Ponta Delgada, viagem da saudade

O domingo não estava prometedor para uma viagem ao norte, porém, um convite para ir rever a minha velha casa e todas as recordações com que ela alimenta o sonho e a saudade, bastaram.
Foi um convite de um amigo sincero, pois, havia um excelente concerto de música barroca dado pelos músicos, na sua maioria internacionais, do “Ensemble”, na nossa igreja Santuário do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada. Magnífico e magnífica interpretação.

Saímos cedo do Funchal, o concerto estava marcado para as 16h30, mas antes depus flores na campa de meu pai; ainda no adro abracei e falei com parentes, amigos e conhecidos. O Governo fez-se representar e a igreja estava repleta.
Depois, o meu amigo visitou pela primeira vez a Casa-Museu Dr. Horácio Bento de Gouveia, com a sua filhinha Francisca, criança de 7 anos, mas muito observadora e confessou depois que ali estava um verdadeiro museu, pois, a maioria do mobiliário, álbuns de fotografias, quadros e cerâmica têm mais de cem anos.

Os tectos de masseira estão bem conservados, como toda a casa, as estantes tal como meu pai deixou e temos mais aguarelas lindíssimas que o grande aguarelista portuense, nosso amigo e compadre, Jaime Izidoro, nos ofereceu durante uma estadia com a esposa numa altura da Festa do Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada. Uma dessas aguarelas foi capa da 1ª edição do romance “Corte do Norte”, da nossa maior escritora e amiga Agustina Bessa-Luís.

Também tivemos a honra de a termos tido uns dias em nossa casa na companhia do marido, Dr. Alberto Luís, grande advogado do Porto. Foi ali, no Solar do Ladrilho, que ela escreveu parte do romance, tendo visitado parentes nossas, que na época viviam no Pico, mas não na velha casa já arruinada onde se inspirou. Era um casal adorável e Agustina era uma “apaixonada “por gatos.

Quase esta estória e muitas outras de familiares meu pai retrata nos seus romances que eu falei ao meu convidado. Fotografou e registou mentalmente, mas terá de visitar mais vezes, para” mergulhar” naquele ambiente secular, que a mim tanto diz.

Aquela casa está sempre no meu pensamento, pelo que o meu escritório em Santo Tirso está com retratos, aguarelas e  objectos, livros, “Islenha”  e DN diariamente.
II
Dentro das comemorações dos 600 anos da descoberta da Madeira e Porto Santo, como é caso destes concertos pelas freguesias da Ilha, também se lembraram daqueles madeirenses que no século passado embarcaram para o Curaçau, Demerara, esperando encontrar o “Paraíso Perdido”.

Famílias partiram e o seu esforço e abnegação valeu-lhes o reconhecimento agora merecido. A nossa escritora Helena Marques
escreveu um belo romance baseado nessas vidas aventurosas, “Os Ibis vermelhos da Guiana “.

III
E a terminar, lembramos agora a tragédia venezuelana, com o colapso do país que roubou vidas, vidas que se esgotaram em vão e regressam agora na sua maioria de mãos vazias, desgraçadamente.
A Ilha, a cidade e os campos empregam tantos e tantos jovens  que sentem na pele a transformação dos seus sonhos; de entre muitas, houve uma jovem empregada numa das pastelarias do centro da cidade que me chamou a atenção, a Stefanie tem 22 anos, alegre, atendendo os clientes com um sorriso bonito, despachada e atenta ao seu trabalho, distingue-se das colegas. Perguntei-lhe se estudara  na Venezuela, respondeu-me afirmativamente e que ia seguir a carreira de dentista; porém, a vinda inesperada para a terra dos seus progenitores, fê-la esquecer e refrear o desejo de estudar ! Afinal, quantas como ela desejariam ir mais além?


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