Hoje almocei num restaurante de praia. Estava um dia glorioso, quente, soalheiro e iluminado. Ao fundo, o mar espraiava-se na areia dourada, com a espuma branca a fazer-lhe cócegas, enquanto o reflexo do Sol lhe conferia uma luz quase mística.
Um cenário de sonho e de retemperamento da alma.
Olhei à minha volta. Queria sentir o coletivo encantamento com este cenário.
Não. Estava quase toda a gente a olhar para o telemóvel.
E para o tablet. Desde quando é que o tablet é item constante da mala de praia?
A família de quatro que estava ao nosso lado nem se olhava.
Veio-me à memória uma frase da personagem desconcertante da Rossy de Palma no brilhante filme espanhol Toc Toc: passam horas e horas a pesquisar no telemóvel. O que tanto procuram eles?
E afinal, o que procuramos nós?
Corria o Anno Domini de 1997 quando tive o meu primeiro telemóvel. Ia para a faculdade, tinha acabado de fazer 18 anos e a tecnologia era relativamente recente.
Ainda sou do tempo – felizmente já me qualifico para usar esta expressão – em que os telemóveis tinham só duas linhas de ecrã, sem cor, claro. Sou do tempo das antenas que se puxavam para apanhar rede e de ligar à operadora para debitar uma mensagem que só assim chegava em forma de sms ao destinatário.
Sou do tempo em que se gozava de quem tinha telemóvel, armados em importantes.
E sou deste tempo em que é impensável não ter telemóvel. Até a minha querida avó, com os seus abençoados noventa e um anos, o tem.
Primeiro estranhou-se e depois entranhou-se, na mestria de Fernando Pessoa.
Mas entranhou-se a que preço?
Que adultos vamos ter no futuro, quando as crianças só sabem comer se o Panda estiver a dançar? Quando os seus momentos de ócio que estimulam a imaginação são substituídos pelo enervante Ruca? Quando o seu cérebro, que devia estar a absorver as interações entre adultos, a desenvolver capacidades sociais básicas, está a ser bombardeado por um qualquer Youtuber?
Qua adultos teremos quando, numa birra tremenda, espetamos às crianças e a velocidade super sónica, uma Xana Toc Toc cheia de cor e movimento. Como poderão elas aprender a gerir as suas emoções negativas? Só aprendem a compensar, a enterrar essas emoções com qualquer outra coisa. Agora imagem. E no futuro? Comida, consumismo, álcool, drogas?
E que adultos temos hoje? Basta ver famílias inteiras, num restaurante, sem trocar uma palavra, à exceção do ocasional comentário sobre o vídeo que alguém está a ver. Quando é que se tornou mais importante ver um gatinho a enroscar-se num pato do que ouvir o que diz aquela prima que veio passar férias de Lyon? Partilhar experiências.
Tantos amigos que temos, com quem trocamos mensagens. E há quanto tempo não os olhamos nos olhos, não sorrimos com o seu sorriso, não os tocamos?
E é ver-nos sós em qualquer sítio. A primeira coisa a fazer é puxar do telemóvel. É quase institivo. Cabeça baixa, com o pescoço feito num oito. Filas inteiras de pessoas com a cabeça baixa e com o pescoço feito num oito.
Já não sabemos estar sós. Parados. A observar. A absorver.
Estou à sombra do guarda-sol. As minhas filhas estão a brincar na areia, junto daquela família de quatro que não se olhava no restaurante e que agora está alegremente a jogar à bola e a rir.
O telemóvel tocou. Vou ver quem é.
Veio mesmo a calhar. Já tinha o pescoço feito num oito de estar aqui de cabeça baixa a escrever este texto no tablet.
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