Crónica de viagem: Ternate e Tidore, onde a memória portuguesa sobrevive a custo

Palácio de Kedaton Kelsulanan em Ternate. Em Novembro de 1813 foi o palácio do Sultão Muhammad Ali e um museu de relíquias da época do Sultanato. Infelizmente está encerrado assim como o museu anexo.

Com os vulcões adormecidos em volta, cheguei a Ternate. Esta é a ilha com a maior cidade das Molucas do Norte, na Indonésia, com uma população de cerca de 200 mil pessoas. Aqui chegaram os portugueses, tão cedo quanto 1511, contando-se entre os primeiros europeus a ali chegar. Integravam então uma expedição lusa liderada por Francisco Serrão, vindo de Malaca. Ali chegou o navegador numa nau que encalhou próximo de Ceram, sendo auxiliada pelos nativos. O então Sultão, Abu Lais, não perdeu tempo em estabelecer uma aliança com os portugueses, trazendo os tripulantes da nau para Ternate logo no ano seguinte e dando autorização aos portugueses para criar uma fortificação na cidade, que começou a ser edificada em 1522, o Forte de São João Baptista.

Ternate: a maioria das casas têm telhados de zinco…

Porém, o relacionamento com os locais não se mostrou fácil, dado que para aquele longínquo entreposto só iam verdadeiros aventureiros sem escrúpulos, de ambição desmedida, pelo que houve tensão desde o princípio, apimentada pelas tentativas de cristianizar aquela que era uma população muçulmana.

O museu fechado sem data de abertura.

Os espanhóis também cobiçaram aquela localização nas longínquas ilhas das especiarias: García Jofre de Loaísa ergueu um forte em Tidore, ilha vizinha, onde chegou em 1526, mas os portugueses atacaram-na a partir do seu forte em Ternate. Depuseram mais tarde o sultão Tabariji enviando-o para Goa, onde o converteram ao cristianismo. O então rebaptizado D. Manuel foi mandado de volta para reassumir o seu trono, uma vez inocentado das acusações que sobre ele pendiam. Porém, faleceu durante a viagem de volta. Mas tinha legado a ilha Amboina ao seu padrinho, que era, nada mais nada menos, do que madeirense, natural de Santa Cruz: Jordão de Freitas. O “mistério” de termos um madeirense rei de uma ilha nas Molucas está desfeito. Lanço daqui o meu alerta para as comemorações dos 600 anos da descoberta da Madeira poderem integrar uma justa homenagem a este ilustre ilhéu, conforme já referi.

Forte em Tidore.

António Galvão, chegado a Ternate em 1536, acabou por compensar os maus feitos dos duvidosos aventureiros que o antecederam. Organizando o governo das Molucas e empreendendo uma razoavelmente bem-sucedida reconciliação e cristianização, criando em Ternate estruturas como uma escola e um hospital, além de um muro de protecção envolvendo a cidade, acabou por ser conhecido como “O Apóstolo das Molucas”. No entanto e mais tarde, os portugueses acabariam por assassinar o sultão Hairun, com os habitantes a reagir furiosamente e a cercar em 1570 o forte português. Após cinco anos de cerco, os portugueses acabaram expulsos e a ilha Amboina tornou-se o novo centro das suas acitividades. Ternate acabou por se tornar uma potência regional islâmica e contrária aos portugueses, durante os reinados do sultão Baab Ullah (1570-1583) e do seu filho, Said.

Rumo a Tidore.
Cravinho a secar ao sol.

Hoje, aqui se encontra ainda a zona de produção do cravinho e da noz-moscada, com plantações a perder de vista. Foi por estas especiarias que os portugueses demandaram estas longínquas paragens: os mercadores árabes vendiam estas então muito cobiçadas especiarias aos europeus, a preços exorbitantes. Também os espanhóis e os holandeses estiveram nas Molucas, procurando dividir para reinar.

Actualmente, o velho forte português encontra-se num estado distante do original, tendo sido, eventualmente, sujeito a destruição e dispersão de materiais.

Criança em Tidore
O cravinho é posto a secar ao longo das estradas.

Fomos a Tidore em lancha rápida: foi ir e vir, depois de permanecer algumas horas na Ilha. Levámos um dia e percebemos que a memória do português como língua franca ainda subsiste em várias centenas de palavras, de origem lusa. Por exemplo, sapato, diz-se Sepatu; Manteiga, mentega; Camisa, kemija, etc. O crioulo português de origem malaia  actuou como língua franca na Batávia (Jacarta) desde o século XVII ao inicio do século XIX, referem as fonte históricas. Apesar de a Batávia (Jacarta) estar dominada pelos Holandeses, estes não permitiam que os locais (classe baixa) falassem o Neerlandês, reservado apenas aos colonizadores.

A motorizada é o meio de transporte por excelência.
A figura do sultão existiu até recentemente em Ternate, segundo fui informado. A ilha não é, definitivamente, um destino de turismo oferecendo muito pouco para ver. Apresenta as fortificações portuguesas, mas em estado muito degradado. As que recuperaram, infelizmente fizeram-no à moda da Disneylândia…
No entanto, os locais preocupam -se com a aparência dos exteriores, colocando flores por todo o lado, o que dá um aspecto um pouco ao “jardim da Celeste”. Os restaurantes são escassos, tipo tasca, na sua maioria, e com uma gastronomia muito a desejar, que afasta os que têm fome… Aqui todos têm mota, trate-se de mulheres ou homens, e este é o meio de transporte por excelência, funcionando também como táxi: têm sempre um segundo capacete para o “pendura” que transportam.
Fortaleza de Oranje
Fortaleza Kalamata
Como é uma ilha, o mar é a sua grande estrada para os transportes. O povo é na sua maioria muçulmano, existindo muitas mesquitas, entre as quais subsistem alguns templos cristãos, principalmente protestantes.
Os jornais locais são colocados em cartazes pendurados nas árvores, para quem deseja consultá-los sem os comprar. Dois ou três dias são suficientes para os atrevidos que queiram visitar esta localidade. Há 500 anos atrás foi cobiçada por diversas nações e teve sultões poderosos: o ouro era o cravinho e a no moscada. Poré e passados séculos, a fonte de rendimento não se mostra compensadora a muito longo prazo. Hoje o cravinho existe em toda a parte do mundo e as Ilhas das Especiarias deixaram de ter o seu monopólio.
Fortaleza Tolukko.
Forte construído pelos espanhóis.
O fuso horário é de mais duas horas que Jacarta: em relação à Madeira são oito horas à frente… Quando tomo o pequeno almoço, os madeirenses vão dormir. O clima é quente e húmido. Muito está por fazer aqui: pode ver-se que estas ilhas também são esquecidas pelo  governo de Jacarta.
O único vestígio português.
Quanto ao simples acto de beber uma cerveja para aliviar do calor, só no hotel e se existir… porque o álcool é sujeito a uma “lei seca” na religião muçulmana, e estes crentes levam a sério os ditames da sua religião.