O que tem de escrever-se

«Eu conheço-te. Conheço-te melhor a ti, do que tu me conheces a mim. Não te faças de vítima quando te digo o que te desagrada ouvir. Mas se é assim, vitimiza-te, que eu gosto.»  Esta frase pronunciada algures, observada à luz das regras mais elementares  do relacionamento humano e das ciências da linguagem, é um grande deslize, um equívoco que não deixa de ser perturbador. É esta muitas vezes a linguagem que a classe política utiliza para, contornando o direito à defesa, tentar ganhar a causa da sua ideologia: apoucar o outro para fazer sobressair a sua opinião. Poucas vezes se assiste a um diálogo inteligente em que as partes, embora declinando o seu pensamento inteiramente legítimo, admitem que tudo é questionável e que alguns meios, sendo embora diversos entre si, podem servir as mesmas causas e atingir os mesmos fins…e que toda a regra tem suas próprias excepções. A madeira é madeira enquanto o fogo não a transforma em carvão; o grão é grão enquanto a moenda não o transforma em farinha.

A radicalização que generaliza as situações e os factos é sempre um processo temerário. A maleabilidade justifica-se quando a inflexibilidade toma foros de imposição.

Assiste-se às vezes a cenas menos desejáveis, diálogos falhados entre pessoas de bem. Palavras à solta sem o necessário controle das emoções. Palavras como projéteis, que, lançadas à toa, atingem inesperadamente o indivíduo incauto que apenas terá declinado uma opinião oposta à maioria, sem pretender ganhar qualquer causa ou sobrepor-se à opinião geral.  Dizer o que se pensa pode tornar-se um tiro no próprio pé. E isto é válido para todas as partes opostas. Daí que, isolar-se para evitar conflitos pode ser uma medida  pessoal para obter o sossego. Outro caminho será guardar os pensamentos e transformá-los em matéria prima para realização de produtos úteis.

É aqui que entra o papel libertador da escrita. A expressão escrita representa uma maneira de potencializar as energias do pensamento e convertê-las em força positiva e criadora. Através dela opera-se uma espécie de «arrefecimento» da intensidade excessiva dessas mesmas forças que se plasmam no objecto escrito, esvaziando-se a tensão inicial que impulsionou o escritor.

Esse processo libertador de tensões, torna a escrita num antídoto que neutraliza efeitos psicológicos nocivos ao próprio criador e a quem procura a sua obra. Não há dúvida que ela provoca em quem a procura um fascínio que não é possível traduzir, mas é esse fascínio que aproxima do escritor o eventual leitor, colocando-o num plano de emoções semelhantes, ao produzir-se entre os dois, ainda que à distância, uma espécie de relação familiar. É esse cunho pacifista e de reconciliação recíproca o grande benefício que se colhe perante o texto escrito.

Maria Zambrano vem em meu auxílio quando diz , «o escritor sai da sua solidão para comunicar um segredo»,  porque a fala – continua a dizer Maria Zambrano – «não nos recolhe nem nos cria, e, pelo contrário ,pelo muito uso que fazemos dela, produz sempre uma desagregação; vencemos pela palavra o momento e depois somos vencidos por ele, pela sucessão dos momentos que vão levando consigo o nosso ataque sem nos deixar responder. E dessa derrota, derrota íntima humana, não de um homem em particular, mas do ser humano, nasce a exigência de escrever». Ao passar à escrita, o que era antes apenas fala tem uma função diferente e já «não estará ao serviço do momento opressor». Quando falamos obedecemos a uma ordem que vem de fora, «de uma armadilha em que as circunstâncias pretendem caçar-nos».

«As grandes verdades não costumam dizer-se a falar. São coisas que se passam no secreto do tempo e das vidas, e o que não pode dizer-se é o que tem de escrever-se». O que não pode dizer-se é o que tem de escrever-se. Esta é a grande máxima que define a pulsão de quem escreve e, ao mesmo tempo, possibilita a quem fala ter a noção da precaridade dessa linguagem.

Dizer, apenas dizer, conduz ao risco da traição. Maria Zambrano refere-se às palavras «traidoras», à sua vacuidade e à sua dureza. Aquelas que podem agredir, quando pronunciadas fora de contexto.

Toda estas reflexões da filósofa espanhola, extraídas do livro A Metáfora do coração, são de uma oportunidade indesmentível. No âmbito duma sociedade conflituosa, marcada por enormes desgastes psicológicos, opressões várias, incertezas, sobrevivências penosas, calamidades naturais, perversões, corrupção, uma humanidade desvalida que não antevê a curto prazo o lenitivo para a sua amargura, a solução para sua adversidade, as falas ganham às vezes contornos de indesejáveis agressões.

A concluir, deixo aqui a recomendação de Maria Zambrano: É preciso «salvar as palavras da sua vacuidade do seu ser transitório». Falamos por necessidade imediata e ficamos prisioneiros do que pronunciamos – «só se encontra libertação quando conduzimos as palavras em nossa reconciliação, rumo ao perdurável e é esse o ofício de quem escreve».