Do lado certo

Numa infinidade de notícias, imagens, textos, análises, comentários, previsões e outras formas de exteriorização do sucedido, do que acontece ou do que poderá surgir como realidade, vai-se tornando efectivo e constante o percurso evolutivo que o populismo vai afoitamente cumprindo nas democracias, um pouco por toda a parte, aproveitando a tolerância, as hesitações, os erros, as tibiezas e, não raras vezes, a irresponsabilidade que estas lhe facultam, facilitando, com isso, o seu ameaçador progresso.

Do sussurro ao clamor, perscrutam-se entoados sinais de preocupação, de inquietação, de receio, de alerta.

E, sobre o populismo, – tema a que, profilacticamente, sou sensível e que não calarei -, por encobrir e, porventura, tentar disfarçar realidades que a História nos recomenda ter em conta, vale o esforço que se faça para que se reúna o essencial da sua caracterização e se possa, com alguma segurança, entender do que se fala quando ele surge, por tudo e por nada, enquanto alternativa ao (mau) comportamento das democracias e às suas consequências. E, afigura-se-me preocupante que, em vez de, identificando-o (s), o (s) combater, se procurem elencar umas justificações mais ou menos plausíveis para a sua proliferação, as suas causas, a naturalidade da sua propagação, a inevitabilidade do seu poder de sedução e a culpa de todos e de cada um de nós no sucesso que parece acompanhá-lo.

Desta estratégia de comunicação, que parece aspergir uma óbvia legitimidade moral, política e social sobre os seus – do populismo – mentores, propagandistas e actores, faz parte o recorrente esclarecimento de que não se trata de populismo, mas sim de populismos: “de direita e de esquerda”, dizem… esclarecimento (s) que, ao contrário do que parece fazer crer, não se destina a tirar dúvidas mas, pelo contrário, a acrescentá-las. De facto, os movimentos populistas com significado proliferam à direita mas, na tentativa (?) de reduzir a diabolização que eles inspiram, há sempre uma Venezuela – populismo? (de) esquerda? – que espera por nós carreada por conhecidos e significativos sectores ideologicamente identificáveis que pressurosamente tentam mitigar a responsabilidade quase exclusiva da direita no populismo impante.

Convenhamos que, verdadeiramente, o populismo tem vindo a encontrar, de há muitos anos a esta parte, mas com particular intensidade a partir da crise financeira de 2008, das suas funestíssimas consequências sociais, económicas e políticas e do impacto negativo no quotidiano da esmagadora maioria dos cidadãos, terreno fértil para a sua implementação, para o seu propagandear e para o seu crescimento, mesmo junto de extratos sociais onde só no domínio do absurdo se poderia imaginar que tal fosse possível.

E a receita não foi, e não é, sequer, complexa e de difícil execução. Um pouco por todo o lado, aproveita-se com oportunidade e oportunismo a degradação das condições de vida a que as pessoas têm vindo a estar sujeitas, – particularmente as classes médias, tradicionalmente esteios firmes do viver democrático e livre -, pela submissão ao limite a que o poder político se deixou conduzir face ao poder financeiro e às exigências deste para a consumação das agressões de que vivem: com a redução dos salários reais, com os cortes nos direitos laborais, com a diminuição drástica, ou mesmo eliminação, das diversas prestações sociais, de progressivo descuido e abandono de fundamentais serviços públicos na saúde ou na educação, por exemplo, com as alterações impiedosas nos regimes de segurança social, com as alterações nas relações laborais sempre, e só, favoráveis ao empregador, com a venda a privados de muito do que, público desde sempre, assim deveria ter continuado, – as histórias das privatizações do que é de todos, e não só no nosso País, um dia contadas, poderiam ser a ilustração perfeita do que se não deveria nem poderia ter feito -, com a progressiva perda de confiança dos cidadãos na política, na democracia e nas suas decisões a provocar um certo, e perigoso, deslaçar social, permeável, por definição, às ideias que parecem novas, aos percursos que surgem como radiantes, à mobilização que parece reanimar e retemperar, às aventuras que ninguém quer imaginar fatais.

As democracias vivem da alternância. A concentração do poder ao centro, com a direita e o centro-direita a inspirarem e a ocuparem o papel determinante e o (quase) desaparecimento do centro-esquerda numa assumida inexistência de alternativa, – o poder, assim, revela-se como sendo concentrado e eterno (e isso não existe) e, portanto, de sedutora e intransponível perenidade -, foi incumpridor, não estimulou a excelência, diluiu as obrigações face aos cidadãos e às suas expectativas, menorizou a importância das escolhas, reduziu ao indispensável o diálogo institucional e o que se estabelece entre quem escolhe e os escolhidos e foi, em suma, desresponsabilizante e potenciador do ambiente que hoje se vive de volúvel adesão a indesejáveis, mas eficazes “piropos”.

Junte-se agora a esta disponibilidade potencial o argumentário económico e social com tradição à esquerda; acrescente-se a tudo isto a ideia de que as pessoas não têm segurança e necessitam de quem, firmemente, as defenda e com elas se preocupe; responsabilize-se, sobretudo, a (aparente) liberalidade no acolhimento de imigrantes e refugiados e do quão perniciosos são no interferir, alterar e adulterar dos hábitos, da cultura, da religião, das reivindicações sociais e, até, do impacto no emprego; acicatem-se adormecidos sentimentos xenófobos e racistas; exalte-se a nação naqueles que são os seus honoráveis valores e referências misturando-os com os que o não são; levante-se a ideia de um brilhante e irrecusável futuro para todos de que só alguns ungidos serão capazes de concretizar e temos o caldo de propaganda ideal para projectar a ditadura, para ressuscitar o fascismo. Há já demasiados sinais de alarme, na Europa e fora dela, que devem constituir alertas a ter em conta. Ignorá-los ou desvalorizá-los é deixá-los à solta, é, em nome da tolerância e da liberdade, franquear a porta aos seus inimigos.

Há muitas exigências a fazer, muito a reivindicar, um sempre apetecível mundo novo, o da utopia, a concretizar.

A grande tarefa, que incumbe aos cidadãos, por agora, porém, é a defesa da democracia e, para isso, para além do espírito crítico, da atenção, da preocupação activa, da intransigência em relação ao essencial, seria decisivo poder contar com uma comunicação social que, ao invés de denegrir a democracia e os que dela cuidam, fosse capaz desse desafio maior que é, enriquecendo a democracia, torná-la perene.

 

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.