D. Nuno Brás: um Verdadeiro Pastor ou apenas mais um Bispo?

Ilustração de José Alves.

 

D. Nuno Brás é a escolha do Papa Francisco para chefiar a Diocese do Funchal. Os convites estão a ser endereçados ao povo de Deus para acolher, na Sé Catedral, o sucessor de D. António Carrilho, na sua tomada de posse, a 17 de fevereiro, na Sé Catedral.

Como a Palavra de Deus nos pede para termos o coração das crianças se quisermos entrar no reino dos céus, o FN faz o exercício de apagar o histórico, as misérias e virtudes de cada episcopado, e, qual crianças, acreditar que D. Nuno Brás poderá fazer a diferença.

Por isso, como as crianças, vamos acreditar que vem aí um Verdadeiro Pastor e, como tal, deixar-lhe uma carta de singelos desejos.

Em primeiro lugar, o novo Bispo poderá fazer história nesta Diocese se se deixar abrir à ação renovadora do Espírito Santo e dos seus Carismas, regendo a sua ação pelos desígnios do Espírito e não dos interesses particulares dos príncipes habituados a reinar na Pérola do Atlântico, para honra e glória pessoal e não do Senhor.

Sendo um verdadeiro Pastor, e em obediência à Palavra do Senhor, deverá ir sempre ao encontro das ovelhas perdidas do seu rebanho, mesmo que esse abraço aos irmãos tresmalhados lhe custe a reputação junto dos poderes instituídos. Não pode haver “esqueletos no armário” acima da humanidade e dos Carismas de um verdadeiro Pastor, nem meias soluções, nem meias verdades que vão depois minar e ferir de morte o seu episcopado. Há soluções e não paliativos. Os assuntos abrasivos, deixados em lume brando ao longo dos anos, queimam não só os visados mas a missão de uma Igreja que tem espaço para todos e que a ninguém rejeita o acolhimento.

Mas esta caminhada de um Bispo é muito, muito exigente. Posar para o retrato será seguramente a tarefa menos importante. Se segue a Cristo tem de abraçar a sua Cruz. Como tal, deve caminhar entre o rebanho e solidarizar-se, em palavras e atos, com os pobres que são o centro do Evangelho. Não se trata da caridadezinha para serenar a consciência, mas ESTAR COM, em espírito e verdade. Afinal, “uma fé sem obras é uma fé morta”.

Não menos importante é não fazer aceção de pessoas. O Bispo a todos deve acolher sem filtros, nem de conselheiros que lhe lêem a ficha de cada um desta Diocese, seja padre ou leigo. Se é pastor, misture-se com o rebanho, veja com os seus próprios olhos e tire as suas conclusões. Não mande intermediários, dinamize o apostolado pessoal da evangelização, sofrendo com quem sofre e sorrindo com quem faz a experiência de descobrir o amor de Jesus.

Como as crianças, que acreditam sempre, a Diocese do Funchal espera por um Pastor audacioso no anúncio da Boa Nova de que só Jesus é o Senhor. Competir-lhe-á ter a habilidade, obviamente só por inspiração e Graça do Espírito Santo, de saber dar essa notícia em primeira mão aos corações que perderam a sua dignidade e alento e que veem a Igreja como fria, distante, perdida no espaço e no tempo, formada por meia dúzia de sábios, encharcados de teoria, a trilhar os degraus da carreira eclesial, mas pouco ou nada presente nas ruas da miséria desta Ilha, porque esqueceram o dom da verdadeira caridade. Na verdade, nunca tiveram uma experiência pessoal com Jesus. Enobrecem-se com os títulos, com os retratos nos media, com os doutoramentos para pendurar na parede, ignorando que a samaritana pecadora os procura, o filho pródigo quer bater à sua porta, Zaqueu está à espera de mudar de rumo, Nicodemos quer agendar o banquete da conversão e que há leprosos a precisarem de Amor, muito Amor.

Espera-se ainda que o novo Pastor tenha a humildade de aprender com o seu rebanho, com um coração de carne, manso, como Jesus pede, diminuindo-se em protagonismo para dar espaço a Ele, o Senhor, para sua  honra e glória e não para honra e glória de egos habitualmente inflamados e bem instalados, os fariseus que certamente o testarão e quererão saber como entrar no reino dos céus.

Como homem com currículo na comunicação social, espera-se também que seja um verdadeiro Pastor, que compreenda a difícil missão do jornalista e que os esclareça com celeridade, sem os culpabilizar pelos acontecimentos. Cada jornalista é um filho de Deus, a trabalhar em condições altamente desfavoráveis pela lógica selvagem do lucro empresarial dos grupos de comunicação. Se os quer conhecer, escute-os como Pai e não os sentencie como juiz quando a notícia lhe for desfavorável. Convença a comunicação social a anunciar que a melhor notícia em primeira mão é que vale a pena seguir Jesus porque só Ele ama e salva.

Aos seus antecessores, não os julgue, nem gaste retórica nos panegíricos. Tenha aquela gratidão e veneração que Jesus lhes reserva e procure trilhar o seu próprio caminho, sempre no fito desse Senhor, o Nazareno, que caminhava sem cessar, vendo em cada rosto, benévolo ou revoltado, rico ou pobre, grande ou pequeno, sábio ou ignorante, obediente ou desobediente, santo ou pecador, o rosto do Pai.  Novamente a Palavra o aconselhará que, o céu se alegra mais com a conversão de um pecador do que com noventa e nove justos.

Difícil? Talvez. Mas se abraçou a Cristo, também sabe que abraçou a Cruz.