O simpático Senhor Smith

Passaram mais de trinta e quatro anos desde que a minha mulher e eu, jovens casados, fixámos residência na Madeira. Por esses tempos, o grupo de amigos que desde o início nos acolheu, tinha por costume frequentar aos fins de semana no Funchal um dos restaurantes da moda, onde, entre outras iguarias e sobremesas gulosas, se destacava, na altura, o famoso bife à Chanceler.

O restaurante com esplanada, situado na estrada monumental pelas bandas do Alto Lido, mantinha ao portão, para acolher os clientes, um simpático funcionário que nos dava as boas vindas sempre com um enorme sorriso e uma palavra de apreço e nos acompanhava à mesa que nos era destinada.

De etnia africana e natural de Moçambique, aparentava a quarentena, vestia sempre uma indumentária com um modelo e corte algures entre o smoking e o fraque de outros tempos e fazia apelidar-se de Smith, Senhor Smith.

Desde esses tempos que datam do último quartil do século passado que sempre nutri uma empatia pelo simpático senhor, ouso mesmo afirmar que, com o desenrolar dos anos, se foi construindo uma saudável e desprendida amizade entre nós.

É certo que a vida de um e a do outro foram traçando o seu respetivo percurso e, embora durante os vários anos que se seguiram já não frequentasse tão assiduamente o referido restaurante e essa frequência se fosse gradualmente esbatendo até terminar, era costume passar de carro em frente ao restaurante e lá saía sorriso e cumprimento de parte e outra, muito para além desses tempos.

Os anos foram-se sucedendo, a nossa família cresceu e passou a contar com dois filhos varões, os meus afazeres profissionais foram-me crescentemente empurrando para cada vez mais missões no exterior da ilha e do país promovendo a Madeira e o seu CIN, os nossos hábitos e tempos de lazer foram-se alterando até que a vida me conduziu à compra de um apartamento residencial na rua da casa branca, nos arredores do restaurante Mamma Mia/Fora d’Oras na base do Hotel Estrelícia.

Sempre que me deslocava aos fins de semana, a pé ou de carro, para o Clube Naval, ou durante a semana ao Supermercado Lidosol (posteriormente: Pingo Doce) via-me forçosamente obrigado a descer o curto caminho que liga ainda hoje a rua da casa branca à estrada monumental. Eis se não quando, um belo dia já virado o novo século, percorrendo esse mesmo caminho me deparo, ao portão do restaurante o Dragoeiro, com um Senhor Smith já de cabelo grisalho, mais forte, com ventre saliente e sexagenário mas com o mesmo sorriso rasgado e olhos brilhantes, em suma a mesma interminável simpatia que desde sempre o caracterizou, para além do mesmo gosto no vestuário, não fora o facto das cores se terem tornado, com o avançar da idade, mais vivas e coloridas, onde o vermelho garrido, o azul forte, o verde vivo e o amarelo gritante, em outros tempos inexistentes, passaram a ser as tonalidades mais marcantes da sua indumentária. E assim se manteve esta até aos nossos dias…

A interpelação mútua e a nossa conversa, à medida de pormos as respetivas vivências e recíprocas notícias em dia, foram bastante mais longas do que o eram antigamente e lá falámos das respetivas proles, a do Senhor Smith maior e repartida entre o nosso país e Moçambique, e a minha de abalada para Lisboa para a continuação dos correspondentes estudos, universitários e pré, respetivamente. Mais recentemente, foi notícia o nascimento da minha querida neta Maria, o que deixou o amigo Smith extasiado: Já??

A partir desse dia, passou a ser rotineiro o aceno da praxe quando nos cruzávamos – comigo de carro – e o cumprimento de mão, o famoso bacalhau e a troca de notícias sobre as respetivas famílias, quando a minha passeata se fazia a pé por aqueles lados. Era raro o dia quando nos víamos que não me perguntasse pelos meus dois filhos, o Nicolas e o David, como iam de saúde e nos estudos! Ultimamente acresceu à pergunta, novidades sobre o novo rebento! Gostaria de tê-la apresentado também, mas quis o destino que não fosse a tempo para isso…

Recordo quando se referia com saudade à sua terra natal que jamais visitara, volvidos tantos anos. Cheguei a tentar organizar com um casal vizinho amigo, a angariação e coleta de fundos para proporcionar ao Senhor Smith a realização do seu sonho de revisitar aquele país longínquo da África austral que, afinal, era o seu.

Sonhar é fácil e gratuito, mas para por os nossos sonhos em prática é necessário muito mais do que uma simples vontade e um desejo férreos e não consegui materializar aquele sonho do meu amigo! Menos mal que nunca lho disse, pois queríamos fazer-lhe uma surpresa. Se assim não fosse, imagino o desgosto que poderia ter sentido…

A boa disposição que desde sempre reconheci nele, o amor pela nossa terra e um grande espírito de resignação e abnegação, terão seguramente ajudado a que levasse uma vida por cá, de certo modo, apaziguada e feliz, mau grado os seus achaques de saúde e as dificuldades financeiras que teria. Levando avante a sua profissão de sempre, acolhendo os seus clientes, até agora ao portão do Dragoeiro.

Até que quis o destino levá-lo de cá há uns escassos meses para um profundo e merecido descanso junto dos seus antepassados mais queridos. Consigo imaginá-lo às portas do Céu em alegre cavaqueira com São Pedro e tentando convencer este a recrutá-lo para ali mesmo, acolhendo com o seu sorriso aberto todos quantos lá vão aportando!

Bem-haja caro amigo Smith!