Foi há 50 anos que o padre Martins Júnior entrou na Ribeira Seca, revogação da suspensão “a divinis” torna este dia 22 “emblemático” e povo prepara festa

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Esta imagem expressa, também, a história do padre Martins Júnior.

José Martins Júnior é uma figura incontornável da vida madeirense. Não é homem de consensos, nunca foi. As opiniões não são unânimes, mas por estes dias ganhou como que um novo impulso face à revogação da suspensão “a divinis”, por parte do Bispo da Diocese, D. Nuno Brás, recém chegado à Madeira, mas já alvo de um avolumar de apoios em função de uma decisão que há muito era reclamada pelos defensores do padre Martins Júnior, o povo da Ribeira Seca na primeira linha.

Hoje, sábado, 22 de junho, a paróquia que “correu mundo”, pelas mãos do padre “revolucionário” dos tempos pós de abril de 74, quer uns festejos para voltar a marcar pontos na história, do núcleo populacional, considerado diferente do resto, mas igual  entre si na luta pelas convicções. Foi há 50 nos, a 22 de junho de 1969, que o padre Martins Júnior deu entrada como pároco da Igreja da Ribeira Seca. “A nossa comunidade não podia deixar passar esta data sem assinalar tão significativa efeméride”, explica uma nota enviada à comunicação pela CEFISA-RS Comissão Executiva e Financeira da Igreja da Senhora do Amparo – Ribeira Seca.

É sob a orientação desta organização local que se prepara uma festa em grande, de homenagem aos 50 anos da Ribeira Seca do padre Martins, os 50 anos que não poderiam ter chegado em melhor enquadramento com a revogação da suspensão decidida, há mais de 40 anos, pelo então Bispo D. Francisco Santana. Foram tempos conturbados. Para a Igreja Católica, Para a Ribeira Seca. Para a Madeira.

Martins Júnior nasceu em Machico, em 1938 e já considerou esta suspensão, quando passa pelos seus 81 anos de idade, “um milagre dos símbolos”, como escreveu no seu blogue “Senso & Consenso”. Foi aí que reagiu, também, ao momento da assinatura do documento de revogação.

bispo assina
Este foi um dos momentos históricos recentes da decisão de D. Nuno Brás de revogar a suspensão “a divinis” do padre Martins Júnior.

“Não é hora da hidrometria nem de analisar as águas e as algas dos rios longe. Não é dia  para classificar os pedregulhos e os entulhos que engrossaram os muros. Nem também será tempo de contar milhares, milhões e biliões do tic-tac  do cronómetro quase semi-centenar que ficou para trás. Outros dias virão de contabilidade e análise. Hoje por hoje,  basta-nos atravessar a ponte entre-rios e ficar aí em vigilante contemplação, saboreando a síntese da vida e  projectando o novo ritmo da marcha do futuro! Porque não são as instituições que fazem os homens. São os homens que fazem as instituições!”, escreveu com todo o poder que lhe é reconhecido relativamente à qualidade da escrita, na forma e no contéudo.

A CEFISA não quer passar em branco esta data de hoje, os 50 anos da entrada do padre na Ribeira Seca. Não quer, diz, por dois motivos. Primeiro, “pelo dever de gratidão para com aquele que aceitou servir o seu povo, não só ao nível religioso, mas também na área social e cultural. Segundo, porque a sua permanência nesta localidade deve-se ao mandato dos cristãos aqui residentes, que exigiram a sua presença, não obstante a hostilidade dos poderes públicos”. Mas há outro motivo, um terceiro, “a recente revogação da suspensão do Padre Martins, a injustiça que durava há 42 anos”.

Este grupo organizado no âmbito da Paróquia preparou “um programa de caráter comunitário, a que podem associar-se todos os amigos da nossa comunidade. Hoje, sábado, 22 de junho, “a partir das 20h30 haverá Missa de Ação de Graças, exposição fotográfica com os momentos marcantes dos últimos 50 anos, entrada das Romagens dos seis sítios da Paróquia seguido de animação no palco com a presença de artistas convidados. Haverá ainda várias surpresas preparadas pela nossa comunidade aquele que é a sua “Pedra Angular”.

Não fica por aqui, prolonga-se pelo fim de semana. Amanhã, domingo, 23 de junho, haverá “Missa Festiva no templo a partir das 18h, seguida de confraternização no adro engalanado e reconstituição do cenário rústico das antigas romagens das festas, com a arrematação simbólica dos produtos oferecidos para partilha entre todos. Apresentação da fonte do “São João da Ribeira”, participante no concurso dos fontanários da JFM.”

O padre Martins Júnior foi ordenado sacerdote a 15 de agosto de 1962, dia em que celebrou a sua primeira missa na Igreja Matriz de Machico. A 22 de junho de 1969 é nomeado pároco da Ribeira Seca. Foi porofessor, em diversas escolas madeirenses e foi capelão na guerra do Ultramar.

O pós 25 de abril de 1974 marcou uma viragem na vida do padre Martins. Desde logo, entra em rota de colisão com a Igreja Católica, não partilha dos mesmos propósitos. De tal modo que, em novembro de 74, o Bispo D. Francisco Santana tenta a epulsão da paróquia da Ribeira Seca, com o apoio das forças policiais. A população não permite. O seu múnus sacerdotal foi suspenso em 27 de julho de 74. O castigo é reconfirmado em 1985, já pelas mãos do novo Bispo D. Teodoro de Faria. O Padre Martins estava impedido de fazer determinadas funções sacerdotais, como celebrar missas e ministrar sacramentos.

“A 27 de Fevereiro de 1985, 40 polícias ocuparam a igreja da Ribeira Seca, por ordem de D. Teodoro Faria de Alberto João Jardim, ocupando a igreja e a casa paroquial durante 18 dias e 18 noites. O Padre Martins Júnior celebrava missa nos campos para as centenas e centenas de fieis da sua paróquia, sendo esse um sinal claro de apoio ao seu pároco”, pode ler-se no que está registado na Wikipédia, a propósito deste momento de grande tensão, marcante em todo o processo que fez de Martins Júnior um homem da História da Madeira pós 25 de abril. Para o bem e para o mal, de acordo com as diferentes interpretações que os factos históricos possam suscitar.

A história, que de um todo e não de partes, também revela aquele que é considerado um dos momentos negros da história do padre Martins Júnior, referindo-se que em setembro de 75, supostamente ligando-o ao que foi considerado um “Tribunal Popular” com o propósito de julgar seis menores (bem como o pai de dois deles) acusados de perturbarem a ordem pública e cometerem actos de delinquência. Os jovens eram suspeitos de pertencerem à FLAMA”.

Em termos políticos, o padre Martins foi eleito presidente da Câmara de Machico, então pela UDP, em 1989, sendo reeleito em 1993 mas desta vez pelas listas do PS. No seu currículo político, foi eleito sete vezes como deputado à Assembleia Regional, quatro pela UDP e três pelo PS.

Recebeu, em 1995, das mãos do então Presidente da República Mário Soares, o grau de Comendador.

Hoje, 22 de junho, a Ribeira Seca ganha como que um “novo fôlego”, recebe o momento como um triunfo da resistência, do nunca desistir dos seus objetivos. O Bispo D. Nuno Brás decidiu colocar um ponto final neste impasse de 42 anos e o primeiro anúncio da decisão apontava que “o dia vinte e sete de julho de 1977, o Bispo D. Francisco Santana, decretou a suspensão a divinis do Rev.do Padre Martins Júnior. Tendo em consideração que, passados estes anos as razões primeiras que levaram à aplicação e manutenção dessa pena deixaram de existir, o Bispo do funchal, depois de ouvido o Rev.do Padre Martins Júnior e os Conselhos Episcopal e dos Consultores, decidiu revogar a referida pena de suspensão”. D. Nuno Brás anunciava, também, que irá visitar a Ribeira Seca no dia 14 de julho de 2019, pelas 17 horas.