Homenagem a Joel Serrão 

Ao grande historiador madeirense, Joel Serrão, será dedicado o Dia literário, uma iniciativa do Centro Nacional da Cultura [CNC] em parceria com o Centro Cultural de Belém [CCB], que ocorrerá no dia 9 de Março.

De acordo com o CNC, os Dias Literários «propõem uma reflexão sobre figuras ímpares da literatura portuguesa, o aprofundar do conhecimento sobre o seu legado e a importância que a sua obra reveste para o pensamento contemporâneo e o desenvolvimento da identidade do país e dos seus cidadãos.»

Após os CTT, em Fevereiro passado, terem incluído Joel Serrão na emissão filatélica Vultos da História e da Cultura, a par com Sophia de Mello Breyner Andresen, Fontes Pereira de Melo, Gago Coutinho, Francisco de Lacerda, Fernando Namora e Jorge de Sena, agora, numa organização do CNC e do CCB, é lembrado como historiador, pensador e cidadão.

Tão honroso reconhecimento ao notável historiador e ensaísta, com vasta e multifacetada obra, merece ser amplamente divulgado na sua terra natal, porque, supomos, por razões ideológicas, nunca foi devidamente homenageado por esta Região.

Joel Serrão nasceu na freguesia de Santo António do concelho do Funchal em 12 de Dezembro de 1919 e faleceu em Sesimbra no dia 5 de Março de 2008.

Fez o ensino primário e liceal na Madeira, matriculando-se depois na Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.

No Funchal, foi professor do Liceu e da Escola do Magistério Primário, nos finais da década de 40 do século passado. Exerceu também a docência nos liceus de Viseu, Setúbal e no Passos Manuel, em Lisboa.

Como professor do ensino superior, leccionou no Instituto Superior de Economia (1972-75), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1975-79) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se jubilou no ano de 1989.

Integrou o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, de 1975 a 1995, com o pelouro da Ciência.

Entre 1992 e 1996, exerceu as funções de presidente da Direcção do Centro de Estudos de História do Atlântico.

Da sua ampla bibliografia, salientamos: Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes Rodrigues (1945); O carácter social da Revolução de 1383 (1946); Temas oitocentistas: para a História de Portugal no século passado (I: 1959; II: 1962); Temas de Cultura Portuguesa (1960); Dicionário de História de Portugal (direcção e 81 artigos da sua autoria; 4 vols.: 1963-1971); Do sebastianismo ao socialismo em Portugal (1969); A emigração portuguesa (1972); Fontes de demografia portuguesa (1973); Portugueses somos (1975); O primeiro Fradique Mendes (1985); Da situação da mulher portuguesa no século XIX (1987); Da “Regeneração” à República (1990).

Editou importantes e úteis antologias, entre as quais: Antologia do pensamento político português: Liberalismo, socialismo, republicanismo (1970); Testemunhos sobre a emigração portuguesa (1976); Da indústria portuguesa: do Antigo Regime ao Capitalismo (1978, em co-autoria com Gabriela Martins); Prosas sócio-políticas: Antero de Quental (1982); António Sérgio: uma antologia (1984).

Para além da edição sob o formato de livro, escreveu numerosos artigos em jornais e revistas prestigiadas (Diário de Lisboa; Análise Social; Vértice; Seara Nova; O Tempo e o Modo; Annales; Revista de História e Teoria das Ideias…).

Sobre a história da Madeira, publicou diversos estudos entre 1950 e 1961, no Funchal, Lisboa, Coimbra e Paris. Esses artigos vieram a ser compilados e editados sob o título Temas históricos madeirenses (1992).

Deu particular atenção à História Cultural, tendo estudado Alexandre Herculano, Antero de Quental, Oliveira Martins, Sampaio Bruno, Manuel Laranjeira, Cesário Verde, Fernando Pessoa e António Sérgio, sempre com a preocupação de compreender a sua época, bem como as suas ligações com o meio.

Joel Serrão nutria particular admiração pela historiografia francesa da École des Annales, em parte devido à sua convivência com Magalhães Godinho, e contribuiu de forma determinante para a renovação da historiografia portuguesa. O século XIX constituiu a sua época de eleição. António Sérgio guiou-o no labor historiográfico e na acção cívica e pedagógica.

Para o grande historiador madeirense, a História não se resumia à compreensão do passado, como sublinhou:

«Quanto à história, importa acentuar, com toda a clareza possível, que ela serve o presente e o futuro, – e não o passado! Se estudamos as épocas pretéritas, é tão-só porque o nosso próprio tempo o exige. É porque precisamos de compreendê-lo, para nele situarmos a nossa acção.» (Temas de cultura portuguesa, pp. 17-18)

A sua obra, pioneira em muitos estudos, compreende quase todos os campos historiográficos – História social, política, económica, das mentalidades, das ideias, da mulher, da cultura e da literatura portuguesa –, sempre com o propósito de contribuir para «o apetrechamento cultural e mental do País».

Aproxima-se o 1.º centenário do nascimento de Joel Serrão, nome maior da historiografia portuguesa contemporânea. Que a sua terra natal – doou à Biblioteca Municipal do Funchal a sua biblioteca pessoal e parte do seu acervo, com acesso já disponível, após tratamento técnico – saiba prestar justa homenagem ao grande historiador, ensaísta e democrata anti-salazarista.