Recordar é viver: umas miniférias de sonho na ilha dourada

O dia nasceu bonito naquela manhã de verão de 2009 em Vila Baleira. Iniciava-se assim o terceiro e penúltimo dia daquelas miniférias de sonho que hoje aqui vos recordo.

O veleiro, ancorado e amarrado, ondulava serenamente ao sabor das vagas que, pela desembocadura do porto, se arrastavam por entre os barcos até embaterem no molhe interno da Marina, morrendo na praia.

A azáfama nas embarcações vizinhas iniciara há já algum tempo, primeiro num sussurro embalador, depois, em crescendo, lá ia subindo de tom até que o despertar, embora aprazível, se tornou inevitável. Assim era a cada novo dia, numa sucessão cronológica encadeada, quase rotineira, mas sempre agradável de acontecimentos que nos embalavam e envolviam sem imposições nem horários rígidos, ou não fossem férias.

Abri os olhos e espreitei pela escotilha do meu camarote à popa, olhando o mar, o céu, tudo à minha volta, enfim! Que bonito é acordar assim, num ambiente tão acolhedor – pensava eu enquanto um bocejo me escapava da boca.

No barco, o silêncio era ainda total. Tudo indicava que os meus anfitriões dormiam ainda, aproveitando calmamente aquele universo de sonho dumas férias certamente merecidas e que se prolongariam ainda por mais alguns dias.

Esfreguei a vista e olhei o relógio pousado no topo do armarinho à minha cabeceira. Dez horas! Já? Decidi então levantar-me, tratar da higiene matinal, enfiar um calção e um polo e ir, Marina fora, até ao centro comprar os ingredientes essenciais para um lauto pequeno almoço, desta vez da minha lavra, na companhia do nosso Skipper e da sua companheira quando acordassem.

São uns sagrados quinze minutos em marcha praticamente plana, se bem que suados graças ao Sol que há muito despontara no horizonte e já então começava a abrasar.

Na véspera apanhara logo um inusitado escaldão, um pouco por descuido ou talvez por não ter repetido suficientemente os espirros de protector solar precavidamente comprado no dia da chegada, na antevéspera, a Porto Santo na farmácia central. Afinal já dois dias antes experimentáramos uma prolongada exposição ao astro rei durante toda a travessia no belíssimo veleiro entre o Caniçal, na Madeira e o Porto Santo…

Arrastei-me para fora da cama, abri a porta do camarote e lá fui ainda sonolento rumo ao quarto de banho enquanto uma vez mais me deleitava com aquele interior Phillip Stark, todo em madeira de teca exceptuando a pia, o fogão, o mini frigorífico e os almofadões brancos de cabedal que cobriam confortavelmente os assentos em torno da mesa do deck interior.

Era aí que todas as manhãs tomávamos o pequeno almoço invariavelmente composto por chá ou café à escolha, pão fresquinho do dia ainda quente, queijo, fiambre, salame, compotas diversas, fruta e aqueles ovos estrelados que a influência deixada pelos ingleses na Madeira tornara imprescindível em semelhantes ocasiões. E é claro! Já me esquecia do imprescindível sumo de laranja e do leite frio, duas constantes altamente apreciadas pelos três inquilinos do habitáculo flutuante.

Terminada a toilette e enfiado o vestuário, coloquei a bóina, ajeitei a pala, subi a escada e escapuli-me para o exterior do Béneteau 47.

Adivinhava-se mais um dia lindo, quente, mas ali fora corria ainda uma brisa fresca marítima tão boa!… Recolhi então as nossas toalhas de praia ainda dependuradas ao relento, já ressequidas, substituindo-as pela minha de banho que agora secava ao sol e passara a esvoaçar ao vento, imitando as duas bandeiras da embarcação irrepreensivelmente hasteadas.

Saquei do escadote em alumínio que sempre jazia na ponte a bombordo, abri-o, passei-o para o exterior fazendo-o deslizar até tocar o pontão da Marina, e lá fui escada abaixo, pontão fora a caminho do centro de Vila Baleira.

Ao longe, no molhe a sul do porto acabara de acostar o “Lobo Marinho” e um rodopio de camiões a par de um sem fim de bicicletas, motorizadas e automóveis deixavam os porões pela popa do navio rumo à marginal, em procissão.

Em sentido contrário, uma mancha predominantemente amarela conduzia ao navio outros tantos veraneantes em fim de férias para bordo do navio com destino ao Funchal. É a lei da vida, deixei escapar em surdina.

Uns chegam, outros partem! Uns à espera do que lhes reservam aquelas novas férias de verão que ali se iniciavam, outros levando na bagagem uma série de estórias que esperariam contar aos amigos e parentes deixados para trás uns tempos antes quando embarcaram do Funchal rumo ao sonho de mais uma aventura estival na ilha vizinha…

Pela minha direita, o Penedo do Sono fazia por essa altura verdadeiro jus ao seu nome. Nada a ver com o ruído ensurdecedor que imperara à noite naquela zona até ao alvor, lá pelas seis da matina. A música dos bares em adivinhada concorrência sonora e a algazarra de uma juventude à solta, longe dos pais e das amarras do quotidiano do ano académico concluído foram, entretanto, substituídas por uma paz, uma tranquilidade e um sossego bem merecidos.

Menos bom, confesso recordar ainda hoje quase uma década depois, era para quem dormia cedo na Marina, pois por ocasiões tornava-se insuportável tamanha proximidade do Penedo do Sono. Testemunhavam-no as conversas de fim das manhãs entre os “marinheiros” e os seus hóspedes iatistas que acabavam sempre por deixar escapar um comentário porventura menos lisonjeiro sobre o assunto!

A esse propósito, recordo ainda perfeitamente, num misto de nostalgia e saudade da animação inebriante daquelas noites no Penedo e de algum sério sentimento crítico pontual pela atitude brutal, contrastante e condenável de alguns jovens da época frequentadores daquele espaço (quase sempre) agradável, cujos contornos e atos, porventura induzidos pela ingestão exagerada de álcool, o fizeram “rebatizar”, nessas férias, de “Penedo do Soco”! Ironia incontornável esta a do aproveitamento humorístico, mesmo sarcástico e hilariante, cujo autor desconheço a identidade, mas de quem venero o engenho, a arte e o sentido de oportunidade, tudo características ímpares das nossas gentes…

Apesar do calor que crescentemente se fazia sentir fruto do Sol que continuava a sua escalada no céu, a par da contribuição desportiva e acalorada do meu passo cadenciado, acelerado e contínuo em direção ao centro da pequena cidade insular, lá concluí o trajeto sem novidades até à padaria habitual, a visita ao mercadinho de frutas e legumes e a passagem pelo principal supermercado local onde, após debeladas as habituais filas de espera próprias daquela época do ano naqueles tempos, completei o meu rol de compras alimentares. Após a passagem da praxe pelo café da moda da altura e apreciada a habitual bica matinal, retomei o meu caminho e regressei ao barco onde me aguardava já desperto o “comandante”, o meu primo e amigo Luís…

Quase num ritual quotidiano, seguiu-se o pequeno almoço já descrito, as lides “obrigatórias” de manutenção do navio e a saída com destino às zonas da praia mais a oeste onde nos encontrávamos com os nossos amigos junto ao “Bar do Henrique” e ao “Hotel do Porto Santo”, na praia frente ao “Luamar” ou na praia da Calheta e na esplanada do seu restaurante, propriedade de amigos comuns, no extremo ocidental sul da ilha de Porto Santo.

Entre os mergulhos num mar límpido e tépido, a opção alternada pela toalha estendida numa areia dourada tão fina quanto bela e escaldante e as incursões aos bares contíguos para uma merecida bebida refrescante a par de uma alegre cavaqueira entre amigos, assim se ia consumindo mais um dia, à imagem dos anteriores, no Porto Santo, intervalado por um almoço mais ligeiro composto de lapas grelhadas, pratos de navalhas, caramujos, camarões e outros acepipes marinhos sem esquecer os tremoços e a batata frita, um regresso à Marina para um apetecível duche ao fim da tarde e a combinação de um jantar de amigos no “João do Cabeço”, no “Estrela do Norte” ou no “Zé dos Frangos”, apenas para citar alguns dos restaurantes que, na ocasião, habitualmente frequentávamos!

A seguir à janta, invariavelmente como todas as noites de férias na ilha, nós e a maioria dos veraneantes convergíamos para a praça mais central da Vila Baleira, em frente à igreja matriz, para sorver um gelado ou uma tradicional “lambeca” de iogurte, ou então para junto do cais da cidade e do “Pau de Sabão”. As famílias, adultos e crianças, conviviam entre si e com as demais em alegre harmonia, até que fosse hora de recolher, cada uma, às suas bases para um merecido descanso recalcitrante. Afinal, no dia seguinte, tudo se sucederia de forma parecida ou semelhante, com algumas alterações consoante as preferências desportivas de cada um como fossem a prática do golfe e o usufruto do clube local, ou a equitação para os adeptos da especialidade, sem esquecer a prática do ténis nos campos de jogo locais ou ainda o futebol, o desporto rei no nosso país.

Quanto ao desfecho da noite para os notívagos de férias mais resistentes, naquele verão, estes após vaguearem como sempre pelos vários bares da pequena cidade junto ao centro e de os encerrarem às duas da manhã, lá se dirigiam impreterivelmente para o famoso Penedo do Sono ou do Soco vizinho à Marina e a partir daí, o resto já sabemos!

Como recordo aquelas curtíssimas, mas formidáveis férias no Porto Santo que jamais tive a oportunidade de bisar. Guardo-as no baú das minhas memórias que hoje, aqui e agora abro e partilho convosco, na esperança de que, para alguns dos leitores, tenham o condão de os fazer despertar e reviver com prazer boas experiências afins. Recordar é, afinal, também VIVER.


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