A procura do “belo horrível”

Muito lamentavelmente, na imparável era tecnológica em que vivemos, para muito boa gente, fotografar ou filmar uma tragédia parece ser (cruel e desumanamente) mais prioritário que tudo fazer no sentido de prestar assistência ou acionar  o mais prontamente possível o socorro e a natural intervenção das autoridades competentes.

O que começou por ser residual, paulatinamente, começou a ganhar simpatizantes, adeptos e fanáticos, de tal forma que deve forçosamente merecer da nossa parte uma necessária e urgente análise, à luz do pressuposto de que os fenómenos mais alarmantes devem ser estudados quer a montante, quer a jusante, no sentido de melhor os compreender, atenuar e debelar.

Em bom rigor, o que mais parece seduzir estes “espetadores curiosos”, de espírito mórbido, macabro ou mesmo sádico, é registar de todos os ângulos possíveis e imaginários as mais problemáticas, arriscadas ou graves situações, incluindo vidas e bens em risco.

Procurar impedir que elas ocorram, tentar minimizá-las ou pôr-lhes termo, para esta gente virtual, de coração e cérebro paralelamente virtuais, é decididamente para cotas ou totós.

Em face das evidências, estamos a um pequeno passo de poder afirmar taxativamente que já lá vai o tempo em que pessoas “de carne e osso”, com coração e cérebro reais, não hesitavam em acudir ao seu semelhante, não raras vezes com risco das suas próprias vidas.

Hoje, porém, o que está “na berra”, garantindo a almejada popularidade a qualquer preço, é partilhar o “material” multimédia (quanto mais chocante, melhor) o mais agilmente possível  nas redes sociais para alimentar a febre de bater recordes de visualizações, partilhas, gostos, emojis a lacrimejar, a expressar boquiaberta surpresa ou mesmo, em alguns bizarros casos, a inspirar risota imbecil e primata.

A este propósito, de acordo com a psicóloga Elizete Maria Bachi Comerlato, este tipo de comportamento cada vez mais comum é “a procura de um falso sentimento de sucesso e inclusão, em que a imagem predomina sobre a relação humana e sobre a sensibilidade diante de um facto trágico, fazendo com que as pessoas percam o seu bom-senso e também a solidariedade. Eu filmo e partilho na minha rede social, procurando a importância que desejo ter por meio daquele canal, importando-me apenas em conquistar o reconhecimento público”.

Daqui resulta uma inevitável ilação, extremamente preocupante e perturbadora, mais precisamente a de que a sociedade do nosso tempo está realmente mais preocupada em registar e fomentar a manutenção de vários tipos de conflito do que em intervir solidariamente sobre eles.

Fazendo um pouco de História, antes do “boom” dos smartphones e Iphones, os adeptos do “flash” eram os paparazzi, tipicamente pendurados em postes de luz ou de manhosas cócoras atrás de um arbusto, a fazer lembrar o lobo-mau a emboscar o Capuchinho Vermelho, sem prejuízo de nos esquecermos dos magotes de turistas japoneses, todos alinhadinhos e de câmara em riste, sempre prontos a “disparar” tanto sobre seculares monumentos como sobre uma  culturalmente irresistível e fotogénica tampa de uma adufa.

A substitui-los, hoje, temos um potencial fotógrafo ou freelancer à espreita em cada esquina, beco, travessa ou impasse, com aquelas hiper-modernas maquinetas a transbordar de pixels e HD,  por maior que seja a aselhice para a coisa.

Concedo que alguns desses vídeos e fotos, desde que não imponham a condição de prejuízo às vítimas ou à recolha de provas, podem ser de fulcral importância para o esclarecimento de crimes, inegavelmente.

Em todo o caso, o que vai fazendo falta é que as pessoas tenham discernimento sobre quando devem agir ou quando devem registar as situações que atrás referenciámos.

Com as alterações climáticas que, infelizmente, vieram para ficar, com efeitos cada vez mais devastadores à escala global, que a muitos governantes mundais preocupam, à exceção, claro, do homem mais entendido na matéria, um tal de Trump, conhecido ambientalista e ecologista, presume-se que potencialmente ativista da Greenpeace, o que é certo é que já temos entre nós a visita de tornados e, por este andar, teremos a muito breve trecho, prevejo-o, resmas de caçadores de tornados, em furgoneta, trator ou Canter blindados, a vibrar, bombar e uivar como perdidos, bem no olho da tempestade.

Bem recentemente, por via das fortes intempéries, temos assistido a algumas imagens de gente afoita ou com juízo de galinha, um pouco por todo o país, a “pôr-se a jeito” junto a zonas interditas pelas autoridades, colocando em risco a sua vida, mas, mais grave ainda, desrespeitando os avisos e alertas, o que, no limite, poderá redundar na necessidade de intervenção de equipas de salvamento, que, por sua vez, para poupar a uma morte estúpida esses “Joões e Joanas sem medo”, sujeitam-se eles próprios a perderem tragicamente as suas próprias, como muito infelizmente já aconteceu há alguns anos na nossa região.

É verdade que estes “cromos”, com um solitário neurónio, não estiveram debaixo dos holofotes mediáticos da entrega dos Óscares de Hollywood, mas, pronto, sempre tiveram os seus 15 minutos de fama, desempenhando o muito honroso papel de “os cretinos da fita”.

Como se não bastassem as atitudes ética e moralmente glaciais inicialmente aduzidas, é também já corrente a publicação de fotografias de vítimas de acidentes e homicídios, partilhadas através do aplicativo WhatsApp a uma velocidade histérica e vertiginosa, passando num esfregar de olhos de smartphone em smartphone, porventura para gáudio de mentes aparentadas com a do monstruoso Dr. Hannibal Lecter.

Acresce que, além das cada vez mais assíduas partilhas de vídeos de tortura e pornografia involuntária, a referida aplicação tem ainda o brutal condão de difundir imagens de violência, antes mesmo da chegada do socorro e das autoridades ao local dos crimes, sem que se vislumbre da parte dos sinistros fotógrafos qualquer rebate de consciência em tirar uma fotografia de um corpo inerte, sem qualquer pingo de respeito pela vítima ou pelos seus familiares, o que diz muito do carácter (para lá de alienado) de quem protagoniza tais “delicadezas cívicas”.

Em suma, sem querer entrar em perigosas generalizações, sou tentado a conceber que alguns destes entes virtuais não estarão muito longe da definição técnica de psicopatia e sociopatia, partindo do princípio de que psicopatas e sociopatas partilham uma série de características, incluindo a falta de remorso ou empatia pelos outros, a ausência de culpa ou a capacidade de assumir a responsabilidade pelas suas ações, um desrespeito pelas leis ou convenções sociais, e uma patológica inclinação para a violência.