Sou gerigoncista – A Função Primordial

 

A surpresa foi geral. A solução política, e eminentemente democrática, para o governo do País, que foi encontrada no quadro dos resultados das eleições legislativas de 2015, encontrou os portugueses receosos face ao futuro, incrédulos sobre a possibilidade de verem dissipar-se o pesadelo a que estiveram sujeitos durante quatro anos e meio, tementes de novas provocações, de novos abusos, de novos excessos, de novas e destruidoras experiências governativas que, tinham consciência, em parte nenhuma da nossa Europa resultavam, mantinham o cepticismo, prolongavam a estagnação, perdiam na concorrência, empobreciam sem remédio o dia-a-dia de cada um e despedaçavam sem dó a esperança em dias melhores e mais auspiciosos.

O agrado pela fórmula adoptada e pelo que ela poderia significar foi esclarecedor, – passou a discutir-se, é curioso, se com os parceiros escolhidos a decisão seria para pouco ou muito tempo, se resultaria para uma sessão legislativa, ou duas, ou mesmo três, ou se duraria a legislatura… -, apesar da poderosa campanha opinativa, informativa e desinformativa que entretanto fazia o seu caminho, com a prestimosa colaboração do então presidente da república e de uma assanhada direita convencida de que o seu poder era definitivo e inalterável, tentando a sua inviabilidade e, em consequência, a aposta num acordo que ela, a direita, teria como garantido ao centro e em que, a ser assim, o PS desempenharia o confrangedor papel de parceiro menor rendido a uma agenda ideológica imposta e que só uma inconfessável e desesperada vontade de poder poderia explicar.

O Secretário-geral do PS, António Costa, com uma excelente e determinada equipa dirigente, deixando clara toda a sua cultura política, toda a sua determinação e lucidez tática, todo o seu equilíbrio temperamental, toda a sua firmeza democrática e interpretando de forma soberba o papel desempenhado pelo PS ao longo da história da nossa vida em liberdade, soube – e foi capaz de – resistir à tentação suicidária de um tal acordo à direita, – de que todos tinham, vindo de muitos outros países europeus, exemplos a não seguir em nome da preservação do que distingue e do que permite as opções e as escolhas em desfavor de tudo o que contribui para homogeneizar, uniformizar, descaracterizar e abalar a identidade próprias -, e encetar um caminho que, pelo menos nos mais sensíveis domínios, do económico ao financeiro e do social ao político, produziu os seus frutos, apaziguou a sociedade, recolocou o País no mapa europeu e mundial, relançou a sua visibilidade e o seu prestígio e continua a fazer o percurso que tardava e que era ansiosamente esperado pela esmagadora maioria dos nossos concidadãos, como se poderá depreender dos resultados que as consultas de opinião nos vão colocando à frente dos nossos olhos. Daí que, e à laia de uma singela declaração de interesses, eu afirme, – e não será, porventura, a primeira vez -, o meu inequívoco apoio à “Geringonça”; perfilhando a ideia segundo a qual “ o óptimo é inimigo do bom”, sou um convicto geringoncista e vejo com naturalidade, e portanto sem sobressaltos, o evoluir de uma situação que a aperfeiçoe, a rendibilize politicamente e posicione para (ainda) melhor servir o País e os nossos concidadãos.

Torna-se-me, por isso, quase incompreensível o modo como, de origens distintas, e a propósito de uma recuperada capacidade de diálogo do PSD, por intermédio do seu líder eleito, a que António Costa correspondeu, como lhe incumbia, nos planos da tolerância democrática, disponibilidade, capacidade de diálogo e interesse nacional, culminando na assinatura de textos que expressam posições semelhantes de ambos os partidos sobre temas cuja consensualidade possível é também desejável, face à sua utilidade para todos, o agitar do espantalho de um “bloco central” que podendo ser apetecível para o maior partido da oposição, não o é para o partido do governo,- O Primeiro-ministro tem lembrado a sua antipatia por essa redução, – a “TINA” de má memória -, reafirmando a sua convicção de que, limitando as possibilidades de escolha, ela empobrece a democracia e portanto não vivifica e estimula o regime -, torna-se-me, por isso, quase incompreensível, dizia, o que parece configurar uma tentativa, vá-se lá saber porquê, de empurrar o PS para onde (ele) não quer ir e, assim sendo, consumar uma perversidade política evidente. Mas perigosa; muito perigosa.

É de toda a gente conhecido – não sei, claro, se as mais novas gerações têm disso consciência – o papel desempenhado por Mário Soares e pelo PS na afirmação da democracia em Portugal, na sequência do 25 de Abril que há dias completou quarenta e quatro anos desde que, com toda a justiça, se transformou na data da liberdade, no “Dia da Liberdade”. Mas não será exagerado, e é pedagogicamente sublinhável, recuperar o seu comportamento no modo arejado, moderno, civilizado, dialogante e tolerante como encararam o seu papel no quadro de uma sociedade tendencialmente radicalizada ideologicamente, que urgia temperar e ajudar a preparar para os novos tempos que a democracia e a liberdade iriam exigir. Foi essa postura, esse sentimento do que é imperioso e do que é reivindicável, esse pensamento fino do que é relevante e primordial para todos que estiveram na consideração séria e justa de que o PS era o partido charneira da democracia portuguesa – charneira “ juntura de peças que giram no mesmo eixo; dobradiça” Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora.

É como geringoncista, mas com a esperança de que a função primordial, a de charneira, se não perca, se não esfume, se não dilua nos tempos menos pacíficos que vivemos que quero continuar a apostar, com sóbrio entusiasmo, no futuro de todo o meu País

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.