Este ano, Pedrógão era Joana

 

Faltarão dez ou onze dias para que Joana Marques Vidal, – é verdade, pego também no tema para afastar de mim a, digamos, indignação, pelo facto de ele, o assunto, nos ter sido impingido meses a fio sem haver, nos planos da seriedade e da boa-fé, rigorosamente nada que justificasse tal atenção e campanha -, deixe de ser Procuradora Geral da República.

Será substituída por Lucília Gago que, nos termos da Constituição (n.º 3 do art.º 220) e da lei, foi para isso indicada pelo governo e nomeada pelo Presidente da República.

A partir daí, a preparação, a experiência, a inteligência, a capacidade de trabalho, o rigor de análise, o desassombro, o bom senso e, sobretudo, a coragem, ditarão o modo como o mandato vai ser exercido e constituirão parâmetros fundamentais na inevitável avaliação a que os portugueses, e as entidades a quem tal exercício compete, procederão no momento em que a sua substituição venha a estar, inelutavelmente, na ordem do dia, lá para 2024.

E, em circunstâncias normais, ou tidas como sendo as expectáveis, – “expectável” está na moda -, tudo estaria concluído, o assunto estaria encerrado, o gasto de energia útil seria despendido onde faria falta, a vida prosseguiria o seu (não) rumo e as suas certas incertezas e, a seu tempo, o tempo viria – virá – de serem feitos os judiciosos comentários de que todos somos capazes e de que todos queremos ser protagonistas, – como eu, neste momento -, avaliando o avaliável, subjectivando o mérito, ou a falta dele, e civicamente opinando sobre o que a todos interessa ou julgamos interessar.

Mas não, não foi assim, não podia ser assim, porque para um sector identificado e identificável da sociedade portuguesa, pelo que pensa, pelo que escreve e pelo modo como reage a alguns episódios mais ou menos graves e dignos de nota do nosso quotidiano, a substituição, ou não, da PGR, JMV, não era uma mera questão de cumprimento da democracia e das suas regras, de opinião, de debate, de postura, de afirmação e de identidade; o que estava em causa era um combate, final (?), de que, para desgaste do governo, para o combater e, porventura, para o derrubar, esse sector deveria ter arrogantemente saído impante, inatacável, vencedor. Politicamente, ganhar com Joana o que não foi possível potenciar como mais-valia com Pedrógão há cerca de um ano, era o inconfessável objectivo maior, supremo, derradeiro.

A direita, em Portugal, – é curiosa, porventura sintomática, a incomodidade de quem, identificando-se com a direita política – e tentando espantar essa identidade sustentando que são todos (as) iguais e de que (já) não há ideologias – esgrimindo os seus argumentos, adoptando a sua estratégia, aplaudindo o seu discurso, sublinhando as suas escolhas e propagandeando as suas ideias e combates, se sente estigmatizado, segregado e (quase) insultado quando a ela, à direita, se sente encostado, referenciado, aliado e associado -, desembestou, mobilizada e agressiva, na tentativa de que a JMV fosse garantido mais um mandato no exercício daquelas funções. Assumiu-a como sua pelas razões que, no seu entender, o mandato dela bem ilustraria (?) e a conveniência política postulava, erigiu-a em heroína, dedicou-lhe muitos milhares de caracteres, teceu-lhe incomensuráveis loas, discorreu em adejectivados e constantes panegíricos, forçou, até ao limite a decisão que lhe teria agradado mais e que, curiosamente, era a que mais contrariava a lógica e o espírito do mandato que ora termina.

Em toda esta azáfama, sem novidade nem surpresa embora, a direita teve a colaboração avançada, – não, não, eu não disse avençada, disse: avançada -, do seu “braço armado”, a comunicação social que, tendo optado, de há muito tempo a esta parte, pelo lado que sentia como seu, sem regatear esforços, mas com desmedida e empenhada militância, – ou seja, ignorando os seus deveres de isenção, equilíbrio, pluralismo, verdade e serviço -, escolheu o lado – e por ele brandiu armas – mentiu, insinuou, garantiu, encontrou “fontes” amigas, ouviu quem quis dos que quis ouvir, sectarizou, adulterou, perverteu e, desta forma enfraquecendo e debilitando o debate, não ajudou no que era essencial: contribuir para a clarificação das escolhas e para a solidez e prestígio das instituições no quadro da democracia que vivemos e do estado de direito que desejamos vivificado e respeitado, enriquecendo-a, à democracia, e ao seu serviço.

Tudo foi de tal forma evidente, óbvio, notório e chocante que, uma vez decidido o desfecho de tão animado pleito, uma parte dela, da CS, veio a público retratar-se e, numa manifestação de aparente humildade e arrependimento, pedir empenhadas desculpas aos seus leitores.

O importante nunca foi o reconhecimento do mérito da Procuradora e a razão sincera e escorreita para reclamar a renovação do seu mandato como prémio por esse reconhecimento; o motivo importante, decisivo, seria a criação de condições para conseguir que, face a uma postura de lucidez, sobriedade e legalidade assumida pelo Primeiro-ministro e pelo governo, propondo um novo nome para assumir a titularidade da PGR, o Presidente da República tivesse dito: não. O resto… adivinha-se.

Correu mal. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não quis que Joana fosse Pedrógão 2018.


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