Ambiente de reconciliação na Ribeira Seca: “Somos todos pecadores”, diz D. Nuno Brás; padre Martins mostra-se feliz por receber o bispo como “amigo” e não como “juiz”

Fotos: Rui Marote

É a reconciliação que põe fim a décadas de ostracismo por parte da hierarquia católica. O povo da Ribeira Seca e a Igreja Católica estiveram demasiado tempo de costas voltadas. É este o sentimento geral. “Muito se esperou por este dia” foi o mote da canção entoada por jovens e adultos num agrupamento musical que recebeu na igreja da localidade machiquense a chegada do bispo do Funchal, D. Nuno Brás. O padre Martins também tocou órgão na ocasião.

Tudo se processou como se antevia. O prelado foi recebido de forma amável e com palmas pela população, adentrando a igreja e depois paramentando-se para, com o recém-reabilitado padre Martins, oficiar a Eucaristia num templo recheado de fiéis e de irmãos das confrarias religiosas. Presentes, padres que se têm destacado pelo apoio ao padre Martins nestes mais de 40 anos de suspensão ‘a divinis’, a que D. Nuno Brás pôs finalmente cobro. Casos dos padres Mário Tavares e José Luís Rodrigues.

O ambiente é, decididamente, de festa. A igreja da Ribeira Seca engalanou-se para receber o bispo. O largo da igreja encontra-se repleto de populares que acompanham a missa que se celebra no interior, e onde não cabe mais gente, através de altifalantes e de um écran que transmite a celebração para aqueles que não puderam entrar.

“Como vosso bispo, quero saudá-los”, disse D. Nuno Brás, dirigindo-se à assistência, “com as palavras do apóstolo São Paulo: a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome do Pai, e com a comunhão do Espírito Santo, estejam convosco”. O responsável máximo pela Igreja Católica na Madeira referiu que várias vezes, ao passar na via rápida e olhando para a zona da Ribeira Seca, rezava: “Deus me dê um dia a ventura de celebrar missa naquela paróquia”. E assim se cumpriu.

O Pe. Martins, por seu turno, dirigiu-se ao bispo como “Vossa Excelência Reverendíssima” e meditou que “seriam precisos 50 anos para fazer o seu discurso de boas vindas”, pois foram quase 50 anos que “este templo, feito com o suor, com a força, com o sacrifício desta comunidade, nunca tinha recebido a visita do seu pastor diocesano”.

O sacerdote, durante longos anos um “renegado” da Igreja Católica, mas apoiado pelo povo da Ribeira Seca, onde continuou sempre a celebrar missa e diversos sacramentos, confessou que por mais que quisesse, não haveria palavras suficientes para assinalar este encontro. Conforme, sublinhou, era enorme “o sentimento de expectativa, a fome e a sede” que esta comunidade sentia em “receber o seu líder religioso, como um pai, como um amigo, não como um juiz”.

“Nós lhe agradecemos”, declarou, ao mesmo tempo que lamentava a “travessia no deserto de 42 anos” que nos obrigaram a fazer. Porém, afirmou, a dita travessia foi, ela mesma, retemperadora de energias: “Nunca nos sentimos no deserto, embora os poderes do mundo assim pretendessem”. Daí que receber hoje o bispo do Funchal na Ribeira Seca proporciona “uma alegria enorme, enorme”.

O padre prosseguiu para lamentar que certas pessoas não tenham podido estar ali presentes hoje nesta feliz ocasião, casos do bispo de Aveiro, D. António Marcelino, já falecido, e outros amigos que, numa ou noutra ocasião, mostraram solidariedade, como Frei Bento Domingues ou o padre e professor catedrático da Universidade de Coimbra, Anselmo Borges, entre outros. Pediu também uma salva de palmas para o padre Mário Tavares e o padre José Luís Rodrigues. O bispo aplaudiu também, mas demorou um pouco a fazê-lo. De seguida, o prelado, com um microfone na lapela, como que “cortou” subtilmente o monólogo do padre Martins e convidou todos os presentes a um minuto de silêncio e reflexão nas faltas de todos, pois, conforme disse, “somos todos pecadores perante Deus”.

Muitos populares mostravam-se felizes com a ocasião, outros nem tanto se deixavam entusiasmar. Num café nas proximidades, onde redigimos este texto, ouvia-se: “Nem me dei ao trabalho de lá ir. Nenhum dos dois merecia as minhas palmas”, dizia uma mulher. Outra mostrava-se céptica quanto ao bispo, apesar do levantamento da suspensão “a divinis”: “Este traz mel no bico”.

Depois da Eucaristia, seguiu-se uma procissão, na qual participaram imensas pessoas. O bispo e os padres saíram da igreja enquanto os sinos repicavam com o “Hino à Alegria”, da Sinfonia nº 9 de Beethoven. Viam-se alguns políticos, nomeadamente o candidato do PS-M, Paulo Cafôfo, que também acompanhou a procissão. O presidente da Câmara de Machico, Ricardo Franco, também marcou presença.