Aviador pioneiro madeirense José Costa – voo transatlântico nos anos 30

José Costa foi um pioneiro aviador madeirense da época de Ouro da Aviação. Alcançou nos anos 30 grande notoriedade internacional com o empreendimento de um voo a solo entre os Estados Unidos da América e Portugal, José Costa era natural do Caniço. A casa onde nasceu a 22 de Fevereiro de 1909 ainda existe, fica perto da Igreja do Caniço. Emigrou para os EUA com 6 anos, obteve a cidadania americana em Abril de 1936, mas nunca perdeu a ligação com a terra nem o domínio da língua de Camões. Conhecido lá como “Joseph” A. Costa ou “Joe” Costa, radicou-se em Corning, no estado de Nova Iorque, onde foi piloto aviador, instrutor de voo, inspector da Administração Federal de Aviação americana, reparador e revendedor de aeronaves, proprietário e operador de um aeródromo.

Filho de um funcionário dos caminhos-de-ferro imigrado com ele, foi o primeiro habitante de Corning brevetado, aos 21 anos. Após terminar o curso em 1929 na Curtiss Wright Flying Service  em Syracuse, começou a ganhar a vida com baptismos de voo, instrução, exibições de acrobacia e largada de paraquedistas. O pai fez dinheiro nos anos 30 da mesma maneira que boa gente que chegou à presidência dos EUA fazia dinheiro a sério nessa época. O livro “Madeira a New Bedford: Um capítulo ignorado da emigração portuguesa nos Estados Unidos da América” do historiador Duarte Mendonça relata voos rasantes durante a célebre Festa do Madeirense em New Bedford, Massachusetts.

Já desde 1930 que José Costa vinha a anunciar a sua determinação em voar desde Nova Iorque para a Madeira, para visitar a sua mãe que vivia na ilha.

Em 1932 anunciou a sua intenção de voar para a Madeira, com a ajuda do industrial lisboeta chamado Carlos Gallo, planeando percorrer 1300 milhas até à Terra Nova no Canadá, prosseguindo depois durante mais 2000 até Portugal (sabe-se lá como planeava chegar cá, até porque não comprou um hidroavião, mas isso é outra história). O regresso seria via Brasil, descendo pela costa africana, fazendo escala em Natal, com destino Rio de Janeiro.

Escolheu um Lockheed Vega, o mesmo modelo que Amelia Earhart usou para atravessar o Atlântico em 1932.

A 24 de Julho de 1935 comprou finalmente um Vega construído em 1929, matriculado NC105N. Número 117 das 132 unidades que saíram da linha de produção de Burbank. Foi inicialmente da Standard Oil Development Company, e pilotado pelo pai do astronauta Buzz Aldrin em voos de teste de demonstração de combustível para aviação. Convém referir que não havia radares, nem rádio ajudas, nem cartas aeronáuticas decentes, controlo de tráfego aéreo essencialmente primitivo, manutenção fora dos EUA a olho e “martelo”, nem ILS nos aeroportos, etc. O piloto automático servia apenas para voar o avião a direito, e era preciso estar de olho.

Além do apoio de amigos e familiares, teve reunir fundos para comprar a aeronave de maneira engenhosa, numa altura de recessão. Organizaram o “Costa Dance”, baile onde 200 casais contribuíram com 150 dólares para viagem, um show de variedades “Flight Frolic”, e os correios puseram à venda postais comemorativos.

O Avião tinha o nome “Crystal City”, e apesar de ter registo americano, ostentava a Cruz de Cristo pintada na fuselagem.

Em setembro de 1936 tinha tudo preparado para descolar com o pai a bordo, mas vários contratempos fizeram-no adiar a partida vários meses. O início da Guerra Civil Espanhola fez com que o Departamento de Estado do governo americano não autorizasse o voo directo para Portugal, programado para cruzar o Atlântico Norte, via Harbour Grace no Canadá, desde modo forçando um viagem via América do Sul. Temiam as autoridades americanas que um erro de navegação pudesse fazer o avião entrar em espaço aéreo espanhol e gerar algum incidente diplomático. O voo transformou-se então num meio de reforçar a ligações entre os dois países, ligando a “Cidade do Vidro” ao estado do Pará, “Cidade da Borracha”.

Dúvidas em relação à segurança de voo por parte das autoridades obrigaram-no a fazer revisão ao motor do avião, aguardar ainda parecer sobre quantidade de combustível permitida, e a testes de visão. No dia 7 de dezembro, voou de aeródromo de Roosevelt Field, em Mineola, Long Island para Corming. Este aeródromo foi ponto de partido para muitos voos históricos, como a descolagem do Spirit of St. Louis de Charles Lindbergh em 1927.

O voo começou a 10 de Dezembro de 1936 do aeroporto de Big Flats (agora Elmira-Corning Regional Airport) com destino a San Juan, Puerto Rico, fazendo escala em Miami. O mau tempo era já problemático, ao sobrevoara Pensilvânia formou-se gelo nas asas, que o forçou a descer bastante até apanhar uma corrente de ar quente para derreter o gelo. Denso nevoeiro fez com que aterrasse em Jacksonville no estado da Flórida, No dia seguinte completou a perna até Miami, e um dia depois rumou directamente a San Juan. Uma fuga de combustível obrigou-o a aterrar em Santo Domingo, na República Dominicana, a 30 passos da fronteira com o Haiti. Estando autorizado a aterrar no Haiti, mas não na República Dominicana, foi imediatamente preso, acusado de estar armado quando descobriram a pistola de verylight de emergência do avião. Após uma chamada de Porto Rico, foi libertado no dia a seguir para que seguisse viagem evitando problemas burocráticos, oferendo a pistola ao soldado que a queria comprar. Solucionou a fuga esfregando sabão na fissura e enrolando um lenço à volta.

A seguinte perna foi para Paramaribo na então Guiana Holandesa (atual Suriname) após ter decidido não aterrar em Trinidad devido aos fortes ventos sentidos na aproximação.

Saiu com destino a Belém no Brasil, onde chegou a 19 de Dezembro. Permaneceu uns dias a visitar um tio, fazendo pausa até ao ano novo enquanto tratava do pedido de autorização de voo para Portugal e mandou reparar a bomba de combustível. Um documento da Fundação Getúlio Vargas menciona um pedido feito a 23 de dezembro ao Estado brasileiro.

A parte mais complicada viria a seguir, um voo longo por cima da selva até ao Rio de Janeiro, que iniciou a 15 de Janeiro de 1937 descolando provavelmente do Campo de Souza. Usou mapas das rotas do correio militar brasileiro como referência, pouco precisos, e com erros grosseiros nas informações de altitude do terreno. Por falta de gasolina, roubada de um dos tanques, viria a aterrar de emergência num campo em Serro, no estado Minas Gerais. Apesar de estar a aterrar num descampado, o campo da Boa Vista, o trem embateu num formigueiro, arrancando-o do avião, e a asa embateu no chão, danificando a estrutura. Não tendo sofrido ferimentos de maior, infelizmente o Vega ficou destruído, salvando-se apenas o motor e o painel de instrumentos com ajuda dos locais.

Nos 70 ainda estava parte da fuselagem em exibição na Prefeitura do Serro. Ainda chegou ao Rio a voar, completando a 16 de Fevereiro o último trecho no cockpit de um WACO da Aviação Militar Brasileira, via Belo Horizonte. Na altura a Aviação Militar usava o Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro como base para o serviço de Correio Militar.

Pese ao ter de abortar a empreendedora viagem, foi alvo de várias homenagens do Brasil, feito amplamente noticiado em jornais locais. A comunidade portuguesa fez-lhe diversas honras , tendo sido convidado para visitar centros culturais e a participar em vários eventos, e Carnaval de Belo Horizonte. Regressou a Corning apenas a 19 de maio, após tratar do resgate de motor, que requereu equipas de bois para levar para vila de Bicentenário do Serro…

O feito é relatado no livro “Revolution in the Sky: The Lockheeds of Aviation’s Golden Age” de Richard Sanders Allen. Esta seria a derradeira tentativa de um voo transatlântico da época de ouro dos pioneiros da aviação. A segunda guerra mundial tomaria conta da aviação, e em 1945 esta tinha mudado completamente.

Durante a segunda guerra mundial José Costa foi examinador de cadetes em treino para ingressar nas forças aéreas dos vários ramos militares americanos, pela Civil Aeronautics Administration atualmente denominada de FAA. Esteve em vários centros de treino de pilotos, no estado do Kansas e Iowa.

Depois da guerra dedicou-se exclusivamente à aviação civil ligeira, tendo optado não ingressar nas companhias aéreas como piloto. Fundou uma empresa de aviação que ainda hoje tem o seu nome, Costa Flying Service, actualmente a empresa de aviação mais antiga de Nova Iorque. Opera no aeroporto Corning–Painted Post Airport que chegou a ter ostentar o nome “Costa Airport” nos anos 40 e 50 do século XX. Em 1993 recebeu o “Aviation Pioneer Award” do Empire State Aerosciences Museum, em reconhecimento pela sua contribuição para o desenvolvimento e avanço da “general aviation”. Em 1994 recebeu o “Lifetime Achievement Award” do Rochester Flight Standards District Office da Federal Aviation Administration, e o “Certificate of Appreciation” do U.S. Department of Transportation, Federal Administration Administration, Eastern Region em reconhecimento dos seus 65 anos na aviação. José Costa foi um romântico da aviação como já não se fazem hoje em dia, tendo pilotado até ao seu último dia de vida.

José Costa faleceu em Corning a 11 de novembro de 1998, mas o seu legado continua a voar. O seu filho Joseph R. Costa, também piloto, ficou a gerir a Costa Flying Service e é actualmente director do aeroporto, entretanto, vendido ao município para que pudesse ser pavimentado. No filme de 1999 “Thomas Crown Affair” existe uma cena onde Pierce Brosnan leva Rene Russo a dar um passeio planador, filmada no Costa Airport.

A TAP Air Portugal dedicou um artigo ao José Costa na revista de bordo “UP” em 2014, e a RTP Madeira também fez uma reportagem.

A família dele, residente em vários sítios dos EUA, desde Corning, Texas e Alaska tem visitado a Madeira nos últimos anos. A que ficou cá vive no Funchal em São Roque.


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