Daqui Ninguém Entra – disforias, desencontro e (des)esperança

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

*Docente na Universidade da Madeira /Investigadora no Centros de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa

Regresso à escrita de Vasco Gato, percorrendo agora os meandros da sua experiência dramatúrgica. Conhecido pela poesia (a Imprensa Nacional-Casa da Moeda reuniu a obra poética no volume Contra Mim Falo), reconhecido também pelo seu trabalho como tradutor, vale a pena entrar no cenário distópico desta breve (e única) peça de teatro. A inexorável solidão caracteriza o compasso do desencontro das duas vozes do texto.  Trata-se de um diálogo (monólogo?) que envereda pela incomunicabilidade de se dizer ao Outro.

Daqui Ninguém Entra (2016) sublinha os muros que construímos à nossa volta. Encenado por Luciana Ribeiro no Teatro da Comuna – Teatro de Pesquisa, em Lisboa, com interpretação de Inês Veiga de Macedo e João Ascenso, o texto de Vasco Gato mostra a apatia que nos afasta da gramática da convivialidade, as indecisões que nos levam por caminhos da indiferença, o fechamento ao qual nos fomos habituando. Não revelamos a plenitude da Essência porque não sabemos quem somos ou para onde vamos. Não vivemos. Vamos sobrevivendo.

Num primeiro momento, a escrita dramatúrgica de Vasco Gato parece assim alicerçada na desesperança. Neste espaço de conflito entrevê-se, todavia, a demanda utópica de um mundo diferente. Será então possível “[v]iver para lá da voragem da exigência?” (p. 13). Será possível ir além da “limitação do tempo (…) ” (p. 17)? Poderemos “bradar ao mundo o que ele próprio murmura.” (p. 23)?

Publicado pela Companhia das Ilhas, o texto de Vasco Gato expõe, num único andamento dramático, a era do vazio da nossa contemporaneidade, como a caraterizou Gilles Lipovetsky, e a forma como nos emparedamos na nossa individualização excessiva. Este microdrama de interioridades e de fronteiras captou a minha atenção por múltiplas razões: tenho desenvolvido a minha pesquisa em torno da intersecção entre a literatura e a cultura; a minha linha de investigação incide, regra geral, em torno de dissonâncias, viagem e utopia; o livro era ‘suficientemente pequeno’ (em tamanho) para ser analisado em contexto de sala de aula; ao prazer do texto (como disse Roland Barthes) tem de somar-se o ‘fantasma’ do livro, aquele que nos persegue mesmo depois de terminada a leitura.

A incursão pela escrita dramatúrgica de Vasco Gato permite-me recorrer a questões que no âmbito dos estudos de cultura têm sido destacados nos últimos tempos: a problemática das identidades à deriva (com questões que se interligam às alteridades e à alter-globalização); a questão de géneros (desde o Gender Studies à problematização genológica); a solidão na era da hipermodernidade (da modernidade líquida – como referiu Zygmunt Bauman  –, da mecanização do gesto, da força tumultuosa do vazio e da voragem dos tempos); o diálogo com o absurdo a barroquização de todas épocas. Trata-se, pois, de um texto literário que recupera ‘constantes culturais’ que parecem marcar a Humanidade.

Depreende-se que a escrita deste autor permite perceber a essência do teatro – com particular ênfase para os escritos que roçam o absurdo –, entender o contributo da Palavra e da Comunicação, encontrar ecos de outros textos e vozes, acompanhar as vias do teatro das últimas décadas. Nesta proposta de Vasco Gato, qual ensaio sobre a cegueira, as personagens ignoram-se ou atropelam-se na demanda. Representam (alguns) homens e mulheres que suplicam migalhas de entendimento ou admiração alheia. Demanda insidiosamente vã. Quando a luz não irradia da caverna do Humano, o indivíduo sobrevive numa dose homeopática que dilui os sentidos da Vida. Os tempos continuam a ser de comunhão asseptizada, de abundância entediada, de húmus do nada, de decomposição existencial.