Natal de todos os dias para vencer as encruzilhadas


Dedicado ao Dr. Gaudêncio Figueira, porque foi inspirado nos diálogos inesquecíveis que travámos

1. Todas as encruzilhadas da vida são importantes e necessárias. Quem as nega ou as evita atrapalha-se e acaba por andar à deriva. Nas encruzilhadas aprendemos a viver e o que é a vida. Nada de andar com fantasmagorias e com intenções fatídicas, que fazem convencer toda a gente que tudo é negro e que não nos livramos nunca das desgraças. Muitos outros antes de nós pensaram assim, mas hoje, já sabemos que eles venceram toda a desgraça e vivem a parusia da graça. Sem dramas, este é o destino final de todos nós.
2. As encruzilhadas são desafios, que colocam os bondosos pensamentos e as convicções à prova. Se assim não for, facilmente caímos no comodismo e não saímos daquela «zona de conforto» que tanto nos agrada, porque não nos questionamos nem muito menos nos sobressaltaremos com as dúvidas. É tão bom quando está tudo feito, porque não há tergiversações. As inquietações alimentam a vida, requerem pensamento próprio, liberdade e sentido apurado na procura.
3. Não tendo o equilibrismo do trapezista, avançamos sobre o fio com ventos tumultuosos, mares revoltosos e tempestades nada bonançosas, que nos arrastam para o abismo, tantas vezes mutilando todas as esperanças, ferindo as vivencias e experiências que corajosamente às vezes assumimos convictamente. Tudo é tão volátil. Tudo é tão encruzilhado. Mas mesmo assim, nenhum medo nos deverá demover de nenhuma curva e cova do caminho. Porque «o caminho faz-se caminhando», como ensinou o poeta António Machado.
4. As covas da vida espreitam-nos, mas devemos ser audazes, seguros do caminho e, mesmo até o mais tortuoso, sempre nos leva a algum sítio. Não fazer caminho é sempre a pior das opções. E temer o caminho ainda mais coarcta a experiência, a existência, porque não nos torna maduros e seguros diante das tempestades. Também não serão as lamúrias que nos farão permanecer na luz do bem e da felicidade, porque elas são sempre nefastas e farão permanecer sempre nas catacumbas escuras da escura solidão. É inevitável. Está confirmado pela vida e pela experiência.
5. Aquela verdadeira dimensão do humano não é dada pela riqueza dos poderosos deste mundo, os que se pavoneiam em tapetes vermelhos luzidios de vaidades. Pouco tempo e saber, devemos gastar com este andar de pés de barro e acefalias, fruto de finanças fáceis ou corrupção irresponsável quando tira o pão da mesa dos pobres e viola o bem comum, porque não singrou o princípio da justiça, tão reclamado por Deus em toda a História da Salvação. Tantos que viram isso e sofreram com isso.
6. Como defendem alguns filósofos a «humanidade é o lugar onde vamos à procura». Despidos de preconceitos, vemos a «divindade humanada» e «a humanidade divinizada», como sinal de que a escuridão das fronteiras foram iluminadas, que pela fé inabalável (ou cheia de dúvidas), faz o lugar do encontro, que no pensamento kantiano significa «o Homem e a Mulher são o caminho do mundo». É aqui que nos libertamos, é por aqui que nos encontramos em sublime condição limitada, que ao mesmo tempo se humaniza e diviniza, traduzido pelas mãos unidas da fraternidade. Sempre com muitas dúvidas, a mais radical e sentida dor que se acolhe com liberdade e com gosto, que maiormente, alimentamos até ao dia em que entraremos na confluência do amor. Nada disto é apaziguador, mas é dinamizador, porque nos faz entrar com pés e mãos na construção da existência, fermentada com procura criativa. Saibamos perscrutar e decifrar os anátemas que se nos aparecem e façamos deles a nossa verdadeira aparição.