Edições dos 600 Anos?

Na Feira do Livro do Funchal, não encontrei as edições dos 600 Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Também não consta um plano editorial na página oficial da Estrutura de Missão para as comemorações.

Entretanto, o JM do passado 31 de Maio (p. 29) noticiou «a apresentação conjunta dos títulos dos 600 Anos» na Feira do Livro de Lisboa. Seriam oito livros «da responsabilidade dos serviços da Direcção Regional da Cultura», referiu o mesmo periódico. Esta segunda afirmação, embora incorrecta por incluir dois números de uma revista «no pacote de oito livros», contraria a primeira e vem afinal comprovar que, na verdade, a Comissão dos 600 Anos não tem um projecto editorial próprio, que permitiria a publicação de uma colecção de obras, devidamente planeada e com um layout identificativo.

As edições, apresentadas em Lisboa, resultam do trabalho consistente, contínuo e bem-sucedido do Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura, Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira e do Museu Etnográfico da Madeira. Da Comissão Executiva dos 600 Anos estas edições têm somente o logótipo na parte posterior da capa. Apenas isso!

Nos 600 Anos, deveria ter-se em conta o exemplo das comemorações do Quinto Centenário da Cidade do Funchal, lideradas por Virgílio Pereira e Francisco Faria Paulino. Ao nível editorial, foi planeada a colecção Funchal 500 Anos, tendo sido publicados mais de 30 títulos, quase todos primeiras edições. Vieram a lume sob o formato de livro em papel e continuam disponíveis na plataforma Calaméo.

Dentre os livros, que na capa ostentam o logótipo dos 600 Anos e foram publicitados como edições desta organização, mas não o são, refiro três de 2018, do Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA): O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões; Para (um)a história do Porto Santo; Tens saudades minhas? A temática dos dois primeiros tem particular interesse no contexto das celebrações.

Nenhum está no mercado livreiro. Não estão à venda, nem podem ser comercializados. Foi esta a informação que recebi. De facto, nunca encontrei esses títulos nas livrarias nem na Feira do Livro.

São edições graficamente pobrezinhas, com paginação básica e ilustrações a preto e branco esborratadas. Para cúmulo, as tiragens são reduzidíssimas: do primeiro, 300; do segundo, 600; do terceiro 300 exemplares.

Edições pouco cuidadas e de má qualidade gráfica em nada abonam a Comissão dos 600 Anos, que as chamou a si, aplicando o seu logótipo nas capas e a elas se referindo publicamente como suas, mas que, na verdade, são da responsabilidade do CEHA e estão integradas nas colecções desta instituição.

Uma Comissão, destinada a celebrar uma efeméride tão importante quanto o Sexto Centenário do Porto Santo e da Madeira, não se deve limitar, no domínio editorial, a mandar colocar o seu logótipo em capas de livros por outros editados. Exige-se mais: programa adequado e colecção própria. Tal como aconteceu com os 500 Anos do Funchal.

A inexistência de edições próprias faz com que a propagandeada «chancela das edições dos 600 Anos da Descoberta do Porto Santo e da Madeira» não passe de uma falácia. Sem edição não há chancela. Uma coisa é a chancela de uma editora, outra, bem diferente, é apor um logótipo numa capa ou numa folha de rosto de um livro. Confundir deliberadamente tudo isto é tentar enganar quem ouve ou lê.

Finalmente, convém não esquecer a promessa de apoio à edição da obra de José Agostinho Baptista, feita pelo Governo Regional da Madeira, através da Comissão Executiva dos 600 Anos. O livro, que reúne grande parte da obra do poeta madeirense, sob o título Epílogo, deveria ter saído em Outubro do ano passado, conforme foi anunciado na imprensa. Todavia a prometida ajuda financeira não se verificou, e a edição ainda não veio a lume. Ao Diário de Notícias, de 7 de Outubro de 2018 (p. 36), Guilherme Silva afirmou que estava a trabalhar no sentido de obter o patrocínio da Assembleia da República, mas com ou sem este, a obra seria editada no decurso das comemorações. Não creio que, neste caso, o problema seja falta de dinheiro, pois a Comissão, em Novembro do ano transacto, gastou 72 500,00 € na edição de 55 000 exemplares de um folheto de propaganda, adjudicado à Empresa do Diário de Notícias, Ld.ª, que certamente, na sua quase totalidade, foi atirado para o lixo ou o fogo.

Que a voz, que tão bem cantou as ilhas do Porto Santo e da Madeira, em breve ressoe na celebração da efeméride!