Qual seria o impacto de uma Ryanair cá na Madeira?

 

Desde o dia que a Easyjet entrou na rota Funchal-Lisboa em 2008, que se tem vindo a especular acerca da adição da Ryanair, o seu competidor mais direto. A Ryanair implementou-se em força no Porto mais ou menos na mesma altura, após as obras de modernização da gare, mas só em 2014 abriu a base de Lisboa. A filial francesa da Transavia também se meteu na linha Porto-Madeira, mas nunca fez uso dos meios aéreos baseados na Capital do Império para vir à Pérola do Atlântico. Se havia alguma teoria que a operação “low cost” na linha Madeira-Porto era “território” Transavia, e que Madeira-Lisboa pertencia à Easyjet, em convívio com a TAP Air Portugal, isso caiu por terra quando a Easyjet também lançou os voos para Invicta. Paradoxalmente há três concorrentes para o Porto e dois para Lisboa.  Para os Açores voa a Azores Airlines, a TAP Air Portugal, a Easyjet, a Ryanair e até a Transavia.

Com a entrada em vigor do, manifestamente ineficiente e atrozmente elaborado, modelo do subsídio de mobilidade em 2015, a Ryanair passou a integrar todas as discussões estratégicas acerca do destino Madeira. Já por várias vezes foram encetados contactos entre entidades regionais e a Ryanair para tentar aliciar a companhia irlandesa a trazer as harpas voadoras aqui à região.

A ANA Aeroportos, e de maneira transparente e legal, oferece incentivos a companhias que abram novas rotas para os seus aeroportos. A Ryanair certamente poderia beneficiar destes apoios se criasse rotas da Madeira para aeroportos que já serve, como Bucareste, Dublin, Budapeste, Sofia, Dubrovnik, Lourdes, Milão, Roma, Veneza, Bratislava, Kiev, Tel Aviv ou Amã. Estas opções poderiam ser excelentes para o nosso turismo. Mas em termos de mobilidade só se notaria melhoria investindo em redundância competitiva na rota para Lisboa.

Consta que se terão chegado a pintar no chão placa do aeroporto da Madeira, umas linhas que serviriam para assistir o embarque expedito próprio da Ryanair. O certo é que ao longo destes anos a Ryanair apenas tocou no solo do Arquipélago da Madeira, ao divergir por motivos de emergência para Porto Santo (têm um “safety record” excelente, em qualquer caso).

Há imensas justificações em circulação nas “bocas do povo” de porque é que a Ryanair nunca operou para cá. Falta de capacidade não será, porque usa a sua frota de 400 aeronaves para servir 225 aeroportos em 35 países (dados de 2018). Listam-se abaixo várias teorias, salientando que o autor deste artigo é cético em relação à veracidade e relevância da maioria. Por outro lado, tampouco consegue apontar uma razão determinante que não seja o resultado negativo da análise de negócio e vontade da própria Ryanair em não “atacar”.

  • A Easyjet ameaça abandonar a rota no momento em que “deixem” a Ryanair voar para cá (nota do autor: enquanto houve passageiros e dinheiro a receber vão voar, tal como competem em outras);
  • A Ryanair quer vários milhões de euros do Governo Regional para começar a voar (nota: é possível que esteja aí o ponto de divergência, embora esses apoios sejam fortemente limitados e regulados na atualidade, coisa que a Ryanair bem sabe);
  • A Ryanair só opera se levantarem os limites de vento (nota: é claramente um factor condicionante, mas as concorrentes não abandoaram a rota);
  • Investimento no handling próprio da GroundLink não compensa para poucos voos (nota: é um facto, mas só a TAP e a GroundForce têm semelhante relação cá);
  • A Ryanair só opera se lhes forem pagos os custos de treino em simulador dos comandantes, específico para o aeroporto da Madeira. Não se lhe seria concedido esta benesse porque a TAP Air Portugal pediria para todos os comandantes de médio curso, e mesmo de longo, dado que as tripulações da TAP estão quase todas baseadas em Lisboa e Porto (nota: possível, mas não deveria ser carta chave na mão para as negociações);
  • A Ryanair só opera se o subsídio de mobilidade deixe de ser limitado a um tecto tão alto, que não privilegia preços baratos e competitivos (nota: torna claramente menos apetecível a Ryanair numa lógica de preço, apesar de a Easyjet não se melindrar).

Em ano de tríplices eleições, trazer a Ryanair está na ordem do dia. Forças políticas prometeram um terceiro operador da linha para Lisboa, e outras insistem em negociar a vinda da Ryanair. Pode-se dizer que é um ponto que reúne consenso na agenda política, reflexo da importância que esta rota tem para os madeirenses.

Qual seria o impacto de termos a Ryanair a voar para Lisboa, antes do Verão?

  • Mais dois voos diários para Lisboa (pelo menos);
  • Preços a “rebentar”, abaixo dos 86 euros, a amenizar o problema do “stress” de liquidez que a compra de bilhetes a 400€ representa para os madeirenses, até ao momento do reembolso nos CTT;
  • Madeirenses não-residentes a revisitar mais vezes a Ilha, pelo motivo anterior;
  • Mais passageiros, comprando bilhetes a menos de 50 euros, a virem visitar a Madeira só porque a viagem era barata. Poderemos ter gente muito jovem a vir cá gastando apenas da mesada;
  • Madeirenses a trabalhar em Lisboa, habituados a vir somente aos fins semana, a irem e virem duas ou três vezes durante a semana, pernoitando cá a maior parte dos dias.

Existem várias companhias no grupo da Ryanair, mas a que realmente nos interessa é a irlandesa, onde estão quase todos os aviões, inclusive os da base de Lisboa. Como esta ficará dentro da UE, o Brexit obrigou à criação de uma filial inglesa, operação analogamente inversa à que a Easyjet fez na Áustria. Há outro ângulo interessante que é o legado da Air Berlin, falida em 2017, como se sabe. O braço austríaco da Air Berlin era a FlyNiki, companhia fundada pelo grande campeão da F1, Niki Lauda. Quando Air Berlin se desmoronou, o piloto adquiriu os restos da FlyNiki, colocando-os debaixo de uma empresa sua chamada Lauda Motion. Pouco tempo depois entrou a Ryanair no capital, movimento muito peculiar porque a frota da Lauda Motion era Airbus, ao passo que o grupo irlandês só opera o competidor Boeing 737. No final do ano passado a Ryanair passou ser o único acionista da Lauda Motion, e anunciou que tenciona triplicar a frota de Airbus no espaço de dois anos, mantendo a marca.

Poderemos ter esta Ryanair austríaca a voar para a Madeira, tomando conta, por exemplo de rotas órfãs da Germania. Sendo europeia pode voar para cá tanto de Lisboa, como a Áustria ou qualquer outra nação da União Europeia.

Nada impede a Ryanair de voar para cá, a linha de Lisboa foi liberalizada há mais de 10 anos, não existe obrigatoriedade de serviço público, e os passageiros terão o mesmo direito ao subsídio de mobilidade, porque é pago independentemente da transportadora.