Crise e vazio no caminho da Igreja Católica

  1. Hoje não há um mundo cristão. Não existem sociedades cristãs. Muito menos sociedades totalmente católicas. A sociedade é multicolorida. A diversidade em todos os seus contornos é muito grande. E temos isso sim um mundo onde há cristãos e sociedades multifacetadas onde estão também os cristãos. Quando ouvimos apelos à Europa para que reencontre as suas raízes cristãs, estão a fazer apelos à ideia de uma situação sobre a qual em definitivo se voltou a página.

 

  1. A organização da Igreja, o seu funcionamento, os seus hábitos e a sua maneira de se governar foram moldados numa época em que existia um Ocidente todo cristão. Tomar consciência de que este já não existe é, desde logo, difícil de admitir e tem como consequência a necessidade de repensar a organização, o funcionamento, os hábitos e as maneiras de governar. Por isso, como conceber uma Igreja diferente?Pensar o governo da Igreja, mudar o seu funcionamento, mudar os hábitos, incluindo o governo, e inventar novos equilíbrios não são coisas fáceis de serem acolhidas por todos os cristãos católicos. Muitos não admitem isso e sofrem com a diminuição da influência da Igreja. As investidas contra o Papa Francisco são bem reveladoras.

 

  1. Os que entram na Igreja já com idade mais avançada e, aqueles que, tendo sido baptizados, deixaram a Igreja para voltarem mais tarde ou ainda todos aqueles que a melhor coisa que sabem viver é a indiferença face a tudo, não sentem o vazio de alma, os crentes de origem e de prática são duramente afectados pela crise que a sua Igreja atravessa (aqui lembro um livro extraordinário de Leonardo Boff, sobre o que é a crise: «Crise, Oportunidade de Crescimento» Verus ed.).

 

  1. No tempo da cristandade, os fiéis viviam um inconsciente coletivo muito forte. Herdaram das gerações anteriores a memória do que a Igreja foi no passado, do que era num país cristão, do lugar da fé numa cultura moldada por ela. Os fiéis limitavam-se a receber e pouco ou nada refletiam. Estes cristãos são, hoje, multidões, participam na animação da Igreja, sustentam a imprensa e as edições religiosas, contribuem para a saúde financeira da instituição, mas todos os estudos o provam: estão fortemente desestabilizados num mundo que se tornou «não cristão» e que, a seu ver, renega as suas origens. A Igreja, porém, custa-lhe entender que os cristãos de hoje não são iguais aos de ontem. Os cristãos são pessoas adultas, pensam pela sua própria cabeça, lêem livros, revistas, jornais e estão conetados via Internet. A sua formação é muito grande. Não se contentam com pouco. São autónomos, livres de escolher e de decidir. Não se contentam com meia dúzia de coisas banais e sem sentido. A Igreja precisa de dar uma volta muito grande. Precisa discernir e ver bem a realidade que a envolve. A linguagem sobre a esperança tem que ser outra, a mensagem precisa de adaptação ao mundo atual. O respeito pelas pessoas tem que ser grande, para que a Igreja se apresente como uma instância respeitada e autorizada.

 

  1. O silêncio pensado, estrategicamente vivido não serve a Igreja. Por isso, requer-se uma Igreja amiga, solidária, transparente, misericordiosa e atenta a todas as coisas da vida, sejam boas ou más, favoráveis ou desfavoráveis. Nada deve escapar à sua acção, mas sempre com um profundo respeito pelos homens e mulheres de cada tempo e de cada lugar.

 

  1. As reações dos cristãos são diferentes, variam entre a interrogação e uma profunda perturbação. Não compreendem determinadas posições da sua Igreja oficial. Ficam chocados ou revoltados por verem a sua fé reduzida, em exclusivo, a questões morais pelos não crentes (a Igreja é sempre muito mais falada pelas suas posições morais do que por outras questões não menos essenciais para a vida do mundo e das sociedades). Sentem-se ofendidos pela indiferença manifestada pelo mundo atual em relação ao fato religioso. Ficam escandalizados como a Igreja é tratada pelos meios de comunicação social (a Igreja é notícia apenas e quase só quando há misérias). Muitos têm dificuldades em fazer-se entender pelo mundo e pelas mulheres e homens concretos quando pretendem falar daquilo em que acreditam e quase chegam a pensar que existe um complô contra Deus, contra a fé e contra a sua Igreja. Há um vazio inquietante.