Entrevista de Miguel Albuquerque ao Funchal Notícias: “Não podemos correr o risco de termos maiorias negativas”

“O povo é soberano e tenho plena confiança no povo da Madeira”. A frase faz parte de uma entrevista concedida hoje ao Funchal Notícias.

Miguel Albuquerque encabeçou a lista do PSD-Madeira às Regionais de 2015 e volta a fazê-lo em 2019. Nesta entrevista faz um “flash back” à governação dos últimos anos e é prudente quanto a futuros quadros governativos.

“Não podemos correr o risco de termos maiorias negativas”, “Não governo a qualquer custo” são duas das suas afirmações.

Diz que “Vivemos uma normalidade democrática na Madeira” e que “A Madeira é das regiões onde mais se pratica a democracia”.

Sobre a campanha, diz que o PSD tem-na feito “com humildade, de proximidade” e assegura que o mandato termina com o dever cumprido.

“Estamos a completar o mandato com o programa integralmente cumprido”.

Revela que “Houve uma tentativa do PS de fazer uma narrativa sectária da saúde… desmistificada pela própria realidade” e denuncia a campanha nas redes sociais que o levou a dizer o que disse no programa da Cristina Ferreira: “Quando não se tem argumentos a nível político tenta-se matar o adversário através da calúnia”.

Certo na próxima orgânica de Governo é a continuidade de Pedro Calado como Vice-presidente.

FUNCHAL NOTÍCIAS: Nas Regionais de 2015 o PSD conquistou a maioria absoluta por uma “unha negra”. Conseguiu 56.574 votos, 44,36%, 24 deputados na Assembleia Regional. A noite eleitoral foi de nervos para ver se o último mandato era do PSD ou da CDU. Espera ter uma noite eleitoral mais calma no próximo domingo?

MIGUEL ALBUQUERQUE: Espero uma noite eleitoral onde o PSD tenha uma votação expressiva. O nosso primeiro grande objectivo –foi isso que foi determinado- é vencer as eleições. Em segundo lugar, o PSD quer ter o maior número de votos, quer continuar a ter a confiança dos madeirenses e portossantenses. O povo é soberano e tenho plena confiança no povo da Madeira.

FN: Em 2015 concorreram 11 forças políticas. Desta vez são 17. A diversidade é boa ou má para o PSD?

MA: Pode ser bom e pode ser mau. Neste momento, o único sistema parlamentar puro em Portugal é o da Madeira. Este sistema é mau no sentido de constituirmos governos com estabilidade porque dá azo a uma fragmentação muito grande. Ou seja, pode haver núcleos de interesse que constituem uma força política para servir determinados interesses, inclusive, privados. Acho que um dos imperativos é revermos a própria Lei Eleitoral na Madeira. Em Portugal, há partidos que deixam de ter “utilidade” e que continuam a figurar [no Tribunal Constitucional]. Temos de ter algum cuidado porque a fragmentação, sobretudo por interesses que nada têm a ver com o interesse público global é perigosa para a Democracia.

FN: Em 2015 o PS apresentou-se ao eleitorado coligado com o PTP, PAN e MPT. A realidade agora é outra, o PS concorre sozinho e as sondagens apontam para um quadro de bipolarização embora nas 3 sondagens divulgadas esta semana o PSD ganhe por maioria relativa. Tem sido prudente nos comícios. Ainda é possível a maioria absoluta? Porque é que nos comícios usa expressões como maioria “confortável”, “expressiva”, “significativa”?

MA: Pedir maioria absoluta parece que nós queremos governar com poder absoluto. E não se trata disso. O que tenho dito é que a razão fundamental do sucesso da Madeira assenta em dois pilares. O primeiro é a Autonomia política que, pela primeira vez, alocou os recursos da Região que deixaram de ser canalizados para Lisboa. Os madeirenses passaram a determinar o seu destino. O segundo, a grande mudança estrutural, económica, social, cultural, educacional da Madeira teve a ver com a circunstância de termos governos com estabilidade, que geraram confiança, que podem programar, que são “amigos” do risco. Ou seja, o empresário sabe que pode investir que não há rupturas nem descontinuidades. Por isso é que temos tido um crescimento contínuo. A estabilidade é essencial para mantermos o rumo do crescimento económico e da credibilidade.

FN: Então o uso desses adjectivos é para não dar a entender ao eleitorado a ideia de poder absoluto?

MA: Nós não vamos governar com poder absoluto. O que nós precisamos é de ter maiorias confortáveis porque a situação de instabilidade política leva imediatamente à regressão económica e, por consequência, à regressão social. Não tenho nenhuma dúvida.

FN: Caso não consiga a maioria absoluta prefere uma coligação com o CDS, com o PAN ou um acordo de incidência parlamentar?

MA: O que é preciso é as famílias, os empresários e os trabalhadores da Madeira pensarem no seguinte: Não podemos correr o risco de termos maiorias negativas porque, como o candidato do PS já disse, está disposto a fazer coligações com o BE e com o partido comunista para fazer, aqui, na Madeira uma “geringonça” negativa. Isso seria catastrófico para a nossa Região porque iria parar o investimento, ia parar aquilo que é a confiança que o mercado, neste momento, está a ter em termos de investimento e em termos de exportações. Isso traria imediatamente regressão económica e social para a Madeira. Portanto, trata-se, também, de nós termos uma maioria confortável que exclua da governação o partido comunista e da extrema esquerda.

FN: Acha que o CDS aceitaria um acordo de incidência parlamentar, sem ir para o Governo?

MA: É uma questão para vermos depois. Temos de aguardar pelo resultado. Agora, já disse que não governo a qualquer custo. Não vou alienar os princípios do partido nem o programa do Governo em função do interesse do tempo. Temos de ter muito cuidado naquilo que dizemos ao eleitorado.

FN: O Dr. Alberto João Jardim dizia que a tarefa mais difícil era fazer listas. Também partilha dessa dificuldade?

MA: É verdade. Temos sempre essa dificuldade. Mas acho que correu bem.

FN: E porque é que decidiu que os actuais secretários regionais não entravam nas listas?

MA: Porque quisemos manter e fazer uma renovação no grupo parlamentar. Há quem diga que o partido não se renovou. Nós renovamos quase 60% do grupo parlamentar. E precisava de espaço para fazer essa renovação.

FN: Recorda-se de algum episódio que o tenha marcado durante a campanha eleitoral para as Regionais de 2015… e nesta campanha?

MA: Gosto de fazer a campanha sempre no contacto pessoal com as pessoas. Nunca tive nenhum problema de maior. As pessoas podem não votar em mim mas não são malcriadas porque eu também não sou malcriado com ninguém. Vivemos uma normalidade democrática na Madeira que é de louvar. É preciso dizer duas coisas: A Madeira é das regiões onde mais se pratica a democracia. Temos um regime parlamentar. Temos mais eleições do que em Portugal continental e temos um regime parlamentar puro. Por conseguinte, apesar dos comentadores fazerem muita confusão sobre esta matéria, a Madeira é das regiões onde mais se vota. Ou seja, onde a abstenção é menor…

FN:… Mas foi superior a 50% nas Regionais de 2015…

MA: Mas isso não é na prática. O que a gente tem de analisar é que há um grande número de madeirenses que estão inscritos nos cadernos eleitorais, que têm casa na Madeira, mas que vivem no Canadá, em Inglaterra, na Venezuela, na África do Sul, em França. Ou seja, neste contexto, acho que a Madeira deve ser a Região do país com menos abstenção.

FN: E esta campanha, como tem corrido, qual o balanço?

MA: Acho que a campanha tem corrido bem. Ainda não acabou. Temos feito uma campanha com humildade, de proximidade. O resultado está a surtir efeito. Quem começou com uma arrogância, com o ‘rei na barriga’, que já tinha ganho isto, foi o António Costa e o candidato do PS. Disse que ia ser três em um. Veio, no outro dia, o Carlos César aí dizer que já cheirava a vitória. Mas…

FN: Dizem que a fórmula do jardinismo voltou, retoma das obras públicas, vias expresso, “visitas” a obras em véspera de eleições…

MA: Acho que quem está a imitar a nossa campanha é o PS. Não sei porquê? Porque quem está com grandes meios financeiros, como se constata pelo que se passa aí, é o PS e não o PSD. Nós temos poupado nas nossas ações de campanha. Têm sido ações de proximidade, fundamentalmente.

FN: Há um “namoro” ao eleitorado dos emigrantes, que regressaram à Madeira, sobretudo da Venezuela. Isso vê-se no PSD e no CDS que, de resto, têm candidatos regressados em lugares elegíveis. É mesmo assim?

MA: Os nossos conterrâneos que regressaram da Venezuela ou que viveram os últimos anos na Venezuela sabem o que é o resultado do socialismo: Não há comer, não há medicamentos, não há economia, não há liberdade. Obviamente que jamais lhes passa pela cabeça apoiar partidos de esquerda.

FN: No mandato que agora termina fez questão de ir diversas vezes ao Parlamento regional prestar contas aos deputados. É uma prática para continuar?

MA: É o que está no Regimento e eu não tenho medo de prestar contas nem de dialogar, nem de debater, nem de coisa nenhuma. Aliás, alguns dos partidos até já não gostam que eu vá lá. O Governo passa lá a vida. Acho que a vida parlamentar, na Madeira, tem corrido bem. O prestígio que, hoje, o parlamento tem, também deriva, um pouco, de nós não termos nenhum problema em enfrentar a oposição, no quadro do debate parlamentar.

FN: E se for chamado a formar Governo, a orgânica será semelhante, com uma Vice-presidência e as atuais 6 secretarias regionais?

MA: Se eu ganhar as eleições e formar governo a única pessoa que disse ia ficar no Governo com a Vice-presidência é o Dr. Pedro Calado.

FN: É claro que existirá na orgânica do futuro Governo uma Vice-presidência?

MA: Sim.

FN: E as actuais seis secretarias regionais?

MA: Vamos ver.

FN: Há um antes e um depois da entrada do Dr. Pedro Calado no Governo?

MA: Não. Há um antes que foi até à saída da Região do PAEF (Plano de Ajustamento Económico-Financeiro), que muito mais rápido daquilo que nós pensávamos. Em janeiro de 2016 já fomos ao mercado. E, depois, fizemos um remodelação de governo em consonância com um novo ciclo. A mudança para o novo ciclo foi depois de fazermos a recuperação e reequilíbrio das contas públicas, a saída do plano de ajustamento e a amortização de uma parcela substancial das dívidas em alguns sectores. Foi um trabalho duro e que tivemos de fazer. A partir dessa altura sentimos que a confiança estava instalada. E, numa sociedade, a confiança é fundamental. O investimento começou a subir, o desemprego começou a diminuir, retomamos os investimentos públicos. Começamos a fazer o reforço do investimento nas áreas sociais, na saúde, na educação. Estamos a completar o mandato com o programa integralmente cumprido. O que estava no programa de Governo não era nada que a gente não prevê-se que tivesse de fazer. Primeiro consertar os alicerces da casa e, depois, por o telhado, como se diz na gíria popular.

FN: Mas na Saúde houve 3 secretários regionais durante o mandato, alguma instabilidade, a oposição aproveitou-se…

MA: A narrativa sobre a Saúde já está desmistificada. Houve uma tentativa do PS de fazer uma narrativa sectária da saúde, utilizando, para isso, uma televisão, mas, hoje, enganaram-se porque, na verdade, a maioria dos utentes que vai ao Serviço Regional de Saúde é bem tratado, sabe que o serviço está a funcionar muito bem. Temos excelentes profissionais, médicos, enfermeiros, assistentes operacionais. Temos um conjunto de valências na saúde regional que é muito importante. Os madeirenses e portossantenses começaram a ter acesso, graças a Deus, aos canais e à informação pública. E começaram a comparar a situação caótica do Serviço Nacional de Saúde, onde houve desinvestimento de 15% com a Madeira onde houve um reforço substancial, todos ao naos. Só este ano metemos 420 milhões de euros na Saúde pública. Pagamos, desde 2015, até ao primeiro semestre de 2019, 144 milhões de euros só em medicamentos. Contratamos 296 médicos, 410 enfermeiros, 373 assistentes operacionais. Remodelamos Centros de Saúde, temos aumentados os médicos de família e os cuidados de saúde primários. 29 dos 47 centros de saúde já têm cobertura total de médicos de família. Temos a taxa mais baixa do país de mortalidade infantil, inferior à dos Açores e do continente. Temos cobertura vacinal de 95% da população, 100% para os jovens. Lançamos o concurso para o novo Hospital e já temos o financiamento de 158 milhões de euros assegurado pelo BEI. Portanto, essa narrativa foi desmistificada pela própria realidade.

FN: Relativamente à estratégia partidária, pode dizer-se que houve um antes e um depois da mudança do secretário-geral do PSD-M, de Rui Abreu para José Prada?

MA: Fizemos uma adaptação. Houve um congresso. Nesse congresso assumimos as mudanças que tinham de ser feitas. Não temos medo de fazer mudanças. Não somos como o PS que tem sempre os mesmo indivíduos e, agora, arranja uma “barriga de aluguer” do Costa que diz que nem sequer é do partido. Nós fizemos as mudanças que tínhamos de fazer. E vamos fazer as mudanças em função daquilo que são as necessidades e a evolução da própria conjuntura.

FN: E o trabalho do José Prada?

MA: Tem corrido bem. O Rui Abreu fez o seu trabalho, um trabalho importante. Houve uma renovação nos quadros do partido –e é bom que haja- e, neste momento, temos o partido mobilizado, unido, no terreno, a trabalhar.

FN: Falou-se muito da sua ida ao programa da Cristina Ferreira. Há um antes e um depois da ida de Miguel Albuquerque ao programa?

MA: Ela convidou-me. Foi um boato torpe, nojento, que as agências de comunicação ao serviço do PS puseram a circular. É muito complicado que, para uma pessoa como eu, que tem 6 filhos e duas netas, estar sujeito a uma coisa destas. Mas eu aguento tudo pela Madeira. Falei com a maior naturalidade. Quem me conhece sabe que isso não passa de um boato nojento. Mas você sabe que esses meios abjectos são utilizados. Na política, quando não se tem argumentos a nível político tenta-se “matar” o adversário através da calúnia. Essa é que é a realidade.

FN: Porque é que recusou o debate a dois com Paulo Cafôfo na televisão?

MA: Não recusei o debate. Tinha um conjunto de agendamentos e nunca percebi porque é que tinha de fazer um frente-a-frente com o Paulo Cafôfo, sendo o 4.º partido a nível regional. Mas afinal ele é o líder do PS? O 2.º partido é o CDS, o 3.º partido é a JPP, não estou a perceber!. Disse, na altura, que ia fazer os debates na rádio e na televisão com os candidatos com assento parlamentar. Porque é que havia de fazer um debate com o Paulo Cafôfo? Afinal quem é o Paulo Cafôfo?

FN: A Câmara do Funchal está hoje melhor ou pior do que aquela que deixou em 2013?

MA: Acho que o Funchal entrou num processo de regressão, de paralisia. Os funchalenses já perceberam isso. Está a ser ultrapassado, infelizmente, por outros concelhos. Veja a dinâmica que tem Câmara de Lobos, veja o que se passa na Calheta e compare com o Funchal. Se perguntar qual foi a obra que, nestes 6 anos, eles fizeram no Funchal penso que deve ser a pintura da baleia no parque de estacionamento. Não me lembro de outra. O trânsito está caótico, a cidade está suja, não devido aos funcionários, o urbanismo está paralisado. Fale com qualquer empresário. Aquilo não anda. A reabilitação urbana, a única coisa que fizeram foi colocar uma tarja na Felisberta que já deve estar verde. Nada anda. O Funchal, infelizmente, evolui para pior e não se vê solução.

Em poucas palavras o que lhe dizem as seguintes expressões:

-Geringonça

O que a gente tem de evitar na Madeira

-Piano

Uma coisa que eu adoro

-Dívida da Madeira

Diminuição de 23%

-Redes Sociais

São boas. Tem aspectos positivos e negativos. É preciso distinguir o que é verdade e o que é falso.

-Porto Santo

Uma ilha em desenvolvimento

-Jardinismo

Uma expressão que é utilizada para denegrir um dos períodos da história da Madeira de maior desenvolvimento

-Savoy

Uma obra magnífica que criou centenas de postos de trabalho e reabilitou todo um quarteirão

-Família

Muito importante

-Venezuela

Resultado trágico do comunismo e do socialismo

-Maçonaria

O que é que quer que lhe diga, existe

-TAP

Tem sido um instrumento de prejuízo constante da Madeira

-Ferry

Uma  promessa não cumprida do Governo da República e cumprida pelo Governo Regional

-Novo Hospital

Será uma realidade

-Marcelo Rebelo de Sousa

Presidente da República

-Rosas

Paixão

-Aquacultura

Somos os maiores produtores a nível nacional

-Zona Franca

Instrumento fundamental de receita fiscal e desenvolvimento da Madeira

-Igreja Católica

Instituição milenar com grande importância no desenvolvimento cívico, social e espiritual da nossa comunidade

-Tolentino Mendonça

Um grande intelectual e um grande padre

-Francisco Albuquerque

Meu irmão e um grande enólogo

-Toga/advocacia

Período da minha vida. Cada coisa tem o seu tempo. No verão, quando não havia ar condicionado não era o mais confortável

-O que fazia com 50 euros

Se for a uma loja chinesa compra uma carga de coisas. Não sei. Não pensei nisso.