A Igreja da Madeira precisa mesmo de padres?

 

  1. Tendo em conta que a poeira parece ter acamado quanto ao caso do padre Giselo, sinto-me na necessidade de vir a terreiro para reclamar dignidade a um padre que não deixou de o ser e que está em condições de assumir todas as funções sacerdotais. Ele não deixou de ser padre. Mas, porquê a necessidade deste meu manifesto? – Porque já estamos mais do que cientes da forma pouco justa como a Diocese trata os seus padres, quando falham, quando ficam doentes e quando ficam velhos…
  2. Alguns manifestaram admiração pelo facto do padre Giselo ter presidido a um baptismo e casamento neste fim de semana passado (24 de Fevereiro) na sua antiga paróquia do Monte. Nada o impede. Se manifestou intenção de continuar como padre e tal situação foi aceite pelo Bispo, nada o impede de exercer as funções clericais em qualquer parte do mundo devidamente autorizado. Ainda mais considero que deve ser nomeado para um serviço pastoral e porque não para o serviço paroquial… A famosa nota da dispensa do padre Giselo foi bem clara: «ele próprio manifestou o desejo de continuar a exercer o ministério sacerdotal, nas condições exigidas pela Igreja». Assim, não é possível compreender um padre sem paróquia se estamos num contexto de uma cada vez maior necessidade de párocos, que obriga os poucos que existem, a terem que assumir duas ou mais paróquias.
  3. A situação neste momento do padre Giselo é muito vaga. Foi também informado que «padre Giselo Andrade podia continuar a exercer o ministério pastoral, através de algumas actividades que lhe estavam já confiadas, na área das comunicações, e outras que eventualmente lhe sejam atribuídas». Mais claro que isto é impossível. Porém, ressalve-se que «comunicações», não nomeia nada e é de uma vacuidade intrigante, ainda mais se considerarmos que todos comunicam e que as ditas «comunicações» da nossa Diocese são o que bem sabemos. Resumem-se a homilias e a notícias de actividades pastorais. Reflexão, opinião, debate… Nada.
  4. Neste sentido, a situação do padre Giselo resulta num arranjo que satisfez alguns (seus colegas especialmente, mas também muitos leigos), mas não resolveu a sua situação e deixou-o na condição de «padre bombeiro», quiçá desamparado monetariamente. Bem tinha razão o padre Bernardino Andrade nas Cartas do Leitor quando escreveu que a Diocese ao retirar o Padre Giselo da Paróquia do Monte, mantinha a «boa imagem da Igreja» e a «boa imagem da sociedade» à conta de mais um bode expiatório.
  5. Penso que ainda vamos a tempo de clarificar as coisas e definir com verdade a situação do padre Giselo. Para que não fique a ideia do castigo do padre, «o filho pródigo», tão reclamado pelo irmão mais velho, os cumpridores (da parábola do Filho Pródigo) e os bem comportados, que diante dos perdidos pecadores quiseram que se fizesse valer os seus direitos face ao prevaricador. Disseram que era preciso mostrar uma Igreja que dá cartas, que não tolera percalços com misericórdia e com o perdão integrador e reparador do Evangelho.
  6. Face a este ambiente, vamos à regra antiga dos latinos e que devia comandar a nossa vida em todas as situações, especialmente, se são delicadas – o «modus in rebus». Felizmente, nunca esteve em causa a não assunção da paternidade da criança e todas as responsabilidades inerentes à situação da condição do padre Giselo ser pai de uma menina. Não parece ter sido desejo do padre Giselo abandonar o sacerdócio e optar pela vida matrimonial, mas continuar com as funções pastorais na condição do ser padre, que no caso será de «padre e pai». Daí que não descurando nem uma condição nem outra, pretende assumir as duas, por isso, deve ser acolhido e aceita com todos os direitos e deveres. Não concebo uma Igreja que esteja fora do perdão misericordioso para os seus, mas que faz o que o mundo faz cruelmente com os seus semelhantes, entregando-se a si mesmo qualquer padre que tenha errado no caminho.
  7. Em conclusão, removida a força maior do escândalo que era o facto de continuar como pároco do Monte, deve ser integrado numa lógica da misericórdia, mesmo que a situação imponha algumas limitações, por causa da sua agora situação de ser pai, permitindo que ele conceda as devidas prestações aos cuidados da sua filha, a quem não pode faltar afecto paternal. A Diocese não pode neste momento desamparar o padre Giselo, não pode dar-nos a ideia que lhe falta o zelo da humanidade e da justiça. Nem muito menos dar-nos a ideia que já não precisa de padres.
  8. Aos leigos em geral e à sociedade, deve também ser pedida a devida tolerância e respeito, porque está em causa o futuro de uma criança, que não tem culpa nenhuma de ter nascido nas circunstâncias que todos nós bem conhecemos.