«Eu venho duma longa saudade»

A sábia voz de  Clarice Lispector  escuta-se ainda e sempre por ser intemporal. E quando se fala de memória  do passado, contra a gélida  e insensata  rebeldia dos que a renegam, Clarice surge-nos dizendo:  «Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o quê,  não sei onde…para resgatar alguma coisa que  nem sei o que é  e nem onde perdi». E refere-se  ainda  à vontade  (um pouco como a fome), a vontade de trazer  à lembrança essa espécie de alimento que robustece os sentimentos  mais urgentes  que se têm na vida. Não  repudia a saudade, antes confirma e admite essa  ansiedade  que a  acompanha,  que a faz «escrever  depressa,  viver  depressaatender demasiado  o  telefone».  Encontrar-se  enfim,  é  o  que  deseja.  Encontrar-se,  saber  onde  está, que  coisa  é  essa  de  ter  saudade  do  que  nem  sequer  sabe  se  existiu.

Ninguém  se  livra  de  ter  consigo  um  passado. Ainda  que  a  memória  não  ajude,  ele  foi  marcado por um processo inconsciente  no  seu  estado  de  vida, deixou-lhe  resquícios, pequenos  pontos negros, nuns  casos,  luminosos  noutros.  Cada  um  é  o  que  o  tempo  lhe  deixou,  mais  o  que  foi  adquirindo  ao  longo  da  vida. É  estulto pensar  em  ruptura  completa, porque  a  própria  libertação  do tempo vivido  é  uma  consequência  dele,  por  reacção às  situações  adversas  e  pela  normal  evolução  das  sociedades.

Em  termos  históricos,  considerando  a  nossa  pertença  a  um  local,  a  um  país,  a  um  tipo  de  civilização, toda  a  carga  acumulada  tem  seus  efeitos: os  acontecimentos,  os  costumes, a língua. Por  isso,  desdenhar  não  resolve  os  pesos  de  consciência, ou  as  agruras  da  injustiça   e  da  agressão. Só  os  actos  adequados e  inteligentes  poderão  reverter  causas  nocivas  e  dar  dignidade  aos  complexos  históricos. Reconhecer,  pelo  saber e  o conhecimento  que  a  História,  com  seus  desastres  e  calamidades,  mas  também  com  suas  aquisições  e  ganhos,  faz  parte  do  que  somos  como  povo  e  criaturas  cívicas.

Chamar-se Património  significa afirmar o respeito pelos bens materiais, cultos e tradições, pela sua simbologia representativa do caracter das comunidades, pela importância que tiveram no passado  enquanto agentes de civilização e no presente como testemunho e presença do tempo.

Sabemos que  a literatura e as artes fazem parte deste espólio. Elas inserem-se no tempo permanente que não conhece rupturas, e apelam à permanência e  à «unificação inteira» como coisa necessária  ao usufruto da vida.  «Minha alma tem o peso duma lembrança, dum olhar», Clarice Linspector continua a chamar-nos à pedra: «Eu  venho  duma  longa  saudade…» Não  se  trata  de  estar  preso  ao  passado, mas  de  reconhecê-lo como  uma  etapa real  da  existência. É útil  verificar o que  foi bom  e  nos  fez  felizes;  é  igualmente útil  observar  como,  mesmo  as  cargas  negativas  submetidas a uma análise  crítica, permitem  determinar as  variantes e a razão  do percurso histórico e entender  a  índole  dos  povos.

Nada  se  perde  da  experiência  quando está em causa entender  o  mundo.  «A  experiência  do  presente  compreende-se  melhor  reflectida  no  espelho  do  passado» ( Karl Jaspers ). Fazer  suas  escolhas  pessoais  não  deve implicar  destruir  as  escolhas  alheias. Ressalve-se  então  a  pedra  de  toque  que  é  necessário valorizar  e  manter  apta  e  actuante : A Educação.

Nenhuma  atitude  é  mais  essencial  para  a  nossa  autodeterminação  do  que abrir-se  aos  largos  horizontes  da  Humanidade. Em  termos  abstractos  a História  não  existe,  são  os  humanos  que, mal  ou  bem, dia  a  dia  a  tecem  e lhe dão  forma.

Na  literatura  o sentimento do passado  não é  exclusivo  do lirismo português. Remontando ao ano  1031, durante  os  reinados  que ocuparam  os territórios  luso-árabes  de  Badajós,  Mértola  e  Silves,  houve  uma  cultura  local  criada  pela  fusão  de  elementos árabes,  berberes,  judeus,  hispano-romanos  e  hispano-godos. Daí  surgiram  poetas  como  Al Mu´tamid  e Ibn´Amar  celebrados  ainda  hoje em Silves.  É  de Al Mu´tamid, o rei-poeta,  retirado  em  Sevilha,  o  desabafo  expresso  no  poema  que  refere,  em  tradução  explícita,  a  palavra  «saudade» : «Saúda por  mim Abn Bakr/  os  queridos  lugares  de  Silves/  e  diz-me  se  deles  a  saudade/  é  tão  grande quanto  a  minha./  Saúda  o  Palácio  das Varandas/  da  parte  de  quem  nunca  o  esqueceu.»…..Ai  quantas  vezes  fiquei/  lá  no  remanso  do  rio…»

Pensa-se  haver  ainda  restos  do Palácio das Varandas  ou  de Xarajib nas  ruínas  do  castelo  de  Silves. Todas  estas  memórias são  material  fascinante  que  não  nos podem  tornar  indiferentes, porque  a  História  somos  todos  nós  em  todo  o  tempo,   fusão  de  muitas  raças  e  culturas,  com  um  fio  comum  que  tem  um  nome: Sentimento.

 

 


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