Susana Prada assinalou nas Desertas trinta anos de protecção do lobo-marinho

Fotos: Rui Marote

A Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRARN) promoveu hoje uma visita de jornalistas à reserva natural das ilhas Desertas, assinalando desta forma três décadas do projecto de conservação do lobo marinho e outras espécies, como a freira-do-bugio. Foi também há 30 anos que a casa das Desertas foi construída que se iniciaram os trabalhos desenvolvidos no local pelos vigilantes da Natureza, que depois acabariam por se estabelecer definitivamente como corpo especializado de monitorização e vigilância de reservas naturais no arquipélago.

Falando aos jornalistas que desembarcaram na Deserta Grande após uma rápida viagem até ao local a bordo do navio-patrulha “NRP Mondego”, que também transportou outros responsáveis do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, a governante com a tutela do Ambiente, Susana Prada, enfatizou a importância dos lobos-marinhos, designação pela qual é conhecida na Madeira a foca-monge do Mediterrâneo, “que é a foca mais rara do mundo e que se encontra em risco de extinção”. Em todo o mundo, disse a secretária regional, existem pouco mais de 500 lobos-marinhos, “30 dos quais encontram-se no arquipélago da Madeira”, sendo as Desertas o seu habitat preferido.

Há 30 anos atrás, existiam apenas seis lobos-marinhos nas Desertas, disse. “Sentiam-se ameaçados, pelo que não saíam daqui, e estavam resguardados nas grutas”. Três décadas mais tarde, constata Susana Prada com agrado, o lobo-marinho começa a sentir-se mais à vontade e, actualmente, fruto dos resultados do projecto de protecção, começa a ser várias vezes avistado na Madeira, a ponto de já se terem visto até exemplares desta espécie a nadar placidamente no interior do porto do Funchal, entre os barcos e pranchas de windsurf dos jovens velejadores ilhéus.

O projecto Life Madeira Lobo-Marinho, que se iniciou em 2014 e terminará em 2019, tem um orçamento de 1 milhão, 143 mil, 364 euros e é co-financiado pela União Europeia em aproximadamente 60 por cento. Inclui novidades como a aplicação de tecnologias inovadoras para melhor conhecimento da população de lobos-marinhos. “Existe uma dezena de câmaras fotográficas, que captam imagens de hora a hora, e estão colocadas em seis grutas nas Desertas e em algumas grutas na Madeira”, esclarece Susana Prada.

Susana Prada explica aos jornalistas, com o recurso a um mapa, a monitorização das deslocações dos lobos-marinhos.

Os movimentos dos lobos-marinhos são assim registados. “Além disso, foram colocadas braçadeiras com GPS em três lobos-marinhos, que localizam em tempo real onde os mesmos estão”. Através da utilização desta tecnologia de monitorização via satélite, foi possível apurar alguns dados interessantes, como o de que a foca-monge consegue mergulhar a 400 metros de profundidade, desloca-se das Desertas à costa norte da Madeira, dão a volta à ilha toda e chegam mesmo ao Porto Santo. Isto, apesar de um dos exemplares estudados ter conseguido desfazer-se da braçadeira.

Através deste projecto de conservação, pretende-se melhorar a protecção dos locais frequentados pelos lobos-marinhos, e reduzir o grau de ameaça e perturbação causado por pescadores, operadores turísticos, turistas e população, além de aumentar a capacidade de intervenção em caso de situações de risco para com esta espécie ameaçada.

Lobo marinho avistado hoje na Deserta Grande.

Para o mesmo, contou-se com a experiência do beneficiário coordenador do projecto, nomeadamente a Fundação CBD – Habitat, de Espanha, que tem, segundo a SRARN, desenvolvido metodologias bastante eficazes para seguir o estado da maior colónia de focas-monge do mundo, a de Cabo Branco, na Mauritânia.

Este projecto conservacionista na Madeira inclui a limpeza de lixo das grutas e praias utilizadas pelos animais, a divulgação e educação ambiental, embarques em barcos de pesca e embarcações marítimo-turísticas, para compreender melhor a interacção entre o lobo-marinho e as actividades humanas, e a promoção da rede de informação e emergência SOS Lobo Marinho.

Tratava-se de um exemplar de grande porte.

Actualmente, considera-se que se conseguiu estabelecer um conjunto de métodos que “permitem seguir o estado da população de lobos-marinhos com um rigor nunca antes conseguido”, considerado essencial para a desejada preservação da espécie, que em tempos ocupou toda a bacia do Mediterrâneo, Macaronésia, noroeste africano e Península Ibérica. “Eram muito numerosos e comuns, tendo a sua população se reduzido devido a fenómenos como a caça, morte por pescadores, e deterioração de habitat.

No arquipélago da Madeira, o lobo marinho foi perseguido por causa da sua gordura e pele, e por competir com a actividade piscatória. O então Parque Natural da Madeira, nos anos 80, deu início a um programa de recuperação que conduziu à criação da Reserva Natural das Desertas e à substituição das artes de pesca não selectivas.

Hoje, as Desertas, classificadas desde 1995 como Reserva Natural, integram a Rede Natura 2000, como Zona Especial de Conservação e Zona de Protecção Especial. São, igualmente, uma “Important Bird Area”, uma zona especial para a nidificação e observação de espécies de aves.

As Desertas receberam o Diploma Europeu do Conselho da Europa para as Áreas Protegidas em Março de 2014.

As grutas que constituem o habitat dos lobos-marinhos nas Desertas.

O projecto de protecção do lobo-marinho, explicou Susana Prada, é apoiado há trinta anos. Termina no ano que vem o actual, mas enquadra-se numa sequência de projectos, e “o que nós notamos é que sempre que fazemos uma candidatura para a conservação do lobo-marinho, a mesma é aprovada. Contamos que, depois de 2019, possamos continuar a ter apoio para a conservação do lobo-marinho”. O objectivo é colocar mais braçadeiras em outros exemplares, de modo a conseguir conhecer ainda melhor os seus hábitos e movimentos.

Para Susana Prada, toda a população, incluindo os pescadores, tem hoje como adquirido que não deve magoar, muito menos ferir ou matar, um lobo-marinho, porque se trata de uma espécie protegida e ameaçada de extinção. Por sentir hoje em dia que não é ameaçado, este tipo de foca tem-se expandido por quase todo o arquipélago (embora não se tenha notícia de avistamentos nas Selvagens, mais distantes).

A governante entende que houve uma evolução no pensar de toda a população madeirense relativamente ao lobo-marinho. Actualmente, a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais permite visitas de empresas marítimo-turísticas às Desertas sem pagamento de taxas, mas a portaria correspondente é actualizada todos os anos, pelo que para o ano poderá ser revisto esse aspecto, incluindo mas serviços pagos, mas a reverter sempre para a conservação da Natureza.

Essencial para essa conservação é, sem dúvida, a actividade desenvolvida pelos Vigilantes da Natureza. Uma profissão que não é para qualquer um, pelos longos períodos de isolamento a que obriga, e de inteira dedicação à causa natural.

Nas Desertas, fomos encontrar Sérgio Pereira, que exerce este ofício há sete anos. No início, admite, sentiu mais esse isolamento. Com a experiência, acabou por se habituar. Já trabalhou nas Selvagens e em reservas na Madeira, mas foi mesmo nas Desertas que passou, até agora, a maior parte do tempo, envolvido no projecto Life, do lobo-marinho.

“Neste momento, com este novo projecto e com as câmaras automáticas, conseguimos registar os lobos, e identificá-los. Daí termos uma percepção dos resultados do trabalho que foi feito”, diz. Aspecto essencial é evitar ao máximo que estes animais sejam perturbados pelas pessoas. “Passamos a informação de quão importante é esta espécie”, salienta. Hoje em dia, diz, “há uns 25 animais”, cuja reprodução e vivência tem de ser acompanhada. “As fêmeas têm uma cria por ano, e essas crias nascem em alturas de levadia, a partir de Outubro… Com a ondulação forte, as crias, que não têm ainda muito à vontade na água, são por vezes projectadas contra as rochas. Daí perderem-se algumas crias por alturas do seu nascimento… e a população ainda não é muito alta, a nível de natalidade… Até os animais chegarem a adultos muita coisa [de mau] pode acontecer”.

Sérgio Pereira sente-se realizado no trabalho de protecção da foca-monge

Os esforços para proteger estes simpáticos seres preenchem, no entanto, Sérgio Pereira, que diz ter aprendido imenso sobre a mesma. Trata-se, diz, de animais afáveis, mas a sua interacção com os seres humanos exige cuidado, uma vez que se trata de animais selvagens. Simplesmente, têm um grande porte e uma capacidade de apneia enorme, muito superior à do ser humano. Um lobo-marinho até pode tentar brincar com um ser humano, mas nessa tentativa pode magoá-lo ou arrastá-lo para baixo de água e afogá-lo, avisa.

Quando um exemplar é avistado, é avisado o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, cujos peritos procuram observar e avaliar o comportamento do animal, explica.

Nas Desertas, a maior concentração de lobos-marinhos é na designada “Praia do Tabaqueiro”, a zona onde as crias nascem e onde se concentra a maior colónia em Outubro, inclusive disputando as crias de outras fêmeas, quando as mães perdem as suas próprias.

Destaca, também a propósito da sua actividade, o apoio efectivo da Marinha. “Agrada-nos bastante”.

Apesar de não serem colocados, actualmente, obstáculos às visitas marítimo-turísticas às Desertas, constata que nos últimos anos a frequência das mesmas aumentou. “Consequentemente, o nosso trabalho também aumenta, com a necessidade de fiscalizar e vigiar para que não haja interacções negativas e fazer com que os lobos se sintam em casa”. Hoje em dia, admite, já se faz sentir alguma pressão humana; “daí estarmos aqui precisamente para tentar colmatar esse aspecto”, sublinha.

Susana Prada, entretanto, salienta a sua intenção que prosseguir um trabalho de protecção, mas deseja envolver todos no mesmo, evitando propriamente proibir. Prefere optar por uma intervenção mais pedagógica e que envolva toda a população, inclusive empresas marítimo-turísticas e pescadores.

Se todos cooperarem, não há dúvida de que o lobo-marinho agradece.