Claques ou Craques do estaladão?

Na origem, o termo Claque deriva do francês Claque (estalada, bofetada), sendo forma do verbo claquer. Contudo, o seu significado também foi associado à expressão “para aplaudir”, referindo-se a uma equipa de profissionais contratados para aplaudir espetáculos em teatros e casas francesas de ópera, em troca de bilhetes e dinheiro.

Mais adiante, com o advento da televisão, o termo passaria a denominar também pessoas contratadas para aplaudir ou rir durante programas humorísticos ou de auditório.

Nos dias que correm, sobretudo no desporto, e mais especificamente no futebol, os aplausos transformaram-se em insultos aos adversários, quando não à sua própria equipa, na linguagem mais grosseira do dicionário de calão; o teatro caminhou a passos largos para o recrudescer de tragédias; a ópera tornou-se berreiro da pesada. Em síntese, a música agora é outra.

Ou seja, as regras de urbanidade e desportivismo foram “às urtigas”, depois de anos e anos de  impunidade associada à falta de regras quer internas, quer externas.

Os chamados “três grandes”, mas não só, dia sim, dia sim senhor, através dos seus presidentes, diretores de comunicação ou comentadores (não raro comentiradores) televisivos da marca “voz do dono” ora instigam o pior canalhedo das suas claques com declarações envenenadas (devendo a todos ser imputada responsabilidade moral pelas consequências), ora “assobiam para o lado”, em manifesta prova de cumplicidade. Para mais ajuda, assiste-se há demasiado tempo à falta de coragem ou vontade política, e a uma aplicação da lei certamente mais macia que seda do Paraná.

Em Inglaterra, país de gente que os tem no sítio, ironicamente, foi uma mulher (Margareth Tatcher) que acabou com o hooliganismo, alterando e criando legislação a sério, tendo-se banido os adeptos violentos dos estádios, castigando com a proporcional severidade os clubes que os protegiam e acicatavam, e criando condições para que famílias inteiras hoje possam usufruir de um verdadeiro espetáculo, sem ter de temer pela sua vida e dos seus, ou recear pela má influência ou traumas futuros nos mais jovens.

Por cá, país de supostos “brandos costumes”, não obstante a morte de adeptos, pancadaria “de criar bicho”, cânticos selváticos em estádios e pavilhões ou, mais recentemente, Alcochete,  um incidentezito “chato”, para citar as palavras comovidas daquele coração sensível chamado Bruno de Carvalho, ninguém com autoridade para pôr definitivamente termo a este irrespirável clima de delinquência organizada “mexe uma palha”.

Certo é que muitas claques de hoje nada têm que ver com o primeiro projeto chamado “Vapores do Rego” (antes de surgir a primeira claque de futebol em Portugal, em 1976, batizada como “Juventude Leonina”) que muitos ainda recordam com nostalgia. “Vapores do Rego” (curiosa sugestão talvez olfativa!!!)  foi um projeto de carolice composto por muitos estudantes brasileiros que frequentavam cursos em Lisboa e que levavam instrumentos musicais para o estádio, no intuito de recriarem o ambiente de festa e dança que já se vivia nos principais clubes cariocas e paulistas da altura.

Hoje, porém, e muito infelizmente, já não há rasto de carolice ou vestígio de ambiente festivo e pacífico. Hoje, em lugar de instrumentos musicais, temos autênticos arsenais de navalhas, bolas de golfe, pirotecnia e afins, tudo numa base muito profissional, com muito dinheiro e interesses obscuros à mistura, potenciando escaladas de violência, práticas de associação criminosa, tráfico de droga e posse de armas, que ninguém parece estar interessado em debelar, começando pelos dirigentes desportivos, para culminar nos governos e na Justiça. Tudo de “bocarra aberta”, “orelhas moucas” e “braços cruzados”, em registo ZEN-Tá-se Bem.

Dito isto, bem vistas e pesadas as realidades, talvez seja mais avisado e certeiro considerar o termo Claque, em muitos casos, como “estalada”, já que parece servir sobretudo para expressões gratuitas e irracionais de agressividade e violência. Para tudo, afinal, menos “para aplaudir”, salvo honrosas exceções, que também as há em alguns clubes, Chapeau.