O Futebol é o Portugal “B”

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnFiquei estarrecido quando ouvi o Presidente da República dizer, a propósito das agressões aos jogadores do Sporting, em Alcochete, que “não podemos ter dois Portugais” e, pasme-se, “não podemos fazer de conta, gostamos muito de fazer de conta”. Foi uma declaração interessante vinda de quem vem, como se não soubesse que é assim há muito tempo e que as instituições desse País onde é Presidente têm vindo a “assobiar para o lado”, desculpando o indesculpável e fazendo das ocorrências no futebol um caso à parte em termos de Justiça. O tal Portugal B que Marcelo não quer, não quer mas tem.

Nem queria acreditar que um Chefe de Estado não soubesse, que no seu País, no País onde é, constitucionalmente, a figura primeira da Nação, existem dois Portugais, pois está claro, e mais ainda, existe a prática do faz de conta, diária, constante, em quase todos os setores, mas no futebol, como diz o povo, “minha Nossa Senhora”, é um “vê se te avias”.

Futebolisticamente falando, há um Portugal democrático, em alguns aspetos apenas na medida em que há eleições, mas pronto, há um Portugal democrático para todos os efeitos. E as instituições funcionam. E depois há um Portugal B, o do futebol, com líderes cuja força assenta no suporte de massas, acéfalas muitas vezes, como sabemos, na maior parte das vezes para sermos mais rigorosos, suporte esse que vem sustentando mediocridades ao longo dos tempos e que, em diversos momentos, legitima, através das audiências que essas massas proporcionam, autênticos canais de comunicação “terrorista”, que ano após ano têm vindo a agravar-se e dominam mesmo, infelizmente, aquilo que deveria ser o normal funcionamento das instituições desportivas, onde o terreno único deveria ser o do campo de jogos e não as secretarias, com expedientes propícios ao engano, à corrupção, ao “chico espertismo”. Quem faz isto ganha, quem não faz perde. Há uma estranha perceção do que é ganhar ou perder, que desvirtua completamente a verdade, neste caso desportiva. Há como que um prémio à mentira. Há o tal “faz de conta” que Marcelo fez alusão.

E não venham agora as entidades, políticas e desportivas, com falsos moralismos para dizer que agora é que é, agora é que serão constituídos grupos de trabalho, organismos contra a violência no futebol, iniciativas, reuniões, como forma de reagir ao estado de coisas que eles próprios, clubes por ação, entidades públicas e judiciais por inércia, outros ainda por omissão, acabaram por criar à volta do fenómeno desportivo, particularmente o futebolístico, uma auréola para terreno intocável, que move milhões, move massas, move emoção, move coração, mas pouca racionalidade, pouca razão.

O futebol não pode ser um caso à parte, nisso estamos de acordo com Marcelo. Mas é Marcelo que está em melhor posição para que a sua mensagem vá além das declarações, é preciso que os restantes orgãos, a Assembleia da República, o Governo, o Poder Judicial, coloquem como prioridade evitar que o fenómeno desportivo obedeça a uma espécie de Portugal B, com Portugal A a assistir, diariamente, a esta vergonha nacional que é o que se passa com alguns episódios preocupantes, até do ponto de vista da identidade nacional, onde as massas idolatram gente sem escrúpulos, e porque funcionam em massas, com raciocínio muito reduzido nesse contexto, tanto correm hoje um líder a pontapé, como amanhã dão maiorias absolutíssimas e levam em ombros o mesmo líder.

Quantas vezes vimos isso nos clubes? Quantas vezes essas democracias internas, também elas com especificidades adaptadas a cada coletividade, resultam na mentira do futebol? E quantas vezes os clubes, na sua organização tipo estrutura secreta à margem do resto, tomam decisões que só colocam o futebol à margem do resto do País, tudo muito adaptado à maneira do que serve, que até pode servir ao futebol, da forma como está, mas que, em algumas situações, não serve à sociedade onde esse mesmo futebol está inserido, por muito que isso pareça que não.

O futebol tem o poder das massas. As massas votam, logo o futebol tem atenção particular do poder político. Com a força das massas e do poder político, também do poder económico que vem atrás, o futebol ganhou uma projeção que nem todos os seus protagonistas sabem utilizar, umas vezes por falta de formação, outras por má-fé. O resultado, por vezes, é o poder político com medo do futebol, cedendo ao futebol, deixando o futebol e alguns presidentes de clubes, com uma margem alargada, para a tomada de posições que às vezes até colocam em causa um Estado de Direito. E quando isso passa para as massas, acontece o que aconteceu em Alcochete e que, no passado, já aconteceu em muitos estádios, incluindo na Madeira, embora sem a gravidade destes acontecimentos.

É preciso que todos os envolvidos saibam ocupar os seus lugares. É preciso que as massas adeptas, as verdadeiras, saibam apoiar os seus clubes, tenham confiança na forma como os dirigentes exercem o poder, tendo como horizonte a verdade desportiva. E saibam comportar-se com civismo, o civismo de um único País e não o civismo que no tal País à parte, o do futebol, tem uma interpretação mais alargada, onde a falta desse mesmo civismo representa uma tolerância intolerável. A sociedade deve ser intolerante às vitórias a qualquer preço, mas os associados e simpatizantes dos clubes deveriam estar na primeira linha dessa luta.

Os poderes, consagrados na Constituição, devem funcionar na sua plenitude. O resto é conversa.

Agora, se querem dois Portugais, força. Mas depois não se queixem.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.