Tenente- general no centro da polémica do furto de Tancos acompanhou ministro às Selvagens em 2017

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Na altura da visita às Selvagens, a equipa de reportagem do FN relatava, assim, o episódio da queda do então chefe de gabinete de Azeredo Lopes: “Num episódio com alguma graça, o general Martins Pereira, chefe de Gabinete do Ministro (à dir.) teve o azar de cair ao mar ao passar da fragata para os botes dos fuzileiros… chegou encharcado à Selvagem Pequena.”- Foto Luís Rocha

O homem que está no centro da polémica do furto de Tancos, o tenente-general António Martins Pereira, na altura general e chefe de gabinete do ministro da Defesa, a quem o porta-voz da Polícia Judiciária Militar, Vasco Brazão, terá dado conhecimento da encenação à volta desse mesmo furto, com o encobrimento dos eventuais autores, segundo noticiou o Expresso, acompanhou o governante às Selvagens em agosto de 2017.

Foi por essa via do encontro com o chefe de gabinete, que Brazão terá dito, ao juiz de instrução, que o ministro teve conhecimento desse encobrimento, depois das armas recuperadas, num processo que se encontra, neste momento, em investigação, com vários envolvidos, e num contexto em que suscita dúvidas relativamente ao real conhecimento da situação por parte das estruturas superiores, quer em termos militares, quer em termos políticos, neste caso o ministro da Defesa.

Martins Pereira, que deixou o cargo de chefe de gabinete em janeiro deste ano, já veio admitir a reunião, em novembro passado, com o coronel Luís Vieira e o major Brazão, mas afirma nunca ter percebido, em qualquer momento, de elementos que pudessem indicar “encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos”. Segundo relata o Observador, citando a Lusa, o ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes diz que “nessa ocasião ou em qualquer outra”, não lhe “foi possível descortinar qualquer facto que indiciasse possíveis irregularidades ou indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos”.

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O ministro Azeredo Lopes está entre as acusações de que teria conhecimento do encobrimento dos responsáveis pelo furto de material militar em Tancos e as manifestações de confiança do primeiro ministro. Foto Luís Rocha

Segundo a mesma publicação online, o general “adianta também que comunicou, através do seu advogado, ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), que está “disponível para ser ouvido, no âmbito deste processo”, sobre aquilo de que tem conhecimento”.

Recorde-se que o Expresso noticiou que Vasco Brazão entregou pessoalmente um memorando, com a explicação da operação, precisamente ao chefe de gabinete do ministro, aludindo ao facto de Martins Pereira ter telefonado a Azeredo Lopes para o informar da situação. Isto tudo “à frente de dois militares da PJM”. Refere, ainda, o Observador que “a declaração enviada à Lusa, o tenente-general Martins Pereira não faz qualquer referência ao memorando que, de acordo com o Expresso, os dois militares da PJM lhe terão entregado”.

Martins Pereira foi chefe de gabinete do ministro da Defesa Nacional entre 07 de dezembro de 2015 e 11 de janeiro de 2018. Desde 15 de janeiro, é adjunto do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas para o Planeamento e Coordenação.

Relativamente às questões políticas, Azeredo Lopes já veio a público desmentir qualquer conhecimento sobre a operação, merecendo inclusivé palavras de confiança por parte do primeiro ministro António Costa, quando este foi confrontado com a possibilidade de afastar o governante do cargo em função das pressões que o caso impõe e sobretudo depois das declarações que são atribuídas a Vasco Brazão, o porta voz da PJ Militar que já pediu para ser novamente ouvido e que neste momento tem, como medida de coação, a permanência na sua residência com vigilância eletrónica. O próprio advogado de defesa, Ricardo Sá Fernandes, já veio confirmar essa pretensão, anunciando a intenção de entregar nova documentação ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal.

Há quem afirme que Azeredo Lopes não terá condições para manter-se no cargo, dando pouca relevância as declarações de confiança do primeiro-ministro ao governante, até porque estas posições dos líderes governamentais valem o que valem e em momentos similares não significaram, necessariamente, a permanência dos ministros nas funções que desempenhavam, caso por exemplo da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a quem foi dada confiança em declarações públicas, mas veio a demitir-se em consequência da tragédia de Pedrogão.

O roubo de material militar nos paióis de Tancos, entretanto desativados, ocorreu em 2017 e a Polícia Judiciária deteve, em setembro deste ano, o diretor e outros três responsáveis da Polícia Judiciária Militar, um civil, que estão em prisão preventiva, e três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé.