Cáritas refere que “há muita fome na Venezuela” e pede aos madeirenses que recebam bem os que regressam

Albuquerque Caritas Venezuela
Representantes da Cáritas, incluindo a responsável pela área da Venezuela, reuniram-se com o presidente do Governo. Um momento para sensibilizar as entidades governamentais para o apoios aos que regressam. A Irmã Maria José Gonzalez é a terceira da esquerda para a direita.

Primeiro, os que tinham dinheiro. Depois, os profissionais, médicos, engenheiros. Seguiram-se os jovens. Agora, são os mais vulneráveis. Em desespero, levam nada, trocam o que é conhecido, muito mau, pelo desconhecido, na expetativa que o futuro traga a esperança que deixaram de ter. É este o “retrato” de um processo de degradação da vida na Venezuela, traçado pela Cáritas, uma organização que se debate com um cenário de “muita fome” no País e um êxodo numa antes verificado, que obriga a uma redobrada assistência. A vida dos 0 aos 5 anos está na linha da frente das prioridades da organização. Mas há outros desafios: mulheres grávidas, as que estão em fase de amamentação, adultos com falta de tudo.

Viver com ordenado de 30 euros

A Irmã Maria José Gonzalez, religiosa da comunidade “Jesus es Senor”, é a “cara” desse projeto, na Venezuela, que envolve três centenas de trabalhadores e cerca de 20 mil voluntários. Um “mundo” virado para a ajuda, com maior incidência nos mais desfavorecidos. Um quilo de carne, um frango, arroz, massa e legumes. Pouco mais, está assim gasto um ordenado de 30 euros. O rendimento mínimo. Há muitos assim, mesmo muitos. Já não há quem fique surpreendido com as dificuldades.

Depois do desastre natural de 99, as cheias, a tragédia de Vargas, que, no seu conjunto, levaram a morte e a destruição, com a Cáritas a desempenhar um papel relevante em termos de recuperação da vida das pessoas e ajuda humanitária, esta organização volta a debater-se com um outro desastre, este não natural, nem tão pouco relacionado com qualquer conflito armado. É mais económico e político. A organização está no País há 60 anos e a Irmã Maria José diz que “esta situação está a afetar todos os venezuelanos de forma geral, os mais vulneráveis, de modo particular. A Cáritas tem um objetivo muito claro neste momento: salvar o maior número de vidas entre crianças dos 0 aos 5 anos, bem como dar apoio às mulheres grávidas e a pessoas adultas que não têm o que comer e estão numa situação “muito difícil”.

Há muita fome na Venezuela”

A religiosa admite, sem tibiezas, que “há muita fome na Venezuela”, lembrando que “as pessoas perderam poder de compra de bens essenciais”, o que coloca o cenário de desespero num patamar muito alto. Mas também revela que, no meio deste problema crescente, “é gratificante verificar a onda de solidariedade e de partilha que existe, hoje, no País. As pessoas ajudam-se, dão o que têm e partilham, o que é uma situação positiva no meio de uma crise efetiva que está a produzir emigração em grande escala”.

A missão da Cáritas, um pouco por todo o mundo, mas neste particular na Venezuela, “é garantir que sejam respeitados os direitos das pessoas, numa realidade de crise como aquela que vivemos no País. E a alimentação é um direito, a Saúde é um direito, a Emigração é um direito”. Mas sabe, também, que sendo um direito, não significa que esteja a ser respeitado. Não é mesmo. Diz que “não está garantido nem o direito à alimentação, nem à Saúde, e está a provocar a emigração forçada”.

Alerta, monitorização e nutrição

Posto isto, com uma realidade que configura uma tragédia humanitária, com fuga para os países fronteiriços, mas também com saídas de muitos madeirenses e lusodescendentes para território português, com incidência particular para a Madeira, cujos números relativos a chegadas, nos últimos anos, devem rondar as 4 mil pessoas, pouco mais de mil inscritas no Instituto de Emprego, a Cáritas desenvolveu um projeto denominado SAMAN, que incide nas componentes de alerta, monitorização e nutrição, visando precisamente a ajuda aos mais desfavorecidos”.

A Irmã Maria Jose Gonzalez esteve na Madeira, na semana passada, juntamente com o responsável pela Cáritas Portuguesa, no sentido de sensibilizar as autoridades locais para a necessidade de um apoio efetivo aos que regressam da Venezuela. Reuniu com o presidente do Governo, com departamentos governamentais que têm a tutela da emigração, sendo que a todos apontou alguns aspetos que deverão merecer uma atenção particular neste contexto de regressos: a aprendizagem da língua portuguesa, o emprego e a certificação de habilitações profissionais. Da Cáritas Madeira, espera uma missão que se insere na própria génese da organização, um papel de acompanhamento dos mais vulneráveis, no acolhimento sobretudo”.

Sejam capazes de receber

Para o povo madeirense, tem uma mensagem muito concreta: “Sejam capazes de receber os emigrantes que vêm da Venezuela como fomos capazes de receber os emigrantes madeirenses que foram para aquele País. Foram madeirenses que tiveram oportunidade de trabalhar, trabalharam muito e tudo o que têm devem ao seu trabalho. Por isso, pedimos aos madeirenses que acolham os que regressam, que lhes deem oportunidade de trabalhar de forma segura. Alguns deles porventura não ficarão aqui, apenas vieram devido à crise que afeta neste momento e Venezuela e muitos têm crianças pequenas, estão preocupados com a alimentação, a educação e a saúde”.

Faltam 90% dos medicamentos

Na Venezuela, faltam 90 por cento dos medicamentos. E em matéria de alimentação, falta quase tudo, mas o problema é mesmo o facto das pessoas terem perdido poder de compra. “As pessoas não têm possibilidade de comprar alguns produtos essenciais para alimentar uma família. Há um programa do Governo, mas é insuficiente. E o ordenado mínimo, 30 euros, não dá para alimentar uma família. Dá para uma semana”.

Os governos, regional e nacional, mostraram recetividade. Nada de concreto, para já, mas “houve uma intenção de colaboração, demonstraram interesse em acompanhar as pessoas que estão cá, trabalhando um aspeto que nos preocupa, que é a integração, a criação de emprego. Não sendo esse o papel da Cáritas, porque tem a ver com as entidades com competência para tal, constitui, no entanto, motivo de apreensão que leva a organização da Igreja Católica a sensibilizar os governos.