A derrota do centrão, da maledicência e da arrogância

Os resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu, de um modo geral, não surpreenderam, quer no espaço europeu quer a nível nacional, relativamente às expectativas para que apontavam as diferentes sondagens.

Ou seja, era expectável que o designado centrão, o conjunto de partidos que integram o PPE e os S&D, perdessem a maioria absoluta que sempre dispuseram no PE e que o PS triunfasse em Portugal. E assim aconteceu. O PPE e os S&D, que em conjunto detinham anteriormente 53,54%, têm agora 43,8%. E, em contrapartida, os Liberais e os Verdes atingiram agora 23,48%, quando antes registavam 16,15%, tendo os nacionalistas e populistas também crescido, passando de 10,42% para 15,18%. Já, a nível nacional, o facto mais relevante não foi propriamente a vitória do PS, mas a distância a que ficou o PSD, o 2º partido mais votado, com menos 11,44% (21,94% contra 33,38%).

A perda da maioria absoluta por parte dos partidos conservadores de centro-direita e dos socialistas de centro-esquerda vai obrigá-los a ter de negociar com as demais forças políticas do campo pró-europeu, designadamente com os liberais e os verdes, que, conforme já referimos, cresceram significativamente, de modo particular os ecologistas que foram o 2º partido mais votado na Alemanha (à frente do histórico SPD) e o 3º em França (diante dos partidos tradicionais de centro-direita e de centro-esquerda, os republicanos do RPR e o PS).

Muito embora não se tenham confirmado as projecções mais sombrias que chegaram a prever a possibilidade dos partidos nacionalistas e populistas poderem atingir os 30%, o facto é que os mesmos cresceram em todo o continente, tendo passado de 155 para 171 deputados em 751 – serão menos com a consumação do Brexit. Não se devendo, sobretudo, menosprezar a circunstância da Liga do Norte de Matteo Salvini ter vencido em Itália com 34%, de Vitor Orbán ter arrasado na Hungria com 55% e de Nigel Farage se ter novamente imposto no Reino Unido. E em França Marine Le Pen voltou também a ganhar, apesar de ter obtido menos um ponto percentual e menos um deputado do que há 5 anos.

A derrota do aludido centrão fez-se especialmente sentir nos grandes países europeus. Com efeito, na Alemanha, pela primeira vez, a CDU de Angela Merkel e o SPD, em coligação no governo alemão, em conjunto, tiveram menos de metade dos votos. Em França, o PS e o RPR tornaram-se pequenos partidos. E em Itália, os democratas-cristãos são uma força política residual.

Em Portugal, e neste particular, a realidade eleitoral não é, apesar de tudo, muito diferente. Há 20 anos, em eleições europeias, o PS e o PSD valiam 75%. Agora, ficam-se pelos 55%. O que significa que a descida de um, não representou a subida do outro. Isto é, os votos perdidos por um não estão a ser conquistados pelo outro.

Mas, o PS ao passar de 31,46% para 33,38% é claramente vencedor. Enquanto o PSD registou o pior resultado da sua história em eleições europeias, tendo somente vencido em Vila Real e na Madeira. E pior do que isso, ficou-se pelos 16,4% na Área Metropolitana de Lisboa. Também o CDS obteve o pior resultado em eleições europeias (6,19%). E nos 20 círculos eleitorais do país só ganhou ao Bloco nesta região.

Face a tais resultados, a conclusão é óbvia: a estratégia do PS resultou em pleno. Quis transformar as eleições europeias num referendo à sua governação, na 1ª volta das eleições legislativas de 6 de Outubro próximo e venceu. Não por números esmagadores mas de forma clara. E os partidos de direita que aceitaram ir a jogo com base nessa estratégia perderam em toda a linha. Convenceram-se de que bastava dizer mal de tudo e de todos. De fazer uma campanha eleitoral à base de gritaria e do agitar de casos. De completa e permanente maledicência. E foram severamente punidos.

Não admira por isso que no meio deste desastre, as perspectivas eleitorais, quer do PSD quer do CDS, sejam do domínio do catastrófico. Arriscando-se ambos os partidos a registar também o pior resultado de sempre nas próximas eleições para a Assembleia da República.

O próprio Presidente da República não resistiu já à tentação de comentar, vestindo o fato de comentador de que nunca abdicou. Avizinham-se, de facto, tempos difíceis para a direita em Portugal. Por muito que Rui Rio tente disfarçar, alegando que a crise do sistema partidário é geral. Henrique Raposo um insuspeito colunista de direita considera no “Expresso Diário” que à direita há neste momento “uma sensação enorme de orfandade”.

Quem pelos vistos não tirou proveito desta estratégia vitoriosa no plano nacional foi o PS-Madeira. Confirmou-se que a euforia não ganha eleições. Aliás, e num contexto tão favorável a nível nacional, o PS local conseguiu a proeza de registar o pior resultado do partido na totalidade dos 20 círculos eleitorais. Muito pior da outra derrota do PS verificada em Vila Real, onde o PSD também ficou à frente do PS, mas apenas por menos de um ponto percentual – aqui e agora, a diferença foi de 11,34%! Curiosamente, praticamente a mesma distância percentual a que, a nível nacional, o PSD ficou do PS (11,44%).

Ora, a fasquia havia sido colocada bem alta. O próprio secretário-geral e primeiro-ministro António Costa havia proclamado uma semana antes que seriam 3 em 1, numa referência aos três actos eleitorais em que os madeirenses e portossantenses serão chamados a votar este ano.

Houve até quem como o presidente (?) do PS/M tivesse anunciado e repetido na noite do rescaldo eleitoral que a 26 de Maio seria dado um cartão amarelo ao PSD e a 22 de Setembro um vermelho. Bem sei que na gíria futebolística são precisos dois amarelos num mesmo jogo para apanhar um vermelho ou um conjunto de cinco amarelos para ser penalizado com um jogo de suspensão, mas que diabo se isto (o resultado de 26 de Maio) foi um cartão amarelo confesso que fico baralhado com a terminologia.

Bem sei que não se devem comparar eleições de natureza diferente. Mas do que não devem restar dúvidas é que para Setembro quem parte na ‘pole position´ é claramente o PSD/M. Que, aliás, e relativamente às anteriores eleições europeias, cresce em número de votos bem mais do que o aumento obtido igualmente pelo PS/M. E, sobretudo, recupera a hegemonia em 9 dos 11 concelhos da Região, cilindrando, por exemplo, na Ponta do Sol e ganhando em todas as 10 freguesias do Funchal.

Influenciado, quiçá, por estes números, o edil do Porto Moniz, em artigo publicado no “JM”, dá-se agora por satisfeito por, a se repetirem tais resultados nas regionais de Setembro, o PSD/M não alcançar a maioria absoluta e já antevê uma viagem “longa e tortuosa”, ao mesmo tempo que arrogantemente manda calar quem no partido critica com o argumento de que não conseguiram melhor.

Mas, afinal não andam há meses a propagandear aos quatro ventos que o reinado do PSD/M chegou ao fim?! Não foi acenando com essa vitória que afastaram a anterior direcção partidária?! Ou, agora a conversa de que ninguém disse que a viagem seria “curta e prazerosa” destina-se a dar o dito pelo não dito, com a analogia de que no Porto Moniz demorou 20 anos a chegar à presidência da Câmara?!

A completa colagem e subserviência do PS/M ao Largo do Rato, a incapacidade de ter um discurso autonómico deu os resultados que se conhecem em 2007, quando a estrutura regional do partido bateu palmas a uma lei de finanças regionais que penalizava a RAM. Pelos vistos, a estratégia repete-se, pelo que se auguram idênticos resultados. Nada que surpreenda se atendermos aos protagonistas em presença que nem sabem utilizar bandeiras de cariz social aplicadas pelo governo da República, como a redução do preço dos passes nos transportes, de que o CDS se apoderou entre nós.

Retomando o fio à meada europeia, alguns analistas opinaram que os europeus escolheram dar mais uma oportunidade à Europa, muito embora a afluência às urnas no conjunto dos 28 países membros da UE tivesse rondado os 50% – em Portugal a abstenção cifrou-se nos 68,6%.

Porém, numa sondagem recente do European Council on Foreign Relations, efectuada em 14 países – Portugal não foi incluído -, os europeus inquiridos manifestaram ter medo do futuro, sendo que a maioria acredita que o projecto europeu pode entrar em colapso dentro de 10-20 anos. São excepção a Espanha, Dinamarca e Suécia. Mas 58% dos franceses, para não falar nos italianos e alemães, partilham desse temor, que não tem geografia mas divide os países, conforme refere o jornalista Jorge Almeida Fernandes, em recente análise publicada no jornal “Público”. O inquérito em questão adianta que o pessimismo é dominante entre eleitores eurocépticos ou soberanistas, enquanto o optimismo domina entre europeístas.

A circunstância de, no último Eurobarómetro, 68% dos inquiridos reconhecerem que a pertença à UE beneficiou os seus países é um indicador a não menosprezar. E no já citado jornal diário José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do IPRI-Nova assume: “O que precisamos ter é um europeísmo democrático e politizado, com opções políticas escrutinadas, não partidos que fazem de Dupond e Dupont no Parlamento Europeu, alimentando a revolta populista”. A ver vamos qual a opção que prevalecerá da nova correlação de forças no PE. A escolha dos futuros titulares dos cargos nas diversas instâncias europeias será o primeiro sinal para perceber se algo tenderá a mudar ou teremos mais do mesmo em Bruxelas e em Estrasburgo.

 

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

Post-Scriptum:

1) Queixas: A criatura que ao longo de mais de três décadas se fartou de recorrer à via judicial para intimidar tudo e todos, ainda tem a lata de queixar-se do “Estado de Direito”. Certamente com saudades do estatuto de imunidade de que beneficiou impunemente;

2) Inalterável: O novo bispo reconduziu os mais próximos colaboradores do seu antecessor. Alguém ainda acredita em mudanças a sério numa Igreja paralisada no tempo?

3) Perda de fundos: Afinal, quem se gabava de pleno aproveitamento dos fundos comunitários, vai perdê-los em áreas como a ciência e a tecnologia, a mobilidade e a eficiência energética e o património natural e cultural. Coisas sem importância para um povo denominado de “superior”. Como dizia o outro, o povo não come cultura!

4) Instrumentalização: Que dizer de uma escola, como a do 1º ciclo Domingos Dias, que assinalando o Dia da Família coloca uma criança a tecer comparações entre os parlamentos britânico e português? Ou, tratar-se-á de um sobredotado especialista na arte da manipulação?