes proscritos e a todos os que estão nas periferias do mundo.

O Papa chora por cada um de nós, que diante da verdade preferimos o engano e a mentira porque é mais cómodo. A conversão constante dá trabalho e lança-nos no caminho da ação, por isso, estar quieto e contentar-se com o que há é suficiente. As lágrimas deste ancião valem mais do que todos os discursos do mundo. É o sinal do grito/alerta para a transformação da vida, porque o tempo e o modo da nossa existência gemem agoniados por cura e salvação.