D. Nuno Brás alerta para a importância de olhar o futuro com verdadeiras comunidades cristãs

Bispo do Funchal Dia da Região 2019
D. Nuno Brás disse que “hoje, fazemos memória agradecida do trabalho e da vida deste povo ao longo de todos estes séculos”. Foto Rui Marote
OLYMPUS DIGITAL CAMERA
As entidades regionais assistiram ao Te Deum do Dia da Região. Foto Rui Marote

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, referiu hoje, na homilia do Te Deum solene do Dia da Região, em Machico, não desconhecer “as polémicas da investigação histórica acerca desta data que agora celebramos”. Mas tabém disse que, hoje, “não é o momento de entrar nessas discussões. É antes ocasião de recordar o modo como os navegadores portugueses tomaram posse destas novas paragens: com a água do batismo, foram tomando posse em nome de Deus “daquela terra brava e nova, nunca lavrada nem conhecida desde o princípio do mundo até aquela hora””.

D. Nuno Brás diz, ainda, que “não é também agora o momento de contar — ou, sequer, de resumir! —, ainda que com poucas palavras, a história da fé nestes 600 anos que medeiam entre aquele longínquo 2 de Julho de 1419 e este nosso dia. Sabemos que ela começou a ser escrita nesse primeiro instante, e que foi história de tenacidade e sofrimento (que a vida cristã sempre traz consigo), mas que foi igualmente história de festa, alegria, celebração (não menos características do cristianismo)”.

“Seja suficiente, por agora, darmo-nos conta de alguns dos frutos daquela benção e daquela Eucaristia celebradas pelos padres que acompanhavam Zarco, e da vida daqueles que, posteriormente habitaram a Ilha, e que ainda hoje são manifestos a qualquer olhar, mesmo ao mais desprevenido: os templos que foram sendo construídos por toda a Madeira, pequenos e grandes (da ermida de Santa Catarina à Catedral ou à nossa contemporânea igreja de Santa Cecília), e que, na sua diversidade, assinalam a vivida riqueza da mesma e única fé; e, sobretudo, a própria fé — aquela fé tornada vida quotidiana, nas famílias, nas comunidades, no trabalho, manifesta nas inúmeras procissões que todas as semanas povoam a nossa Ilha, ou na imensamente maior e mais presente acção da caridade, escondida a maioria das vezes das páginas dos jornais, mas essencial para aquele que a acolhe e para aquele que a pratica”.

O Bispo da Diocese do Funchal diz que “por um lado, não podemos deixar de reconhecer como muitas das nossas comunidades vão vivendo esta vida nova: como o amor fraterno e o serviço do Senhor são uma realidade; e não podemos deixar de reconhecer, igualmente, o contributo essencial dos cristãos na vida da cidade: a vida social, económica e política da Madeira foi e é em grande parte protagonizada pelos cristãos.

Mas, por outro lado, não podemos deixar também de reconhecer os muitos pecados, as muitas falhas e fracassos que marcaram estes 600 anos, seja por parte dos cristãos tomados individualmente, seja por parte da comunidade cristã no seu todo. Por eles, não podemos deixar de, diante de Deus e dos homens, pedir perdão. E não podemos deixar de reconhecer como estamos ainda distantes de realizar em plenitude o programa de vida que o Apóstolo Paulo traçava para as nossas diferentes comunidades e para nós próprios!”

D. Nuno Brás sublinhou que “a presença cristã ao longo destes 600 anos de descoberta da Madeira foi — é — inegavelmente benéfica (recordemos apenas o contributo das ordens religiosas na educação e na saúde); se não podemos deixar de reconhecer que os traços fisionómicos dos madeirenses e da Madeira são em grande parte os de Jesus Cristo, tal não nos autoriza a cruzar os braços e a olhar simplesmente para o passado, congratulando-nos com o que foi realizado, vivido, testemunhado — do mesmo modo que o pecado e as incapacidades do tempo passado não nos autorizam a mergulhar numa qualquer atitude de frustração ou depressão que nos paralise o viver.

Necessitamos de olhar para o futuro. E este futuro só será verdadeiramente digno do passado que vivemos se continuarem a existir comunidades cristãs que o sejam de verdade — o mesmo é dizer, que vivam cada vez mais e melhor o amor fraterno e o serviço do Senhor, e que dêem testemunho desta vida nova no seio de toda a nossa comunidade humana: que sejam uma fonte de bênção; que façam seus, cada vez mais, as alegrias e os sofrimentos de todos; que contribuam para uma vida harmónica e pacífica”.

O Bispo aponta que “a história destes 600 anos é a história de um povo cristão que desde o primeiro momento lutou por, acolhendo o amor e a vida de Deus no seu quotidiano, humanizar e divinizar não apenas as terras como as próprias relações humanas. Hoje, fazemos memória agradecida do trabalho e da vida deste povo ao longo de todos estes séculos, enquanto procuramos tornar-nos capazes de corresponder à sua história. Mas agradecemos sobretudo a Deus, que sempre nos acompanhou. E louvamo-Lo porque a sua misericórdia se manifestou tão concretamente, de geração em geração, sobre aqueles que O temem, aqui na vida da nossa Ilha”

No dia 1 de Julho de 1419, os companheiros de Zarco “deram, uns aos outros, grandes gritos, com alegria, zombando do medo passado e do espanto que tinham, sendo aquilo ilha e terra tão formosa”. A Ilha e a terra, que continuam formosas, sugerem-nos hoje não menor alegria. E a Eucaristia daquele 2 de Julho é a mesma que agora celebramos, porque único é o sacrifício de Jesus na cruz.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.