Matilde

Lembro-me do cheiro das minhas bebés. Ainda hoje quando entro, pé ante pé, no quarto da minha filha de dois anos adormecida, o meu coração pára por uns instantes, invadido por aquele odor que me embala.

Lembro-me dos seus primeiros sorrisos e como o mundo se iluminou. Como pensei que, se elas sorriam, eu estaria a fazer alguma coisa bem, ignorando deliberadamente tudo o que li sobre esse sorriso ser só instintivo.

Lembro-me do primeiro toque, daquela pele macia como a de um pêssego amadurecido ao Sol, dos olhares demorados daqueles seres indefesos que, centímetro a centímetro, decoravam com toda a atenção a cara da sua mãe.

Lembro-me de pensar que nunca tinha amado tanto, que só eu é que poderia ter ter amado tanto desde os inícios dos tempos.

Lembro-me de ter medo. Ainda tenho. Medo de não fazer tudo, de não ser suficiente, de falhar.

Lembro-me de, mesmo assim, me sentir forte, invencível, com a certeza de que pelas minhas filhas, por aqueles olhos, por aquelas mãos minúsculas, por aqueles pés deliciosos, iria ao fim do mundo.

Mas e se precisasse de dois milhões de euros para salvar uma delas?

E se a uma delas tivesse sido diagnosticada a malfadada atrofia muscular espinhal como à doce Matilde?

Não sei como reagiria. Só sei que o meu mundo ruiria. Gosto de pensar que seria capaz de dar resposta, de tentar, de ir atrás, como aqueles pais estão heroicamente a fazer. Como tantos pais fizeram antes deles, muitas vezes no anonimato.

Mas talvez pensaria no porquê. Não só no sentido metafísico da coisa, mas pensaria nos outros porquês.

Porque é que há milhões para injetar em bancos geridos por irresponsáveis megalómanos, mas não há dois milhões que me permitam ter a esperança de um dia levar a minha filha, pela mão, no seu primeiro dia de escola?

Porque é que o Estado me fica mensalmente com um terço do meu salário, mas não tem dois milhões que me permitam acalentar a esperança de um dia ver a minha filha a dançar ballet orgulhosamente no seu tutu cor de rosa?

Porque é que se opta pelo financiamento do atual medicamento que não trava a doença, mas tão só a atrasa, e que, por ser de administração crónica, em cinco anos terá o mesmo custo que a vacina disponível nos Estados Unidos? Porque é que este habitual pensar pequeno e no imediato me impede de sonhar ver a minha filha embevecida a ver as lontras no Oceanário?

Porque é que toda a gente me diria que não é assim, que não é fácil como estou a querer que seja e que esta é uma visão demasiado simplista? Que a vacina dos dois milhões nem está aprovada na Europa. Que há procedimentos, burocracias e canais próprios. Mas porquê? Porque é que há, se eu só peço que salvem a minha bebé?

E agradeceria. Agradeceria a todos aqueles que contribuíssem. A todos aqueles que sabem o que é amar sem limites.

Não faço ideia, nem concebo o que vai na cabeça daqueles pais. Mas sei que agradecem todos os donativos que receberam e que, apesar de tudo, ainda estão longe do que é necessário.

Dê. Por favor, dê.

E se fosse a sua filha, a sua neta, a sua sobrinha? O seu amor sem fim? A sua razão de viver?

Dá que pensar, não dá?

Conta solidária na Caixa Geral de Depósitos, em nome de Matilde Sande: PT50 0035 0685 00008068 130 56.