Palestras no Teatro abordam obra de Baltazar Dias e a Casa da Ópera

No âmbito das “Conferências do Teatro: Madeira de A a Z”, o Salão Nobre da vetusto edifício que é uma referência cultural na Região acolherá, a 1 de Março, às 18 horas, uma sessão cuja temática será a obra de Baltazar Dias e a Casa da Ópera. Os oradores convidados são a docente da UMa, Luísa Paolinelli e Carlos Barradas. A entrada é livre.

Luísa Paolinelli proferirá uma alocução intitulada “A Fortuna de Baltazar Dias”, na qual abordará a obra deste poeta e dramaturgo madeirense, que viveu durante os reinados de D. Manuel, D. João III e D. Sebastião, um período de alterações significativas em Portugal.

“Se a cidade de Lisboa de D. Manuel se oferecia aos habitantes como lugar-símbolo da grandeza do império, do novo espírito ultramarino e europeu – com as festas não só a servirem de distracção necessária em tempos de pestes, mas também como propaganda da imagem real e da opulência da corte –, a chegada da Inquisição, em 1537, e o espírito neo-tardo-medievalista de D. Sebastião transformam o ambiente e as manifestações de espectáculo. Lisboa é ainda muito medieval: um núcleo consciente da sua herança islâmica e cristã, que demonstra os seus contrastes em várias manifestações oferecidas em espectáculo, como a oração, a missa, o cortejo, o casamento, o funeral. Às procissões e festas religiosas, de data fixa, juntam-se os festejos mais ou menos espontâneos, as declamações de trovas nas praças e nos adros das igrejas, o teatro. A cidade é vivida no exterior e no interior dos templos e das casas, celebrando acontecimentos e, muitas vezes, unindo-se aos cortejos das entradas reais na cidade ou na recepção a altos dignatários estrangeiros. É neste mundo que se move Baltazar Dias, no cruzamento das tradições da cultura erudita e cultura popular (no fundo, jamais separadas), preocupado com quem lhe publica sem autorização as obras, cuidadoso com a Inquisição e a Censura dos textos. Foi precisamente esta que fez com que parte das suas obras não chegassem até nós, já que, quando colocadas no Índice Expurgatório ficavam destinadas a sobreviver apenas por questão de sorte”, refere uma sinopse da palestra.

“Muito pouco estudado hoje, considerado o “poeta cego” do povo, Baltazar Dias está longe de ser apenas isso, com uma obra variada de grande cuidado e apurado sentido dramático e de prática de palco. O que a censura lhe fez aos seus textos na altura parece repetir-se no esquecimento dos estudiosos que perdem a oportunidade de analisar globalmente uma das personalidades de mais relevo numa época áurea do teatro português – com figuras como Gil Vicente e Ribeiro Chiado, Henrique da Mota e Afonso Álvares. Os textos de Baltazar Dias ligam a nossa cultura a São Tomé e ao Brasil, que, ainda hoje, o celebram através de produções teatrais de cunho popular. É, por isso, um traço de união com o mundo europeu, em termos das tradições com e nas quais trabalha, e com o mundo lusófono, pela recepção e reprodução. Traço de união a fortalecer”.

Por seu turno, Carlos Barradas fará uma intervenção intitulada “Casa da Ópera”, na qual pretende descrever e analisar a história da Casa da Ópera desde a sua construção, nos finais dos anos setenta do séc. XVIII, à sua lamentável destruição em 1833.

“Foram José Rodrigues Pereira e Manuel dos Santos Coimbra que lançaram as bases deste empreendimento, tendo depois mobilizado a sociedade burguesa da época entre madeirenses e estrangeiros para sua definitiva concretização, tendo chegado a ser considerada a segunda maior casa de espectáculos em Portugal depois do Teatro S. Carlos”, refere a sinopse.

“A história da Casa da Ópera mostra, desde a sua edificação, a sujeição às complexidades políticas, económicas e sociais sofridas pela Ilha da Madeira que inclusivamente se mostra na variedade de indivíduos que intervenientes nessa mesma história. Apesar de esta ser à partida uma narrativa trágica da Casa da Ópera, não deixa de nos ensinar que as Ideias e os Ideais edificantes do saber e da cultura vencem qualquer destruição física no tempo. Senão veja-se o quanto a presente existência do Teatro Baltazar Dias é tributária da sua antepassada Casa da Ópera”.