A “Realpolitik” chegou ao PS-Madeira

foto Rui Marote: Emanuel Câmara numa cerimónia nos Paços do Concelho do Funchal

A esta altura do campeonato, quando já se sabe que Emanuel Câmara venceu as eleições para a liderança do PS-Madeira, pode afirmar-se sem grande risco de erro, que após várias décadas, a “realpolitik” chegou finalmente ao seio dos socialistas madeirenses. Pois é. Pode-se protestar, invocar os mais altos princípios morais, rasgar as vestes de indignação, mas o facto é que o PS-M aprendeu, finalmente, que em política o que importa é… ganhar.

Fotos do acto eleitoral de Rui Marote

Apodado, imaginativamente, de “lebre do norte” – não o melhor epíteto, do nosso ponto de vista, mas vá lá, quem inventou não conseguiu ser mais criativo – Emanuel Câmara arrostou calmamente com tudo o que lhe quiseram chamar aqueles que julgavam ter superioridade moral para determinar o rumo dos socialistas ilhéus. À sua maneira peculiar, inclusive exagerando aqui e ali, tratando-se a si próprio na terceira pessoa, sendo criticado, mesmo ridicularizado, Emanuel Câmara teve o condão de perceber o princípio acima invocado: sem a possibilidade de ganhar não se consegue fazer nada, nem de melhor, nem de pior, daquilo em que verdadeiramente se acredita.

Durante anos, a sina do PS local foi a de permanecer eternamente na oposição – uma realidade que, diga-se de passagem, até serviu a muitos. Os sucessivos líderes, a quem seria injusto não reconhecer alguns méritos, pautaram-se quase sempre por uma postura de dignidade, de evitar o aceso confronto político, de não “descer” ao nível do PSD e do seu supremo líder de então, Alberto João Jardim, o homem que chamava ao parlamento “uma casa de loucos” e aos socialistas “tontos”, entre outros mimos. O único dirigente socialista que realmente soube enfrentar Jardim a ponto de efectivamente o irritar, e mesmo assim sem descer ao mesmo nível de linguagem ofensiva, foi António Loja. Mas como vimos, a sua permanência como figura de proa do PS-M foi curta e terminou como se viu. Quanto aos restantes líderes, invocaram sempre a elevação em política como forma de se distanciarem do comportamento do seu adversário social-democrata, que consideravam arruaceiro.

Bem, claramente formou-se no PS-Madeira, que chegámos a pensar eternamente condenado à oposição, uma facção que entendeu o que se denomina “realpolitik”. A política da realidade, com todas as suas manobras, jogos de cintura e dar-o-dito-por-não-dito claramente assumidos. Emanuel Câmara assumiu que queria ser presidente do PS, principalmente como forma de viabilizar uma candidatura do actual edil funchalense, Paulo Cafôfo, a presidente do Governo Regional nas eleições legislativas que se avizinham. E porque o fez? Porque, tal como outros correligionários, entendeu que Paulo Cafôfo era o único que tinha capacidade para, em 2019, destronar o PSD do Governo da Madeira.

Cafôfo, por seu turno, embora tenha afirmado que se candidatou a segundo mandato na CMF para cumprir até ao fim o seu compromisso com os munícipes funchalenses, não terá pejo em dar esse passo e adiantar-se na corrida à presidência. A verdade perceptível é que é isso que muitos madeirenses querem, e por isso a maioria entenderá que, dentro dos jogos da política, o que hoje é amanhã deixa de o ser, porque as circunstâncias se alteraram e é necessário dar passos maiores. A população não gosta de políticos sem ambição. E – abram os olhos – pode-se discutir legitimidades toda a noite e todo o dia seguinte, mas Carlos Pereira dificilmente conseguiria assumir-se como candidato credível a cair no goto dos eleitores e através deles alcandorar-se à Quinta Vigia. É assim.

Já Cafôfo tem hipóteses. Mesmo carregando o fardo da tragédia que se abateu sobre o Monte e do consequente processo judicial que enfrenta enquanto edil. E é por isso que a maioria dos socialistas resolveu apostar nele, e é por isso que vários – chamem-lhes idealistas ou oportunistas, tanto faz – mudaram as suas preferências, mesmo após lutas de consciência.

Após anos e anos de destino traçado, o PS cansou-se de ser oposição, e passou a ser uma força com a qual contar. Fê-lo nas autarquias; quer disputar agora a maioria dos lugares no parlamento regional e conquistar a liderança do governo da Região. Tal é legítimo. E os líderes dos partidos, que dominam, como o próprio nome indica, a partidocracia em que vivemos, gostam muito de clamar alto e bom som pela liberdade de opinião, pelos princípios da democracia, da sã convivência de distintos pontos de vista, etc. Até ao momento em que alguém lhes disputa a liderança. Aí já se trata de divisionistas, de pessoas interesseiras, sem moral, que até disseram isto ontem e hoje mudaram o discurso, de traidores, e por aí além.

Dificilmente convencerão alguém. Muitos cidadãos que se dizem socialistas, ou que sentem alguma empatia com o PS, ou que simplesmente não nutrem simpatia pelo PSD ou por outros partidos, não perdoam ao PS-M o ter perdido tantas e tantas vezes, persistindo sempre nos mesmos erros. Querem ver vencedores. E quem têm sido, e são os vencedores no PS-M?

Está à vista. Aparentemente, os militantes não têm medo de terem um líder “telecomandado”. Nem de terem um futuro presidente do Governo “telecomandado” por Lisboa. Querem é vitória. Cansaram-se de perder.

E é isto a “realpolitik”.