Vivendo a tradição da “Festa” madeirense, com um grande presépio, cantoria, família e comes e bebes

Fotos: Rui Marote

Esta noite – véspera de Natal – será animada na casa de Albertino Capelo, na Travessa de Santa Quitéria. O seu presépio é o maior daquela zona e, na sua residência, a “Festa” é vivida à boa e velha maneira madeirense, com comes e bebes e cantorias. O Funchal Notícias apresenta-o como um exemplo do modo como algumas famílias ainda cultivam a antiga tradição do Natal na Região.

A esposa de Albertino Capelo começa a preparar o convívio desta noite preparando e servindo pão, uma canja e rabanadas, ao ar livre. Pouco a pouco começa a ajuntar-se gente, os vizinhos vão surgindo, outros membros da família, amigos e demais curiosos. O foco principal da curiosidade é o presépio cuidadosamente elaborado, com muito trabalho, amor e carinho, por este antigo funcionário da Casa de Saúde de São João de Deus (Trapiche). “A gente vem para aqui, come, bebe, canta, e depois vamos de carro, todos para a casa da minha sobrinha… Acabamos lá para as 4, 5 horas da manhã”, refere.

Naquela instituição de saúde, cultivava-se uma longa tradição de um presépio que inclusive contava com quadros vivos, iniciativa do irmão Pimenta, com quem Albertino se habituou a apreciar este costume. Hoje com 64 anos e já reformado, recorda com graça esses tempos. “O irmão Pimenta pensava no presépio, que o queria desta maneira, assim e tal. Entretanto, dormia sobre o assunto, sonhava com alterações e no dia seguinte já dizia: afinal não vamos fazer desta maneira, mas daquela, vamos mudar isto…”, ri-se. Dava muito trabalho, mas valia a pena, lembra. O presépio da Casa de Saúde era muito visitado, atraía muitas e muitas pessoas interessadas em vê-lo. Lembra-se de autênticas excursões, inclusive de muita gente que vinha do campo e trazia abóboras e batatas para doar à Casa de Saúde, aos doentes.

Foi com o irmão Pimenta, responsável da instituição, que Albertino Capelo aprendeu a fazer presépios, a prepará-los de modo a que fiquem bonitos e atraentes, evocando todo o espírito natalício. O seu presépio é grande para uma casa, e é acessível aos recém-chegados logo a partir da rua. Numa entrada, descobre-se como que uma gruta ao fundo do qual está o menino Jesus com Maria e José, mas para lá chegar é preciso percorrer um ainda razoavelmente extenso corredor, por sobre tábuas colocadas sobre água, cujo rumorejar se escuta. As luzes e os enfeites estão presentes. Vimo-lo durante o dia, mas o presépio é certamente ainda mais acolhedor e bonito à noite. Lá dentro, não falta o bolo de mel e uns licores para quem vem por bem.

Foi há mais de trinta anos que o nosso interlocutor começou a adquirir a supracitada experiência na montagem de presépios. Nessa altura não fazia ainda em casa presépios tão grandes, optava por uma coisa mais simples. Já lhe bastava o trabalho que tinha ao montar o presépio do “Trapiche”. Hoje são óbvias as saudades desse costume e o desejo de criar algo de seu, que mereça ser visto por todos quantos o conhecem ou circundam. O seu genro e a sua filha estão entre os seus maiores admiradores.

Começou a montar a sua “lapinha” já em Novembro, pintando o papel, deixando-o secar… Pouco a pouco, vai trabalhando nele, acrescentando hoje uma coisa, amanhã outra, dando asas à imaginação. Há dez anos que o faz regularmente e já com uma dimensão maior do que antigamente o fazia.. Antes, todavia, o seu presépio era acessível por dentro de casa, ou seja, era preciso entrar na casa para o ver. Agora situou-o numa área do acesso directo do exterior.

O presépio de Albertino já é conhecido em Santa Quitéria. Ao aproximar-se o Natal, os vizinhos já começam a perguntar como está a crescer a sua construção. Até os taxistas que fazem praça no centro comercial Madeira Shopping, a pouca distância, começam a inquirir, à medida que se aproxima a noite de Natal. “Eles perguntam: então e o presépio? Quando estiver pronto”, diz o entrevistado, “o Cláudio vai trazê-los”. Cláudio é o seu genro, e um grande admirador da “arte” e da dedicação do sogro na manutenção das tradições.

Albertino Capelo gosta visivelmente do Natal, do espírito da época. É uma maneira de juntar familiares, amigos, conhecidos… é divertido, confirma. Esta noite receberá certamente dezenas de pessoas.

O curioso é que nos confidencia que já tem ideias para o presépio do ano que vem, da forma como o há-de criar. “Quero fazer uma espécie de meia-lua”, adianta, em modo de confidência.