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dez 6, 2018 - 1:51:55 PMdez 7, 2018 - 3:27:47 PM Luís Rocha

Arqueólogo Daniel Sousa acompanha obras na Ponte Nova; na mesma será reaproveitada cantaria descoberta no Forte de São Filipe

Daniel Sousa sob a Ponte Nova, mostrando que a mesma é, de facto, constituída por duas pontes, uma mais antiga e uma mais moderna. A diferença é claramente visível na foto.

Depois de muita polémica entre Governo Regional e Câmara Municipal do Funchal, as obras na Ponte Nova decorrem actualmente a bom ritmo e estão a ser acompanhadas por um arqueólogo, Daniel Sousa, da Direcção Regional de Cultura. Recorde-se que as obras chegaram a estar suspensas depois da edilidade funchalense embargar esta obra na Ribeira de Santa Luzia, em Maio do ano transacto. Foi um impasse que se prolongou durante muito tempo, quase um ano e meio, até que a CMF, que entretanto classificou a ponte como Imóvel de Interesse Municipal, levantasse finalmente o embargo, perante a apresentação, pelo Governo Regional, de um projecto de alteração preservando características consideradas importantes da referida ponte.

“Esta é uma ponte já antiga, que foi feita no âmbito da reconstrução ou reestruturação da cidade do Funchal após a aluvião de 1803”, refere Daniel Sousa. “A cidade ficou, então, devastada. Foi por isso que veio o Brigadeiro Oudinot, para fazer a requalificação da cidade, inclusive as canalizações das ribeiras do Funchal, os muros aparelhados em pedra, e as várias pontes, que nada têm a ver com as anteriores, porque essas situavam-se numa cota muito baixa”. Das pontes quinhentistas para as novecentistas, refere Daniel Sousa, a diferença é significativa. Depois da aluvião que marcou duramente o Funchal no princípio do século XIX, a urbe cresceu em cota positiva, ou seja, em altura. Na altura, não existia a maquinaria que existe hoje em dia, para retirar todos os sedimentos que desceram, arrastados pela força das águas.

Pedra que está a ser usada no restauro da ponte.

Sobre a Ponte Nova, refere algumas curiosidades: “Havia aqui efectivamente duas pontes, com dois métodos construtivos diferentes”. De facto, o FN esteve por baixo da mesma, captando imagens, e as diferenças são claramente visíveis, em duas pontes que, afinal, se “encostam” para formar apenas uma. Inicialmente, existia apenas a de montante, com espaço apenas para a passagem de pessoas e de carroças. “Mais tarde, já nos princípios do século XX, é então acrescentada a ponte a jusante, aumentando a ponte para a passagem de automóveis”, explica o arqueólogo da DRC. O extradorso a jusante seria já capeado com cimento, numa intervenção que terá tido lugar já há uns 70 anos. A ponte a montante seria então mais antiga, com um extradorso completamente diferente. Esta última ponte “encontrava-se em bom estado”, apesar de “ter sido esventrada para a passagem de tubos de água há alguns anos atrás, o que veio pôr em perigo esta estrutura”.

Daniel Sousa explica que junto às pedras de fecho, a um nível superior, no interior da abóbada, no intradorso, fizeram uma perfuração no arco para a passagem de tubagem de água. Algo que deveria ter sido feito na parte exterior, a montante ou a jusante. “Ia ficar mais feio, mas não ia destruir nem pôr em causa a própria estrutura”, opina. Quando se deparou com esta situação, garante, “houve logo um trabalho interdisciplinar entre a engenharia, os projectistas da ponte, e o património. A engenharia agiu sobre o preenchimento da estrutura que estava em falta, e nós resolvemos então, na parte do intradorso, para o arco não ficar com aquele negativo, preencher com uma pedra com uma outra coloração, porque era impossível já arranjar uma coloração idêntica, devido à patine que a pedra foi ganhando ao longo do tempo”.

Daniel Sousa diz que esta actuação vai ao encontro do que hoje se faz em termos de restauro no norte da Europa. A tendência é deixar aquilo que é restaurado com uma coloração completamente diferente do pré-estabelecido na época da edificação.

A ornamentar esta obra de arte que é a ponte serão também reaproveitadas pedras de cantaria que ornamentarão a mesma de acordo com o que foi pesquisado em registos gráficos no Arquivo Regional. “Vamos deixar a ponte com a identidade patrimonial que ela tinha”, promete o nosso interlocutor.

Na parte dos lancis será também deixada pedra, que não é já da Região, reaproveitada da ponte antiga, mas por outro lado utilizam-se também pedras de cantaria que foram exumadas na escavação do Forte de São Filipe. “Guardámo-las para serem reaproveitadas em obras futuras”. É o que acontecerá agora, poupando também despesas. Essas pedras de cantaria serão usadas para construir os acrotérios, ou seja, as pilastras que se situam nos extremos da ponte, encimadas por um candeeiro. “Fá-los-emos não com betão a fingir, mas sim com cantaria própria da Região”. Esta cantaria não fazia parte das próprias estruturas de defesa do Forte de São Filipe, tendo sido arrastada pela enxurrada de 1803, diz o arqueólogo.

Para Daniel Sousa, esta obra assume verdadeiramente contornos de uma requalificação, “porque fomos beber toda a história desta obra de arte, bem como toda a linguagem arquitectónica que ela tinha, e vamos agora reabilitá-la”. Na escavação que ali foi realizada, garante, nada surgiu com importância relevante em termos patrimoniais. Sobre a abóbada situava-se terra que era usada como elemento estabilizador, e sobre a mesma então situava-se o tabuleiro.

“Foram retiradas daqui, durante um fim-de-semana, várias toneladas de terra. Começámos inicialmente com a escavação manual, mas chegámos a um ponto em que vimos que não havia necessidade e realizámos uma escavação mecânica, para acelerar os trabalhos. Mas nada se perdeu”, assegura.

O objectivo é ver se se consegue concluir esta obra ainda este mês. Todos os esforços estão a ser desenvolvidos para ver se se conseguem concluir os trabalhos antes do Natal, garantiram-nos os responsáveis. São duas empreitadas diferentes, a das obras na ponte e da subsequente pavimentação. A colaboração da CMF, acrescenta Daniel Sousa, é sempre bem-vinda, e o que é preciso “é trabalhar com todos, a bem da comunidade. Aqui não está em causa a diferenciação entre o Governo e a Câmara, que tem obviamente uma palavra a dizer, inclusive na colocação de toda a tubagem de água, de saneamento básico, de trânsito”.

O nosso entrevistado aproveita também esta oportunidade para esclarecer um outro aspecto: a razão da colocação de uma muralha do Forte de São Filipe sobre a ponte da Ribeira de Santa Luzia, que resultou de uma proposta sua. Tal verificou-se, explica, porque teve de ser feito um desvio do caudal das ribeiras, confluindo para a mesma desembocadura. Essa opção também não lhe agradava na altura, porque teria de ser partido o Forte, justamente a parte mais monumental do mesmo. Mas teve de ser assim: ou se destruía a muralha e a matéria-prima da mesma era dada aos empreiteiros, ou se numeravam as pedras e se remontava a muralha no sítio em que estava.

“Há muito quem critique o “maluco” que constrói uma muralha em cima de uma ponte, algo que acham que não tem sentido nenhum. Mas ela foi reconstruída para dar continuidade ao Forte, cujas ruínas foram preservadas”, alega. A parte mais monumental da muralha, com 4,60 m, merecia ser reaproveitada.

“Tivemos de tomar uma decisão, e ela não podia passar por destruir aquele património, muito pelo contrário. A muralha deixou de ficar “in situ” para deixar passar a ribeira, mas ficou “in loco”. Não fazia sentido reconstruí-la noutro sítio. Ela está mais ou menos alinhada com as ruínas do Forte, que estão em baixo”.

Quanto ao projecto da confluência das ribeiras, defende-se Daniel Sousa, “foi feito pelos grandes engenheiros da hidráulica. Eu não tenho capacidade para fazer esse tipo de estudo. A verdade é que nas chuvadas mais recentes, que nem se compararam ao que choveu no 20 de Fevereiro, as canalizações funcionaram bem”.

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