São rendas

 

«Chamava-se Carmensita / a cigana mais bonita /era um sonho, uma visão…diziam que era a cigana/ mais linda da caravana…» Não pretendo, com esta evocação lírica, extraída de um fado de Amália, salientar a beleza da mulher cigana. Quero, sim, fazer da mesma evocação ponto de partida para outra forma de beleza, essa que, independentemente dos anais da condição da mulher, significa uma dignidade assumidamente  humana e sem polémicas de  género, raça ou etnia. Senhoras de uma civilizada postura, graciosas e inteligentes, são essas ciganas que eu conheci e de quem guardo uma grata memória.

Comunidade de hábitos nómadas, provenientes da Índia, os ciganos, ou povo romá, evitando situações adversas, foram, ao longo do tempo,  caminhando para o ocidente e norte da Europa onde escolheram lugar para viver, espalhando-se também pela África, Brasil e pelo resto do mundo, com permanência temporária nos vários países. Alguns grupos, tendo-se fixado durante mais tempo, através da miscigenação, acabaram por deixar vínculos evidentes nas populações autóctones, como é o caso dos países eslavos, (Rússia, Hungria, Bulgária, Roménia e Croácia), com grande implantação no folclore local, de que é exemplo, também, a vizinha Espanha. Apesar da obscuridade que rodeia a história da sua existência, alguma informação dá conta do seu aparecimento por volta do séc.IX.  Mas tudo se remete para uma origem lendária que os próprios ciganos veiculam como valorização da sua etnocentria e das suas diásporas.

Unidos pela defesa inflexível duma cultura própria, foram sobrevivendo às investidas dos sarrecenos  durante muitos séculos e à pressão xenófoba de outros povos até à actualidade.  Há notícias de que, em plena época bizantina, Santa Atanásia de Egina se aproximou de um povo chamado Atsinagi a quem valeu, durante a guerra entre Bizâncio e a Bulgária, no séc.X.    O vocábulo Atsinagi ou Tsigani  originou mais tarde o espanhol gitano e foi adquirindo as sucessivas designações de Zigane,  Zingari, Zíngaros, como são conhecidos os ciganos húngaros. A designação correspondente em Inglaterra é Gypsy, pela   atribuição a uma hipotética origem egípcia.

Ao longo do tempo sociólogos e antropólogos, interessados no conhecimento destas populações, têm procurado chamar a atenção para a necessidade duma aproximação discreta mas eficaz no sentido de lhes facilitar, sem conflito, o diálogo civilizacional com as diversas culturas dos países onde vivem. A cultura cigana prescreve um conservadorismo rigoroso na relação entre os seus membros e um forte sentido de família. As grandes festas e  danças  sobressaem em vivacidade e alegria e denunciam com grande força expressiva o carácter voluntarioso, o orgulho e a arrogância  dum povo defensor acérrimo da sua identidade.

A arte dramática e a música trouxeram-nos agradáveis referências  a esta etnia, através de obras mundialmente reconhecidas. Existe em Madrid um belo monumento a Cervantes que salienta uma cena de uma novela deste autor, a célebre la Gitanilla, levada também ao teatro. É bem conhecida a empolgante «Gran Jota» da ópera espanhola de Tomás Bretón, La Dolores, em que se podem ouvir, entre outras, as magníficas vozes de Plácido Domingo e José Carreras. No palco dos grandes tablados internacionais  a Carmen de Bizet percorre o mundo. Igualmente famosas, as Czardas de Vittorio Monti  e  a canção russa Olhos Negros são testemunhos expressivos da cultura «romani». A alma cigana evidencia-se também na dança flamenca que a todos   atrai e emociona e leva  Espanha a toda a parte. O Flamenco está hoje registado na UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.

Neste meu deambular sem fronteiras, conheci, para contentamento pessoal, um grupo de senhoras ciganas que venceram a iliteracia, e se manifestaram aptas a aprender, a integrar-se no mundo do conhecimento e do trabalho.  Aprender os bordados portugueses foi o ponto de arranque para permitir o diálogo intercultural alargado, com vantagens para as partes intervenientes. O bordado Madeira esteve no programa* e revelou-se, pela sua riqueza e exigência de execução, um processo difícil, sim, mas aliciante pelo desafio a que se sentiram chamadas. Os bordados da Madeira são rendas que os dedos atentos tecem de urdidos, caseados, granitos e estrelas, e as bordadeiras, revelando todas as qualidades de um espirito curioso e ambicioso, entregaram-se à tarefa, com a maior disponibilidade. Senhoras ciganas interessadas, inquiridoras, entusiastas, preocupadas, sensíveis, cientes deste valor acrescentado à sua cultura de origem.

No fim da manhã, a  Poesia esteve à mesa, com o pão da hospitalidade. As palavras atraíram-lhes o olhar e a alma. Prenderam-nas à agulha como a linha ao pano. Como o sonho à  vontade de saber, como um segredo bem guardado que se enlaça ao desejo duma vida melhor. Não podia ser mais verdadeira a cantiga: 2«São rendas, são rendas/ canteiros de flores/ enredos de vida/ histórias de amores. São rendas, são rendas/ meandros de ninho/ que o jeito dos dedos/ constrói sobre o linho.»

 E não faltou um estimulante «pé de dança» e a vontade de voltar.

*Projecto: A.L.É.M. Associação de Literatura, Literacia e Mediação – Escola Secundária Marquês de Pombal, Lisboa.

2 in Ilha Que é Gente( cantigas), Irene Lucília Andrade, DRAC, Funchal,1986