Atirar a primeira pedra

Há uns dias, a moral e bons costumes madeirenses foram como que beliscados por um vídeo que andou a fervilhar por esses Whatsapp e Messengers fora. Quase que se ouvia o salivar na visualização, partilha e comentário do infame vídeo de cariz sexual. É a curiosidade, o apelo do escândalo, a tão madeirense bilhardice! Natural e, em maior ou menor grau, intrínseca à natureza humana.

Não serei eu a lançar a primeira pedra.

A notícia que entretanto veio a público refere que o Clube Naval procedeu à suspensão dos sócios, por ora estrelas de vídeo caseiro, por conduta imprópria. A ponderação da sua conduta deixo àquela Instituição e a quem mais de direito. Mas e a conduta de quem filma, de quem divulga, de quem difunde? E as consequências que daí podem advir?

Ainda esta semana foi notícia o suicídio de uma mulher espanhola que cedeu à pressão de ter visto um vídeo de natureza sexual que havia filmado há 5 anos com o ex-companheiro tornar-se viral na sua empresa, chegando inclusive ao conhecimento do atual companheiro, que o desconhecia. Foi apontada, ridicularizada e achincalhada. Acabou por pôr fim à sua própria vida.

Não serei eu a lançar a primeira pedra.

Mas não será um exercício de humildade tentar colocar-se um pouco na pele destas pessoas, abstraindo-se das condutas adoptadas, evitando o “que não fizesse”? Nos filhos destas, nos pais? Nas repercussões sociais e psicológicas de quem se sente humilhado, envergonhado? De quem é incomodado no seu local de trabalho para ser insultada, à frente de todos, como já consta – a tal bilhardice, lá está, a que ninguém está imune –  que foi a protagonista do video do Clube Naval?

Não serei eu a lançar a primeira pedra.

E não deixo de pensar que estamos todos sujeitos a isto. Não necessariamente um conteúdo tão gráfico, mas todos sem exceção, temos momentos de que não nos orgulhamos. E se isso fosse filmado e partilhado, presente ad eternum nesse monstro ubíquo que é a Internet?

Não serei eu a lançar a primeira pedra. Mas não queria nada levar com ela.

Apesar da minha não tão provecta idade, sou ainda do tempo em que os disparates da adolescência não eram gravados, fotografadas e publicados numa qualquer rede social. E que libertador que isso era! Mas  e os disparates dos nossos filhos? E se forem eles a ser apontados, ridicularizado e achicalhados?

Dá que pensar, não dá?